Derrota do primeiro-ministro mostra fragilidade política no Japão

Depois de perder uma votação estratégica sobre a privatização dos Correios no Japão, o primeiro-ministro Junichiro Koizumi detonou uma guerra civil em seu próprio partido. Insatisfeito com a derrota, Koizumi convocou eleições antecipadas, revelando publicamente a crise política que vive o país.

Segundo a revista britânica The Economist, a questão da privatização dos Correios tornou-se um símbolo da luta entre os reformistas pró-mercado e a velha guarda. A proposta apresentada pelo governo foi derrotada no Senado pela ala conservadora de seu próprio partido, o Liberal Democrático (PLD). Com a ajuda da oposição, a dissidência do PLD bateu o governo por 125 votos a 108.

Junichiro Koizumi, líder do PLD, respondeu exatamente como havia ameaçado, convocando para 11 de setembro eleições antecipadas para a Câmara dos Deputados, já que não dispõe de poderes constitucionais para fazê-lo com o Senado.

Segundo The Economist, as eleições de 11 de setembro devem ser das mais disputadas desde a Segunda Guerra Mundial. É possível que o PLD perca seu predomínio político de 50 anos para o Partido Democrático do Japão, com conseqüências para o país que são difíceis de antecipar. “A divisão do partido é um desdobramento extraordinário pelos padrões japoneses de política guiada por cautela e consenso”, diz a reportagem.

Os Correios do Japão fazem muito mais do que vender selos e entregar correspondência. A rede com 25 000 agências oferece contas para depósito de poupança e comercializa apólices de seguro de vida. Esses ativos somam 3 trilhões de dólares. O plano de Koizumi era separar essas operações da atividade estritamente postal e deixar que as forças de mercado determinassem um melhor uso dos recursos.

Para os conservadores, a mudança assusta tanto por seus efeitos econômicos como pelo desmantelamento de uma estrutura nacional de gerentes de agência postal que desempenham o papel de cabos eleitorais.

Segundo a Economist, os senadores tinham de escolher entre duas opções difíceis. Ou aprovar a lei, abrir caminho para uma economia mais competitiva e perder o apoio dos chefes de agência postal (o que traria dificuldades para vencer as eleições em suas bases eleitorais), ou derrubar a lei e causar a convocação de eleições antecipadas, com grandes riscos para o PDL como agremiação política. Um grande número de políticos achou melhor proteger sua reeleição individual, em detrimento do partido.