Como os EUA sustentarão a economia em 2010 e 2011?

A expansão de 3,5% no terceiro trimestre foi obtida com uma grande intervenção estatal que incluiu a redução dos juros, um pacote bilionário de ajuda aos bancos e incentivos ao consumo

Bem a seu modo, o mercado financeiro reagiu de maneira eufórica ao anúncio de que a economia americana voltou a crescer. Essa, afinal de contas, não foi uma recessão qualquer. Um ano atrás, em meio ao pavor causado pela quebra do Lehman Brothers, temia-se um repeteco do maior colapso econômico de que se tem notícia, a Grande Depressão dos anos 30 — não um ou dois anos de recessão, portanto, mas uma longa e dolorosa década de crise. Mas, na quinta-feira, foi divulgado que a economia americana cresceu 3,5% no terceiro trimestre. O apocalipse, felizmente, não veio. O índice Dow Jones, que chegou a 6.500 pontos pouco mais de seis meses atrás, voltou a raspar nos 10.000 pontos no dia do anúncio.

A confirmação de que a maior recessão do pós-guerra acabou é, por si só, uma excelente notícia. Mas basta analisar os números com alguma atenção para constatar que a euforia do mercado financeiro foi, como de costume, exagerada. O principal motor da economia mundial, o consumidor americano, ainda está longe de se recuperar da pancada dos últimos dois anos. Enquanto ele não se levantar, a economia americana vai capengar. E, nesta sexta-feira, dados negativos sobre a confiança do consumidor americano levavam as bolsas a apagar todos os ganhos da véspera.

Por que a euforia durou tão pouco? O crescimento de 3,5% no terceiro trimestre não aconteceu sobre bases sólidas — foi resultado, basicamente, de uma brutal intervenção estatal. Nos últimos treze meses, o governo americano baixou a taxa de juros a quase zero, gastou mais de 700 bilhões de dólares num pacote de estímulo e, finalmente, criou imensos incentivos ao consumo.

O maior exemplo foi o programa de estímulo fiscal à compra de carros novos. O setor estava em frangalhos, o que acabou levando à concordata de General Motors e Chrysler. O pacote foi um sucesso. Segundo os dados oficiais, nada menos que um terço do crescimento do PIB no trimestre se deve justamente ao aumento na venda de automóveis em razão do estímulo. Créditos concedidos à compra da casa própria fizeram o setor imobiliário deixar de ser um peso pela primeira vez em quatro anos.

Programas estatais como esses foram, portanto, um vento a favor para a economia americana no último trimestre. Daqui para frente, a suspensão desses programas tende a ser um vento contrário. A venda de carros, por exemplo, já caiu 10,4% em setembro, após o fim do estímulo às compras. Para evitar que o mesmo aconteça com o setor imobiliário, o Congresso estuda prorrogar a concessão de créditos para compra de casas até abril de 2010. (Continua)


Essa dependência de incentivos governamentais ao consumo só demonstra que o comemorado crescimento do último trimestre foi construído na marra. A situação ainda é, para dizer o mínimo, frágil. A dívida de consumidores e empresas é um fardo que representa menos consumo e menos investimento. Desde o início da recessão, em dezembro de 2007, mais de 7 milhões de pessoas perderam o emprego. O número deve aumentar 200.000 na semana que vem, quando os dados de outubro forem divulgados. Mesmo os economistas mais otimistas esperam que a taxa de desemprego ultrapasse os 10% e leve meses até voltar a diminuir. É o dobro do índice pré-recessão.

De onde virá o crescimento em 2010 e 2011? Essa, sim, é a grande questão. O consumidor, que representa dois terços do PIB, tem um longo período de ajuste pela frente — a taxa de poupança, que caiu com o recente estímulo ao consumo, deve voltar a subir nos próximos trimestres. Um levantamento divulgado nesta sexta-feira mostra que o índice de confiança do consumidor voltou a cair. Já as exportações estão crescendo, mas respondem por apenas um décimo da economia. Nenhuma retomada dos últimos 40 anos foi liderada pelo aumento das exportações. Pelo visto, não vai ser agora.

Sobraria, portanto, uma nova rodada de estímulo estatal, com objetivo de repetir o desempenho do último trimestre. Mas o governo dificilmente terá ânimo para isso. A intervenção do último ano criou um rombo superior a um trilhão de dólares no orçamento federal. Para piorar, prevê-se para a próxima década uma sequência de déficits anuais na casa do trilhão. A margem de manobra, portanto, é pequena. E, num ano eleitoral, o ataque ao descontrole orçamentário será plataforma da oposição republicana — uma plataforma popular, já que os americanos temem que o governo aumente impostos para cobrir o buraco.

Sem mais ajuda do Estado, consumidores e empresas americanos terão de voltar a andar com as próprias pernas. É aí que saberemos se há ou não motivos para comemorar.