Credibilidade do Fed segura os juros de longo prazo nos EUA

Apesar do aumento da taxa básica de juros americana, os títulos de longo prazo podem oferecer juros baixos porque os investidores confiam na política monetária do país

Desde junho do ano passado, o Federal Reserve (Fed) já reajustou a taxa básica de juros americana (a Fed Funds Rate) seis vezes, elevando-a de 1% ao ano para 2,5%. Mas, ao contrário do que supunham muitos economistas, as taxas oferecidas pelos títulos americanos de longo prazo não acompanharam a alta e permaneceram estáveis nesse período. Para a consultoria Tendências, o que tem segurado os juros de longo prazo, nos Estados Unidos, é a credibilidade e a previsibilidade da política monetária.

Alguns economistas atribuem os baixos juros de longo prazo à atuação dos bancos centrais asiáticos e europeus, que investiram pesadamente em treasures (títulos do Tesouro americano) no ano passado. Outros afirmam que as dúvidas em relação à economia dos Estados Unidos estariam levando investidores estrangeiros a desviar recursos da renda variável para a renda fixa, o que elevaria o preço dos papéis.

De acordo com José Márcio Camargo, sócio da Tendências, nenhuma dessas explicações é satisfatória. Para o economista, a demanda dos investidores por papéis de renda fixa já vinha crescendo desde a década de 90. O boom das ações de tecnologia, na Nasdaq, enfraqueceu esse interesse por um momento, mas quando a bolha estourou, por volta de 2000, o nível de investimento em renda fixa se fixou em patamares superiores ao do período pré-bolha. Ao mesmo tempo, o governo americano intensificou a emissão de títulos públicos para cobrir o crescente déficit fiscal, que hoje representa cerca de 4% do Produto Interno Bruto do país.

Segundo Camargo, não é razoável supor que a ação recente dos bancos centrais da Europa e da Ásia seja responsável pela manutenção de baixos juros de longo prazo, porque a demanda por papéis de renda fixa é anterior a esse fluxo de investimentos. Além disso, o sócio da Tendências afirma que não há indícios de que os investidores estejam pessimistas com a economia do país.

Previsibilidade

A melhor explicação para a pequena remuneração oferecida pelos treasures, segundo Camargo, é a confiança dos investidores na política econômica dos Estados Unidos. Pela primeira vez, o Fed estaria elevando a taxa básica de juros para se antecipar a possíveis pressões inflacionárias. Essa antecipação permite que os movimentos do Fed sejam lentos e graduais, dando tempo aos agentes para se adaptarem ao nível de juros reais.

“O principal efeito desta estratégia é o aumento da credibilidade e da previsibilidade da política monetária executada pelo Fed”, afirma Camargo, em relatório divulgado nesta quarta-feira (9/3). É essa capacidade de antever as ações da autoridade monetária que reduz a expectativa de inflação futura e fortalece a aposta em uma alta suave dos juros. “O aumento da credibilidade e da previsibilidade da política monetária americana deverá resultar em menores taxas de juros reais de equilíbrio e uma curva de juros menos inclinada que no passado”, diz.