Confusão mantém turistas com medo do ebola longe da África

Reservas de voos para a África subsaariana podem cair até 50 por cento nos próximos quatro meses

Nairóbi/Johannesburgo – Quando a turista canadense Shauna Magill publicou no Facebook que chegou sã e salva em Uganda, um amigo a advertiu que tivesse cuidado com “uma coisa chamada ebola”.

Outro amigo respondeu ao comentário com um link para o Google Maps que mostrava que a capital da Uganda, Kampala, e a Nigéria, o país mais próximo afetado pela epidemia de ebola na África Ocidental, estão separados por 4.900 quilômetros.

A distância é quase a mesma que a largura da porção continental dos EUA.

Percepções equivocadas sobre a geografia da África implicam que Magill está se tornando uma exceção entre o crescente número de turistas que cancelam viagens ao continente enquanto os profissionais de saúde lutam para combater o pior surto de ebola já registrado.

Companhias aéreas suspenderam rotas para Libéria, Serra Leoa e Guiné, os países que estão no epicentro da doença.

Reservas de voos para a África subsaariana podem cair até 50 por cento nos próximos quatro meses, de acordo com a empresa de pesquisa de mercado Euromonitor International.

Isso frearia o setor de turismo que, segundo o Banco Mundial, cresceu no ritmo mais acelerado internacionalmente durante os três últimos anos.

“Muitos turistas veem a África como um único e enorme país”, disse Paz Casal, analista de pesquisa em turismo e viagens da Euromonitor, no dia 26 de agosto.

“O ebola pode prejudicar a recuperação da economia africana ao reavivar estereótipos negativos do continente como um lugar de doença, fome e pobreza”.

Milhares infectados

O ebola matou 1.552 pessoas dos 3.069 casos registrados desde dezembro. A doença pode eliminar até 1,5 ponto porcentual do crescimento nas economias mais afetadas, de acordo com Donald Kaberuka, presidente do Banco Africano de Desenvolvimento.

Outro surto matou até 13 pessoas na República Democrática do Congo, onde a doença viral foi descoberta em 1976.

As tentativas dos governos africanos de aumentar a vigilância sanitária nos aeroportos não impediram que operadoras como a British Airways e a Kenya Airways suspendessem voos aos países afetados pelo ebola, enquanto a Korean Air Lines adiou neste mês sua rota ao Quênia, a três fusos horários de distância, devido ao risco de a infecção se espalhar lá através dos serviços provenientes da África Ocidental.

‘Sob controle’

“Desde que haja rastreios eficientes e tratamento imediato dos pacientes nas alas de isolamento, a situação estará sob controle”, disse Jake Grieves-Cook, porta-voz da Federação de Turismo do Quênia.

“Os números são muito baixos se comparados às mortes por malária, AIDS e influenza em todo o mundo, que não geram esse nível de pânico”.

A malária, uma doença evitável e curável, mata em média uma criança por minuto na África, de acordo com a Organização Mundial de Saúde.

No dia 8 de agosto, a OMS declarou que a epidemia de ebola na África Oriental é uma emergência de saúde pública. A organização diz que o risco de que o ebola se espalhe por viagens aéreas é baixo.

‘Impacto direto’

Além de não conhecerem a geografia da África, o maior continente em termos de massa de terra e população depois da Ásia, a preocupação dos turistas é que os governos depauperados não consigam conter o contágio, disse Thulani Nzima, CEO da agência nacional de turismo da África do Sul, em entrevista por telefone.

Grupos de turistas asiáticos estão entre os que cancelam as viagens por causa da doença, disse ele, sem dar mais detalhes.

Os países afetados pelo ebola representam menos de 0,5 por cento do total de viagens internacionais para a África, silenciando o “impacto direto” da epidemia sobre o turismo, disse Sandra Carvão, diretora de comunicação da Organização Mundial do Turismo, em resposta a perguntas enviadas por e-mail.

Aventura de 8.000 dólares canadenses

Após saber sobre a epidemia de ebola, poucas semanas antes da sua viagem deste mês, Magill chegou a pensar em cancelar suas férias aventureiras pela África Oriental, que incluirão fazer rafting por águas claras e ver gorilas no habitat natural.

Há dois anos ela vinha planejando a viagem, que custará 8.000 dólares canadenses (US$ 7.366), o que quase equivale a oito meses de aluguel.

“Fiquei na dúvida sobre se viajar por causa da forma em que os meios de comunicação do Canadá mostraram a epidemia na África Ocidental; não explicavam que o resto do continente é seguro e que não foi afetado pelo vírus”, disse Magill, 30, gestora de deficiências em Calgary, Alberta, em resposta a perguntas enviadas por e-mail.