Demora do Brasil ajuda a eleger Lamy na OMC

Governo demorou demais para divulgar seu apoio ao candidato uruguaio, avalia especialista

A eleição do francês Pascal Lamy para a diretoria da Organização Mundial do Comércio (OMC), apesar de já prevista por especialistas, teve um empurrão adicional: a demora do Brasil em apoiar seu opositor, o uruguaio Carlos Pérez del Castillo. “A prepotência do Brasil, que se negou a apoiar desde o início del Castillo, acabou inviabilizando a candidatura uruguaia”, avalia o pesquisador em Relações Internacionais, José Augusto Guilhon Albuquerque.

O principal motivo dessa demora, segundo Guilhon, pode estar em um documento, redigido há dois anos. Durante os preparativos para a conferência da OMC em Cancún, em setembro de 2003, houve uma embate entre os países em desenvolvimento e os industrializados, que não se entenderam na questão agrícola. Na visão de alguns países, principalmente o Brasil, o texto final redigido pelo então presidente do Conselho Geral, del Castillo apoiava a posição dos Estados Unidos e União Européia.
A chegada de Lamy à diretoria da OMC, no entanto, não deve mudar significativamente os rumos do comércio internacional. O motivo está na própria estrutura da OMC, que não concede poder decisório ao diretor-geral.

Na prática, sua função é a de conciliador, ou seja, um papel executado mais nos bastidores do que efetivamente assinando documentos oficiais. Lamy terá essa tarefa pelos próximos três anos.

Interesses locais

Guilhon acha pouco provável que a escolha de Lamy para o cargo na OMC acabe beneficiando os interesses europeus. Segundo ele, o ex-comissário de comércio da União Européia é, pessoalmente, contrário à exorbitante ajuda do governo concedida aos fazendeiros europeus, que chega a 53 bilhões de dólares por ano. “Na OMC, Lamy estará menos sujeito às pressões da política local”, diz o professor Guilhon, que se aposenta da Universidade de São Paulo neste mês para se dedicar a um novo curso de graduação em Diplomacia, na Universidade São Marcos, em São Paulo.

Aos 58 anos, Lamy é um homem de controvérsias: historicamente, é um defensor do socialismo, mas isso não impede que sua imagem seja constantemente queimada durante os movimentos antiglobalização. Ele tem sido, abertamente, um defensor do livre comércio.