Contra Trump, tenemos Slim

Lourival Sant’Anna

No dia 15 de junho de 2015, véspera do lançamento da candidatura de Donald Trump, a fortuna pessoal do mexicano Carlos Slim somava 67 bilhões de dólares. Hoje, vale 51 bilhões, segundo a agência Bloomberg. O “empobrecimento” do empresário, que em 2013 foi considerado a pessoa mais rica do mundo (hoje é a quinta), é o resultado da desvalorização do peso mexicano frente ao dólar, em razão do pessimismo que se abateu sobre o México, diante das ameaças de Trump de acabar com o livre comércio e construir um muro entre os dois países — mandando a conta para os mexicanos.

Aos 77 anos, Slim, dono, entre tantas outras coisas, da América Móvil, um dos maiores grupos de telefonia celular do mundo, controlador da Claro, por exemplo, está mais “pobre”, porém mais feliz. E isso não só porque vem recuperando sua fortuna: depois de bater no seu valor mais baixo, em 11 de novembro, no calor da eleição de Trump (três dias antes), já recuperou 5,6 bilhões de dólares. O que representa ganho real, já que o peso continua débil.

Mas o motivo principal é que a cruzada de Trump contra o México converteu “O Engenheiro”, como é chamado pela elite mexicana, em uma espécie de anteparo do bilionário americano. Pesquisa publicada pelo jornal El Universal no dia 17 de março indica que 20% dos entrevistados consideram Slim “o mais apto para manter uma boa relação com Trump”; 19% escolheram Andrés Manuel López Obrador, candidato a presidente duas vezes pelo Movimento de Renovação Nacional (Morena), de esquerda; em seguida vêm o ministro das Relações Exteriores, Luis Videgaray Caso (13%); Margarita Zavala, mulher do ex-presidente Felipe Calderón (8%); e o ministro do Governo (equivalente à Casa Civil), Miguel Ángel Osorio Chong (5%); 24% não sabem.

Embora já o tenha recusado, Slim é tido por muitos mexicanos como o candidato certo na eleição presidencial do ano que vem — aquele que pode proteger o México de seu algoz do norte. É como se os mexicanos dissessem: temos o nosso Trump, e aliás muito maior. De fato, mesmo depois da mordida do câmbio, a fortuna de Slim ainda representa 17 vezes a de Trump, estimada em 3 bilhões de dólares.

Vários vídeos circularam em janeiro nas redes sociais propondo Slim para presidente. O jornalista Ricardo Raphael, colunista do Universal e âncora de programas em dois canais de TV, lista as frases que sintetizam a visão dos mexicanos que querem “O Engenheiro” no belo Palácio Nacional. Curiosamente, elas lembram o que dizem os eleitores de Trump: “Não vai roubar”, “não tem compromissos”, “líder mundial”, “não pode ser comprado”, “ninguém manda nele”, “sabe como gerar desenvolvimento”; E, claro, “antídoto contra Trump”.

Em seu discurso de lançamento de campanha, no dia 16 de junho de 2015, Trump afirmou, sobre os imigrantes mexicanos: “Eles são estupradores. E alguns, imagino, são pessoas boas”. Duas semanas depois, a Ora TV, emissora pertencente a Slim e presidida por seu genro Arturo Elías Ayub, anunciou o cancelamento de um projeto em parceria com a Organização Trump. Os canais Univision, que transmite em espanhol, e NBC, por sua vez, deixaram de transmitir o concurso de Miss Universo, cujos direitos pertencem ao grupo.

Trump reagiu às reportagens investigativas do jornal The New York Times — uma das quais mostrou que ele sonegou impostos — acusando seus repórteres de serem “lobistas de Carlos Slim”. Isso porque o empresário mexicano detém 17% da empresa proprietária do jornal, o que o torna seu maior acionista.

