Cristina Kirchner tenta reeleição após gestão marcada pela morte de marido

Presidente concorrerá ao cargo em outubro, para ficar mais quatro anos na Casa Rosada

Buenos Aires – Cristina Fernández, a primeira mulher escolhida para ocupar a Presidência da Argentina, concorrerá este ano à reeleição com o objetivo de validar uma gestão marcada por polêmicas medidas e a surpreendente morte de seu marido e antecessor, Néstor Kirchner.

Cristina, de 58 anos, anunciou nesta terça-feira que concorrerá no pleito de outubro, para o qual, segundo várias enquetes, conta com uma ampla intenção de voto para triunfar e ficar outros quatro anos na Casa Rosada.

Embora com estilo próprio, a dirigente peronista cumpriu a promessa de aprofundar um modelo político e econômico, com acertos e erros, administrado por Néstor Kirchner, que morreu de um ataque cardíaco em outubro do ano passado.

“Meu compromisso é irrenunciável e irrevogável, não só pela memória e o legado de Kirchner, mas fundamentalmente pelos jovens que tanto esperam deste novo país e no qual espero ser uma ponte entre as novas e velhas gerações”, disse Cristina ao anunciar hoje que buscará a reeleição.

Após duas décadas de uma trajetória política que soube construir graças a um destacado trabalho legislativo e uma forte vocação de poder, a presidente se transformou em 2007 na primeira mulher a ser escolhida para ocupar a Presidência argentina.

Nas eleições presidenciais desse ano alcançou 45,29% dos votos, quase o dobro de Kirchner em 2003, e assumiu o Executivo com uma imagem positiva de 51%.

Uma das conquistas de sua gestão foi manter o ritmo de crescimento econômico, até a crise global suscitada em 2008.

Também conquistou os mercados ao reabrir em 2010 a milionária troca de dívida com credores privados em 2005 e iniciar negociações para regularizar a dívida com o Clube de Paris, embora tomasse outras medidas polêmicas como utilizar reservas excedentes do Banco Central para pagar dívidas soberanas do país.

Outro ponto controvertido é o gerenciamento questionado dos dados oficiais de inflação, como também a decisão de não esfriar a economia apesar à escalada de preços, criticada por economistas ortodoxos.

A Cristina também recebeu os ‘créditos’ por não ter calculado os custos econômicos e políticos do conflito com o setor agrário que explodiu em março de 2008, quando o Governo tentou impor impostos móveis às exportações de grãos.

No político, a decisão do vice-presidente argentino, Julio Cobos, de opor-se a essa iniciativa supôs que passasse a se transformar de um líder opositor.

Além disso, o conflito com o campo manchou a imagem positiva de Cristina, processo que resultou em uma dura derrota eleitoral para o Governo no pleito legislativo de junho de 2009, pela qual perdeu sua maioria absoluta no Parlamento.

No entanto, após essas eleições a oposição não conseguiu consolidar-se, por isso que hoje nenhum dos rivais de Cristina que aspiram à Presidência iguala ou supera a governante em intenções de voto nem em imagem positiva, segundo as últimas pesquisas.


De rigoroso luto, Cristina enfrentou com integridade a morte de seu marido, embora em certos momentos não tenha ocultado tristeza e cansaço.

A presidente confessou que, com o falecimento de Kirchner, uma parte dela “se foi com ele”, o “companheiro” de toda sua vida, como gostava de chamá-lo e com quem se casou em 1975, um ano após se conhecerem na universidade e depois de seis meses de namoro.

Herdeira da chefia política do governante Partido Justicialista, no qual milita desde sua juventude, Cristina também se mostrou frágil pelas tensões dentro do peronismo, em particular com os setores sindicais que a apóiam, mas que pressionam por conquistar espaços de poder.

Filha de um casal de classe média de La Plata (60 quilômetros ao sul de Buenos Aires), a presidente é mãe de Máximo, de 34 anos e de Florença, de 21 anos, que nasceram em Río Gallegos, capital da sulina província de Santa Cruz, a terra natal de Kirchner e onde repousam os restos do ex-presidente.