Dá para adiar o Brexit?

Fruto de 17 meses de difíceis negociações entre Londres e Bruxelas, o documento de 585 páginas sofreu um histórico golpe em um Parlamento amplamente hostil

“Estamos a dez semanas (do Brexit) e, no dia de hoje, nunca o risco de um ‘não acordo’ pareceu tão alto”, advertiu o negociador-chefe da União Europeia (UE) para o Brexit, Michel Barnier, nesta quarta-feira (16).

A declaração de Barnier foi dada diante dos eurodeputados em Estrasburgo, um dia depois da rejeição do acordo por parte do Parlamento britânico.

“Nossa resolução continua sendo a de evitar um cenário desses, mas temos a responsabilidade de sermos lúcidos. Esta é a razão pela qual vamos intensificar nossos esforços para estarmos preparados para essa eventualidade”, afirmou.

“Ainda é muito cedo para avaliar as consequências dessa votação”, completou.

Fruto de 17 meses de difíceis negociações entre Londres e Bruxelas, o documento de 585 páginas sofreu um histórico golpe em um Parlamento amplamente hostil: 432 deputados votaram contra, e apenas 202, a favor. Nem todos pelo menos motivo.

Nesse sentido, Barnier constatou “as motivações muito diferentes, muito diversas, às vezes, opostas, e até contraditórias” dos parlamentares que votaram contra.

“Nesse contexto, cabe às autoridades britânicas oferecer hoje, ou amanhã, a avaliação dessa votação e, ao governo britânico, indicar como quer proceder para uma retirada ordenada em 29 de março”, insistiu em sua fala aos eurodeputados.

Sobre o principal problema no acordo para os partidários do Brexit, o mecanismo pensado para evitar a reintrodução de uma fronteira dura na ilha da Irlanda, conhecido como “backstop”, Barnier frisou que deve ser “crível”.

“O ‘backstop’ que acordamos com o Reino Unido deve continuar sendo um ‘backstop’ crível”, apontou o negociador europeu, reiterando sua importância para a segurança e para a estabilidade na Irlanda e a província britânica da Irlanda do Norte.

Os europeus continuam defendendo o acordo fechado com Londres, aprovado pelos presidentes em 25 de novembro como o melhor compromisso possível. Na véspera, o chanceler austríaco, Sebastian Kurz, afirmou que não se contempla uma renegociação.

“Adiar o Brexit para além de 29 de março é jurídica e tecnicamente possível”, se Londres solicitar, disse, por sua vez, a ministra francesa dos Assuntos Europeus, Nathalie Loiseau.

“No momento em que se fala disso, é apenas uma hipótese, já que (a primeira-ministra Theresa) May nunca pediu, nem ninguém de seu entorno”, acrescentou a ministra Nathalie, em declarações à rádio France Inter.

Ela lembrou que, “para isso, os britânicos têm que solicitar, e tem que haver um acordo unânime dos outros 27 membros da União Europeia”.

“Mas, por quanto tempo e por que fazer isso? Se for para nos dizer que temos que conceder mais, então vai ter problema”, continuou.

Para o ministro alemão das Relações Exteriores, Heiko Maas, em entrevista à rádio Deutschland Funk, adiar o Brexit “teria sentido apenas se tivesse uma maneira de conseguir um acordo entre a União Europeia e a Grã-Bretanha e, no momento, não é a opinião majoritária no Parlamento britânico”.

Mas duvida da necessidade de renegociar o acordo com a União Europeia, ressaltando que já se negociou um “compromisso”.

Ontem, a premiê Theresa May disse que a data do Brexit não deve ser adiada, mas não excluiu essa possibilidade completamente.