Em uma entrevista em 2013 no programa Late Show, a desproporção entre as duas fortunas chegou a ser motivo de piada. O entrevistador David Letterman perguntou a Trump quanto Slim tinha. Ele respondeu: “Debaixo do pano, em torno de 60 bilhões. Debaixo do pano, mas tudo bem”. Letterman perguntou então quanto Trump tinha. “Dizem que tenho 9 bilhões”, tornou Trump, como se não soubesse quanto possuía. O entrevistador e o público riram. Trump arrematou, sorrindo: “Não me sinto muito bem quando você fala de Carlos Slim”.

Com a eleição de Trump, os dois se reconciliaram. No fim de semana que precedeu o Natal, o presidente eleito recebeu Slim em seu balneário de Mar-a-Lago, na Flórida. No seu estilo esparramado, Trump afirmou ter tido “um jantar adorável com um homem maravilhoso”.

Um mês depois, em uma rara entrevista coletiva, Slim posou para fotos com um exemplar do último livro de Trump, “Grande de novo”, o mote de sua campanha, em referência à América. “Trump não é um exterminador, é um negociador”, assegurou ele. O empresário, no entanto, criticou as propostas de Trump de impor tarifas alfandegárias de 35% sobre produtos mexicanos e de construir o muro, argumentando que a melhor forma de combater a imigração ilegal é gerar empregos no México — por exemplo, com o comércio.

Plataforma de governo

Apesar de Slim descartar a possibilidade de se lançar a presidente, observadores como Raphael viram na coletiva uma ampla plataforma de governo. “Ele expôs sua visão para enfrentar a crise e detalhou algumas das políticas públicas que o país deveria empreender para fortalecer o mercado interno”, afirma o analista. “Por último, festejou a unidade da sociedade mexicana provocada pela decisão do presidente Enrique Peña Nieto de cancelar a visita a Washington”, que estava prevista para o dia 31 de janeiro.

A popularidade de Slim — antes prejudicada pelos problemas usuais sofridos com os serviços de telefonia celular, e também por sua condição de bilionário em um país desigual — acabou sendo beneficiada por outro fator: a queda nos preços das tarifas, graças à concorrência imposta nos últimos anos por uma nova regulação antimonopólio. Assim como no Brasil, a lei no México passou a assegurar a portabilidade do número para quem muda de operadora. Seu grupo, que ganhou o leilão de privatização da Teléfonos de México em 1990, chegou a ser multado em 1 bilhão de dólares em 2011 por “práticas monopolistas”, lembra a Bloomberg.
“Felizmente, o povo mexicano começou a perceber que ele é um empresário honesto, inteligente, que age por princípios e que ajudou muitos outros”, diz seu genro Ayub.

“Ninguém acredita ou quer acreditar que Slim não está interessado em ser candidato,” observa David Crow, do Centro de Pesquisa e Docência Econômicas (Cide), na Cidade do México. “Ele é mais Trump do que o Trump. É parecido, como um cara do setor privado, mas é fabulosamente rico. Ultrapassa Trump de longe nesse quesito.”

Por mais exótico que isso soe, Slim não ficará mal nem mesmo se López Obrador se eleger no ano que vem. Seu grupo patrocinou obras de restauração do Centro Histórico, quando o líder esquerdista foi prefeito da Cidade do México, entre 2000 e 2005. Além disso, a filha de Miguel Torruco, assessor de López Obrador, é casada com Carlos Slim Domit, filho do empresário.

De qualquer maneira, o aumento da fortuna de Slim em dólares independentemente do valor do peso mexicano é o indício da dependência cada vez menor de seu grupo da economia do México. Hoje, apenas um quarto da receita da América Móvil provém do México. Em seguida vêm o Brasil, os EUA e a Áustria. O grupo é bastante diversificado, atuando em segmentos como mineração, construção civil e indústria automobilística. Slim apostou, por exemplo, na retomada do setor imobiliário na Espanha, e as ações de sua empresa Fomento de Construcciones y Contratas valorizaram mais de 30% no último ano.

É por tudo isso que muitos mexicanos o querem como presidente. E talvez seja por tudo isso que ele não esteja disposto a abraçar a causa. Como o bilionário mexicano disse, ao descartar a candidatura em dezembro: “As coisas andam devagar demais na política”.