Dia de eleição na Síria, mais dividida do que nunca

Em um país fragmentado após cinco anos de guerra e com o envolvimento de diferentes forças armadas, esta eleição ocorre apenas em áreas sob controle do governo

Alguns votam por dever cívico ou para apoiar Bashar al-Assad, enquanto outros rejeitam uma votação que consideram ilegítima: os sírios foram chamados às urnas nesta quarta-feira para legislativas organizadas pelo regime, mas criticadas pela oposição.

Em um país totalmente fragmentado após cinco anos de guerra e com o envolvimento de diferentes forças armadas, esta eleição ocorre apenas em áreas sob controle do governo, um terço do território, onde vive cerca de 60% da população.

Como nas eleições anteriores, em 2012, esta votação deverá ter pouco impacto sobre o curso da guerra que custou 270.000 vidas e causou mais de 200 bilhões de dólares em destruição.

As assembleias de voto abriram às 7h00 (01h00 de Brasília) e deveriam fechar às 19h00, mas, de acordo com a televisão estatal, que evocou uma “forte participação”, as autoridades estenderam a votação até a meia-noite.

“Nós cumprimos o nosso dever nacional e agora cabe aos eleitos manter as suas promessas”, explica Samer Issa, um motorista de 58 anos, após votar em Damasco.

Para esta segunda eleição legislativa desde o início da guerra, em 2011, 3.500 candidatos concorrem a 250 assentos parlamentares.

Os resultados, esperados nos próximos dias, devem ser semelhantes aos das legislativas de 2012, de acordo com especialistas. O Partido Baath, que governa o país com mão de ferro há mais de meio século, obteve na ocasião a maioria das cadeiras.

Votação em Palmira

O presidente Assad votou com sua esposa na Biblioteca Nacional.

“Estamos testemunhando nos últimos cinco anos uma guerra, mas o terrorismo não conseguiu atingir o seu principal objetivo, o de destruir a estrutura social da Síria e sua identidade nacional, expressa através da Constituição”, declarou. “É para defendê-la que estamos todos juntos hoje”, acrescentou, em resposta aos opositores que chamaram esta eleição de “ilegítima”.

A guerra esteve no centro da campanha eleitoral, e esta eleição é realizada após várias semanas de relativa calma em função de um acordo de cessar-fogo sob os auspícios dos americanos e russos.

Mas a guerra deve se acirrar entre as forças do regime, os rebeldes islâmicos moderados e as duas formações jihadistas rivais, o grupo Estado Islâmico (EI) e a Frente Al-Nosra, o ramo sírio da Al Qaeda.

A escalada da violência pode pesar nas negociações indiretas entre o regime e a oposição, que são retomadas nesta quarta em Genebra.

Em Palmira (centro), onde o exército expulsou os jihadistas do EI em 27 de março, oito locais de voto foram instalados, incluindo um na entrada do museu arqueológico devastado pelos extremistas.

‘Não acredito’

Em Aleppo (norte), segunda cidade do país, a votação terá lugar apenas nas áreas controladas pelo regime. Na parte rebelde, os habitantes expressaram sua hostilidade.

“Isso é uma piada. Eu não acredito nestas eleições. Assad só quer mostrar que ele tem um Estado, um povo e um regime sólido”, declarou Mohamed Zobeidiyyé, um mecânico.

A votação também é denunciada por adversários do exterior e do interior, bem como por países ocidentais como a França, que falaram de uma “farsa”.

As Nações Unidas exigem, por sua vez, a realização de eleições gerais em 2017.

No entanto, para o ministro das Relações Exteriores russo, Sergei Lavrov, o papel das eleições é “não deixar um vácuo na esfera” do poder sírio.

De acordo com a comissão eleitoral, a eleição acontece em todos os lugares, exceto nas províncias de Raqa e Idleb (norte) nas mãos do EI e da Frente Al-Nosra, e nas áreas controladas pelos rebeldes.

Os eleitores dessas áreas podem, no entanto, votar em áreas controladas pelo exército.

Quanto aos curdos, eles disseram que não se sentem “envolvidos” e na obrigação de participar desta votação nas áreas que controlam, no nordeste.