Começa o julgamento do mordomo do Papa

O secretário de Bento XVI é acusado de roubar documentos confidenciais que revelam as tensões em meio às mais altas esferas da Igreja católica

O julgamento contra o mordomo do Papa, acusado de ter roubado dezenas de documentos confidenciais que revelam as tensões em meio às mais altas esferas da Igreja católica, começou neste sábado no Vaticano.

A primeira audiência determinou que secretário particular do Papa Bento XVI, monsenhor Georg Gänswein, superior direto do mordomo, será convocado como testemunha no julgamento, que será retomado em 2 de outubro.

Gänswein, de 56 anos, considerado por alguns como a eminência parda do Sumo Pontífice, era a única testemunha citada com nome e sobrenome nos documentos processuais.

O mordomo Paolo Gabriele, de 46 anos, comparece ante três juízes laicos, a princípio junto a seu cúmplice, o técnico em informática Claudio Sciarpelletti, mas, a pedido de um dos advogados, os magistrados aceitaram separar os processos dos dois réus.

O processo está aberto à imprensa, o que constitui um fato inédito na história do Estado Pontifício, conhecido por seus segredos.

A duração do julgamento de Gabriele, que acontece quatro meses depois de sua prisão, é incerta, mas por ele vão passar diferentes testemunhas que devem contar sua versão sobre este obscuro caso de vazamento de documentos.

Oito jornalistas selecionados serão autorizados a entrar, sem gravadores nem câmeras fotográficas ou de vídeo, na pequena sala onde apenas 50 pessoas vão poder assistir de pé.

Gabriele, um laico de 46 anos, pai de três filhos, cidadão e residente do Vaticano, foi, até sua prisão, servo fiel de Joseph Ratzinger, o primeiro e o último que o via todos os dias e quem preparava sua roupa cerimonial e suas refeições.

Durante meses ele roubou e copiou dezenas de documentos do escritório do secretário particular do Papa, monsenhor Georg Gänswein.

Depois de passar 53 dias em uma cela da polícia do Vaticano, no final de julho foi colocado sob prisão domiciliar.

“Paoletto” explicou aos juízes que agiu por ordem “do Espírito Santo” e que revelaria a “maldade e corrupção” que havia no Vaticano, assegurando que o Papa não sabia de todos os escândalos.


Entrevistado em fevereiro, de forma anônima, pelo canal privado La Sette, disse que o Vaticano tinha “uma espécie de ‘omertà’ (código do silêncio) para não revelar a verdade, não tanto por uma luta de poder, mas talvez por medo”.

Na entrevista, Gabriele indicou que cerca de 20 pessoas “de diferentes órgãos” do Vaticano poderiam estar envolvidas no “Vatileaks”.

A investigação confirmou que ele não estava sozinho. Seus possíveis cúmplices, cujas identidades são ocultadas sob misteriosos “X”, “W”… aparecem no relatório. Gabriele também relatou seus segredos a um padre espiritual, “B”.

No momento, apenas mais um homem, Claudio Sciarpelletti, será julgado por cumplicidade, mas seu papel é considerado secundário.

“Gabriele já admitiu sua culpa. Portanto, acho que será condenado. Mas pelo quê? Ninguém sabe. Ninguém sabe também se no final receberá a absolvição do Papa, o que é possível”, disse à AFP o jornalista Marco Tosatti.

“Este julgamento começa muito rápido”, ressaltou, “o que indica provavelmente uma vontade do Papa, e também do cardeal Tarcisio Bertone (secretário de Estado e número dois da Santa Sé), de encerrar esta história o quanto antes”.

“Os juízes identificaram uma série de outros crimes possíveis, então podemos esperar que existam outras investigações, outros envolvidos”, disse o jornalista do La Stampa, que considera que os tribunais italianos também poderiam intervir.

Após a publicação em maio do livro do jornalista Gianluigi Nuzzi, “Sua Santita” (Sua Santidade), que revelou documentos confidenciais, a imprensa italiana se encheu de notícias sensacionalistas, não confirmadas, da participação dos cardeais da Igreja.

Três cardeais realizaram uma investigação própria e no final de julho apresentaram ao Papa o seu relatório, mas nada foi divulgado.

A hipótese mais comum sobre a origem dos vazamentos é que se trata de uma rebelião contra a falta de transparência e gestão do cardeal Bertone (uma espécie de chefe de Governo do Papa), com o objetivo, até agora frustrado, de provocar sua demissão.

Para os céticos, o julgamento do mordomo seria uma forma de sufocar o caso processando um homem provavelmente culpado, mas manipulado.

Outros pensam que este julgamento é apenas o início de uma operação verdadeiramente transparente, que teria recebido a autorização de Bento XVI.