Coreia do Norte anuncia exercício de “ataque de longo alcance”

O comunicado da KCNA não precisa que tipo de arma foi testada, e evita usar as palavras "míssil", "foguete" e "projétil"

O líder da Coreia do Norte, Kim Jong Un, ordenou um exercício de “ataque de longo alcance”, informou a agência de notícias estatal em Pyongyang nesta sexta-feira (10), horas após a Coreia do Sul revelar o lançamento de mísseis norte-coreanos de curto alcance.

“No posto de comando, o líder supremo, Kim Jong Un, foi informado sobre um plano de exercício de ataque de vários meios de longo e deu a ordem para a realização” da simulação, segundo a KCNA.

Na quinta-feira, Pyongyang disparou aparentemente dois mísseis de curto alcance de Kusong, na província de Pyongan do Norte, segundo o Estado-Maior sul-coreano.

O comunicado da KCNA não precisa que tipo de arma foi testada, e evita usar as palavras “míssil”, “foguete” e “projétil”.

“A mobilização e ataque bem sucedidos, planejados para testar a habilidade de reação rápida das unidades de defesa […] mostrou o poder destas unidades, que estavam totalmente preparadas para realizar de forma competente qualquer operação e combate”, assinalou a KCNA.

O comunicado ocorre no momento em que os Estados Unidos anunciaramcaptura de um navio cargueiro norte-coreano, e o presidente Donald Trump perguntar abertamente sobre a vontade de Kim Jong Un de negociar seriamente a desnuclearização da península.

O lançamento de dois projéteis norte-coreanos coincidiu com a visita a Seul de um enviado dos Estados Unidos para tentar desbloquear as negociações sobre a crise nuclear entre Washington e Pyongyang.

Em Nova York, procuradores federais anunciaram que o “Wise Honest” – um dos maiores navios cargueiros norte-coreanos, segundo os Estados Unidos – foi retido por violar as sanções internacionais ao exportar carvão e importar maquinaria.

Na Casa Branca, Trump disse que observa o lançamento de mísseis “muito seriamente” e criticou este passo dado por Pyongyang.

“Eram mísseis pequenos, de curto alcance. Ninguém está contente com isso”, disse o presidente a jornalistas.

“A relação continua. Mas vamos ver o que acontece. Sei que querem negociar, falam sobre isso. Mas não penso que estão prontos para negociar”, destacou.

Na reunião em Singapura, em junho de 2018, o líder norte-coreano se comprometeu com Trump a “trabalhar pela desnuclearização completa da península coreana”.

Advertência sul-coreana

Mas as conversações emperraram após o fracasso do segundo encontro entre os dois chefes de Estado em fevereiro passado no Vietnã. Nesta reunião, Kim pediu o fim das sanções contra seu país, em troca do início do processo de desnuclearização, uma proposta considera muito tímida por Trump

O lançamento de mísseis desta quinta-feira ocorre dias depois de o Exército norte-coreano ter realizado um exercício, no qual vários projéteis foram lançados, incluindo um míssil de curto alcance.

“O Norte disparou o que poderiam ser dois mísseis de curto alcance” da província de Pyongan do Norte, informou nesta quinta o chefe do Estado Maior sul-coreano em um comunicado.

Ele acrescentou que os mísseis, que percorreram 270 e 420 quilômetros, estão sendo analisados pelos militares sul-coreanos e seus aliados americanos.

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A edição desta sexta-feira do Rodong Sinmun, jornal oficial do partido que governa Pyongyang, dedica a primeira páguna e parte da segunda ao lançamento de quinta-feira, com 16 fotos, uma delas de Kim observando o teste.

O presidente sul-coreano, Moon Jae-in, considerou que os disparos poderiam complicar as discussões com os Estados Unidos. “Seja quais forem as intenções da Coreia do Norte, alertamos que esse ato poderia tornar as negociações mais difíceis”, declarou à televisão.

O ministro japonês da Defesa, Takeshi Iwaya, afirmou nesta sexta-feira que Tóquio chegou à conclusão de que os últimos lançamentos foram de “mísseis balísticos de curto alcance”, o que viola as resoluções do Conselho de Segurança da ONU.

Garantias de segurança

Horas antes, o enviado especial dos Estados Unidos para a Coreia do Norte, Stephen Biegun, desembarcou em Seul para discutir com as autoridades sul-coreanas a abordagem a ser adotada nas negociações nucleares com Pyongyang.

Esta foi a primeira visita de Biegun a Seul desde que o presidente americano Donald Trump e o líder norte-coreano Kim Jong Un encerraram sem acordo uma segunda cúpula em Hanói, em fevereiro.

A base de mísseis Sino-ri, de onde teriam partido os disparos, existe a décadas e fica 75 quilômetros a noroeste da capital Pyongyang. O local abriga o equivalente a um regimento e é equipado com mísseis Nodong-1 de médio alcance, de acordo com o Centro de Estudos Estratégicos Internacionais.

Qualquer lançamento realizado a partir de Sino-ri em direção a leste deveria atravessar a península coreana antes de cair no oceano, segundo especialistas.

Biegun se reuniu com seu colega sul-coreano Lee Do-hoon, mas sua agenda política não foi divulgada.

Os dois países aliados – Washington tem 28.500 militares posicionados no Sul para fazer frente a possíveis ameaças de seu vizinho do Norte – trabalham juntos na estratégia de negociação com Pyongyang.

Com os disparos desta quinta-feira, “a Coreia do Norte está enviando uma clara mensagem de que não ficará satisfeita com uma ajuda humanitária” de Seul, segundo Hong Min, pesquisador do Instituto Coreano para a Unificação Nacional.

Pyongyang “diz: ‘queremos garantias de segurança em troca de um processo de desnuclearização'”, acrescenta.

No encontro histórico com Donald Trump, em junho de 2018, em Singapura, Kim Jong Un prometeu “trabalhar pela completa desnuclearização da península coreana”.

Mas o ceticismo aumentou com a falta de avanços concretos e com o fracasso da última reunião entre os dois líderes, em fevereiro passado, em Hanói.

Na ocasião, Kim pediu que as sanções sofridas por seu país fossem suspensas, em troca de iniciar uma desnuclearização que o presidente americano considerou muito tímida.

Na semana passada, Pyongyang alertou os Estados Unidos para o risco de um “resultado indesejável”, se o país não ajustar sua posição até o final do ano, depois de três meses de paralisia nas negociações sobre o programa balístico e nuclear da Coreia do Norte.