Direita tem vantagem em uma Espanha pressionada pelos mercados

No entanto, o mesmo caminho de austeridade que trouxe impopularidade ao governo socialista deve ser seguido pelo novo Poder Executivo

Madri – A direita espanhola é a grande favorita nas eleições de domingo diante dos socialistas atualmente no poder em um país pressionado pelos mercados, antes de desenhar um caminho de sacrifícios para tentar colocar nos eixos uma economia castigada pela alta taxa de desemprego.

As últimas sondagens confirmam uma ampla maioria para o Partido Popular (PP, direita) de Mariano Rajoy, 56 anos, que deverá ser o próximo chefe do governo espanhol. Após duas derrotas, em 2004 e 2008, deve superar o castigado Partido Socialista Trabalhador Espanhol (PSOE).

O candidato socialista e ex-número dois do governo, Alfredo Pérez Rubalcaba, de 60 anos, não consegue reverter a difícil tendência do país, que já possui quase cinco milhões de desempregados e enfrenta a aplicação de duras medidas de austeridade pelo presidente José Luis Rodríguez Zapatero.

Congelamento das pensões, aumento da idade de aposentadoria de 65 para 67 anos, redução de 5% nos salários dos funcionários públicos e aumento da carga tributária, foram algumas das medidas de ajuste aplicadas pelo socialista. Esse caminho de austeridade, que deve ser seguido pelo novo Poder Executivo.

“Esta crise devora quem governa, sejam eles de direita ou esquerda”, afirmou o professor de Ciências Políticas Antón Lossada, da Universidade de Santiago de Compostela. Para ele, “a crise simplesmente afundou o Partido Socialista”.

As pesquisas mais recentes indicam que o PP elegerá entre 192 e 198 candidatos, número muito superior aos 176 deputados que marcam a maioria absoluta no Congresso, a Câmara Baixa do Parlamento espanhol.

Para os socialistas será a pior derrota desde a volta da democracia com a eleição de apenas 112 candidatos.


Relutante ao falar sobre as medidas que tomará, caso chegue ao poder, Rajoy adverte “minha prioridade são as aposentadorias. A partir daí, tudo vai ter que ser cortado”.

O futuro chefe de Governo terá que atuar de forma rápida para acalmar os mercados, que na quinta-feira obrigaram o Tesouro a conceder uma taxa de juros recorde para conseguir financiamento.

“Acreditamos ser muito provável, que logo na próxima semana, (o novo governo que vencer nas urnas) anunciará um pacote de reformas destinadas a recuperar a credibilidade da economia”, escreveram os analistas do banco Bankinter.

Estes analistas afirmam que as medidas devem ser direcionadas para uma “reforma trabalhista, reforma fiscal e saneamento definitivo do sistema financeiro”, já iniciado pelo governo socialista com a redução das poupanças, elo mais fraco do sistema financeiro espanhol.

Contudo, as medidas para tranquilizar os mercados, podem exaltar ainda mais os espanhóis, já indignados com os cortes de algumas regiões na educação e saúde. Ontem vários protestos aconteceram em todo o país.

“Terão que cortar outras coisas, a educação e a saúde são os mais importantes”, afirmou em Madri Alexandra Jaksic, estudante de História da Arte de 19 anos, e que não deposita muitas esperanças nas eleições.

“O novo governo vai fazer o mesmo ou até pior. O governo socialista não tem nada de socialista. Levou dois anos fazendo cortes e os outros vão fazer os mesmos cortes ou pior”, disse à AFP.

“Acho que quem vai ganhar será o Partido Popular e não vai apenas ganhar vai ser obrigado a adotar medicas econômicas drásticas”, afirmou Federico Cres, empregado da companhia aérea Iberia.

Cerca de 36 milhões de espanhóis foram convocados às urnas no domingo para eleger 350 deputados e 208 senadores. Além dos dois grandes partidos, outras 20 formações políticas regionais e nacionais vão se apresentar.