Curdos assumem cidade iraquiana de Sinjar, ex-reduto do EI

Uma coalizão árabe-curda síria, apoiada pelos Estados Unidos, expulsou os jihadistas do EI de uma posição estratégica na fronteira com o Iraque

As forças curdas iraquianas recuperaram nesta sexta-feira o controle da cidade de Sinjar, até então nas mãos do grupo jihadista Estado Islâmico (EI), cortando assim uma estratégica rota utilizada pelos terroristas entre o Iraque e a Síria.

“Estou aqui para anunciar a libertação de Sinjar”, declarou o líder da região autônoma do Curdistão iraquiano, Massud Barzani, durante uma coletiva de imprensa perto desta cidade do norte do Iraque.

Paralelamente, uma coalizão árabe-curda síria, apoiada pelos Estados Unidos, expulsou os jihadistas do EI de uma posição estratégica na fronteira com o Iraque, segundo o porta-voz do grupo.

Em uma entrevista concedida à ABC News, o presidente americano Barack Obama garantiu que os Estados Unidos frearam os avanços do EI.

“Eu não acredito que eles estão ganhando força”, disse Obama. “Desde o início, nosso primeiro objetivo é conter, e o temos contido. Eles não ganharam terreno no Iraque”, declarou em referência aos terroristas.

Pouco antes, o secretário de Estado americano, John Kerry, afirmou estar “absolutamente confiante” de que Sinjar será libertada “nos próximos dias” graças a ofensiva das forças curdas, lançada na quinta-feira com o apoio dos ataques aéreos da coalizão internacional liderada pelos Estados Unidos e de conselheiros americanos no terreno.

Pela manhã, combatentes Peshmergas entraram na cidade a pé, a partir do norte.

Eles exibiam bandeiras do Curdistão, disparando para o ar, aos gritos de “Longa vida aos Peshmergas!” e “Longa vida ao Curdistão!”.

Mahma Khalil, líder curdo, indicou à AFP no início da noite que a situação é “estável em Sinjar”, acrescentando que “todos os combatentes do EI fugiram” da cidade.

A visão da cidade é de desolação, com casas, lojas e carros destruídos.

A retomada de Sinjar pode desferir um importante golpe contra os jihadistas no plano estratégico, mas também representar uma importante vitória simbólica: os jihadistas tomaram a cidade em agosto de 2014, cometendo inúmeros abusos contra sua população yazidi, de língua curda.

Suicidas e atiradores

“Sinjar está isolada pelos combatentes ou tiros”, indicou nesta manhã o coronel Steve Warren, porta-voz da coalizão internacional, em referência aos ataques aéreos.

Segundo um comandante curdo, Khalaf Murad Atto, suicidas do EI ainda estão em Sinjar. Um combatente yazidi, Rasho Mourad, indicou que atiradores e bombas também são uma ameaça.

Uma das tarefas que esperam as forças curdas na cidade é desarmar as bombas deixadas pelos jihadistas, uma tática amplamente utilizada pelo EI para evitar seus inimigos de entrar em uma cidade.

Até 7.500 combatentes curdos participam na operação para retomar Sinjar e “estabelecer uma zona tampão para proteger (a cidade) e seu povo”, segundo o Conselho de Segurança da região autônoma do Curdistão iraquiano (KRSC), no norte do país.

Conselheiros militares americanos estão “na montanha de Sinjar para ajudar” os Peshmergas “a selecionar alvos para ataques aéreos”, indicou, por sua vez, o porta-voz do Pentágono, Peter Cook.

Um oficial da inteligência militar americana, o capitão Chance McCraw, afirmou em Bagdá que os Peshmergas enfrentam de 300 a 400 jihadistas na localidade de Sinjar.

Vários veículos carregados com explosivos foram alvejados pelas incursões da coalizão antes de os curdos entrarem na cidade, enquanto os Peshmergas destruíram outro com um míssil anti-tanque Milan, de acordo com KRSC.

A cidade de Sinjar fica em uma rota estratégica que liga Mossul (norte), reduto dos jihadistas no Iraque, à Síria, onde o EI também controla vastos territórios.

O objetivo da operação é isolar Mossul, segundo Steve Warren.

“Ao cortar a comunicação na autoestrada 47 (do Iraque à Síria) estamos reduzindo a capacidade de abastecimento do EI”, completou Warren.

O fato da operação em Sinjar acontecer ao mesmo tempo que outras ações contra o EI no Iraque e na síria aumenta a pressão sobre o grupo jihadista.

A operação “Paralisar o inimigo”, que “deverá tomar decisões muito difíceis” nas frentes que precisa para fortalecer, disse Steve Warren.

Durante sua ofensiva em agosto de 2014 em Sinjar, o EI executou muitos homens yazidis, uma comunidade que considera herética, e sequestrou centenas de mulheres, vendidas como noivas para jihadistas ou reduzidas a escravas sexuais, segundo a Anistia Internacional.

O ataque foi descrito pela ONU como “genocídio”. Dezenas de milhares de yazidis se refugiaram nas montanhas de Sinjar, permanecendo bloqueados por semanas sem água, comida e submetidos a altas temperaturas.