Damasco dividida entre fé e fatalismo com possível ataque

Governo se vale do grande nacionalismo do povo sírio ao dizer que está preparado para enfrentar primeiro ataque ocidental à Síria desde a Segunda Guerra Mundial

“Damasco não se renderá”. Se inúmeros sírios fizeram as malas e foram embora temendo o iminente ataque ocidental contra o regime, Dima, assim como muitos moradores da capital, mostra uma atitude desafiadora frente ao “complô americano”, enquanto outros não escapam ao fatalismo.

No bairro popular de Salhiyé, diante de um prato de chich taouk (pedaços de frango marinado), Dima, uma pintora de 30 anos, afirma estar “até o fim” com o presidente Bashar al-Assad porque está “certa que ele irá nos defender”.

Como muitas pessoas entrevistadas pela AFP em Damasco, ela se diz convencida de que os Estados Unidos e seus aliados querem atingir o regime – acusado de usar armas químicas contra civis e de travar um conflito sanguinário há mais de dois anos contra os rebeldes – para enfraquecer o “eixo de resistência” formado por Damasco, Teerã e o Hezbollah libanês, todos na lista negra de Washington.

“Damasco é uma fortaleza, uma pedra no meio do caminho dos americanos, e não vai se render”, garante a jovem.

O governo se vale do grande nacionalismo do povo sírio ao dizer que está preparado para enfrentar o primeiro ataque ocidental à Síria desde os bombardeios da Segunda Guerra Mundial.

As redes de televisão oficiais enaltecem, assim, a “resistência” da Síria perante o “agressor” e exibem diariamente imagens do Exército em combate.

“Caso haja um ataque, eu estarei à disposição do nosso Exército, seja para combater, para ajudar, pouco importa”, afirma Dima.

“Se eu tivesse medo, teria ido embora há muito tempo”, diz ainda.


Segundo ONGs instaladas no Líbano, o número de famílias sírias que chegam ao país, cuja média variava de 40 a 60 por dia antes do suposto ataque químico do último 21 de agosto, pulou para cerca de 80 a 120.

Ao redor de Dima, à exceção do barulho intermitente dos bombardeios, as barreiras e os militares nas ruas, tudo leva a crer que o ambiente é de “normalidade”. Vendedores de milho anunciam o seu produto, as jovens olham as vitrines e uma aglomeração de pessoas se forma diante de um vendedor ambulante de sucos e saladas de frutas.

“Resistir” como no tempo da dominação francesa

Alguns são fatalistas. “O que estiver escrito acontecerá”, suspira, através de seu véu, Hanane, que faz compras numa loja cheia de sapatos. “Vim às compras para ir a um casamento, não estou muito preocupada”.

Mas na capital, base do regime, quem aceita ser entrevistado reproduz o discurso combativo das autoridades, apesar de uma certa hesitação.

“Nós ficaremos aqui e resistiremos, e é assim que vamos vencer”, afirma Oum Hassan, de véu branco e óculos pretos, perto da estação de Hijaz, no centro da cidade.

“Mesmo que haja um banho de sangue, Damasco vai resistir, mesmo que eles entrem com tanques, será preciso passar por cima de nós”, diz Fouad, uma outra damascena.

As pessoas se divertem ao dizer que vão “resistir” assim como fez Youssef al-Azmeh, herói nacional que lutou contra a França, antiga potência mandatária, e que tem uma estátua em sua homenagem há poucos metros dali.


“Youssef al-Azmeh tinha só alguns fuzis à disposição e nunca cedeu aos franceses. Nós faremos o mesmo”, garante Abou Firas, operário.

Diante de um possível ataque francês, o regime e a imprensa estatal fazem um jogo de oposição entre duas Franças: aquela do general de Gaulle e a de hoje, que consideram “serva” dos Estados Unidos.

“A França deveria se envergonhar de ficar seguindo os Estados Unidos desta maneira”, grita um homem.

Para outros, os tambores da guerra que se aproxima lembram a guerra de outubro, há 30 anos, quando Síria e Egito atacaram Israel para recuperar as Colinas de Golã.

“Em 1973, eu tinha 14 anos e subia no teto da minha casa para olhar os aviões israelenses”, lembra o engenheiro Mazen, ao olhar as manchetes da imprensa oficial.

“A fé na nossa vitória será mais forte do que qualquer força militar”, acredita.