Combates continuam; Rússia descarta pressionar Assad

"São os primeiros combates deste tipo em Damasco. O dia 15 de julho marca um giro na revolução síria", afirmou nesta segunda-feira à AFP um militante de Damasco

Damasco – A capital da Síria era palco nesta segunda-feira de violentos combates pelo segundo dia consecutivo entre os rebeldes e as tropas do regime dirigidas por Maher al-Assad, irmão do presidente Bashar al-Assad, apoiado pela Rússia, que descartou pressionar por uma saída do presidente.

As tropas do regime lançaram uma ofensiva sem precedentes para tentar retomar o controle de alguns bairros periféricos do sul, do oeste e do leste da capital favoráveis à oposição. Segundo militantes, todas as rotas que unem Damasco as suas províncias estão bloqueadas.

De acordo com o opositor Observatório Sírio de Direitos Humanos (OSDH), os combates se estenderam nesta segunda-feira pela primeira vez ao bairro Midan, mais próximo do centro da capital, para onde foram enviados reforços de tropas e veículos pela manhã.

“São os primeiros combates deste tipo em Damasco. O dia 15 de julho marca um giro na revolução síria”, afirmou nesta segunda-feira à AFP um militante de Damasco contactado por Skype que se apresentou como Abu Mussab.

Até agora, a capital vivia com fortes medidas de segurança e estava controlada principalmente pela quarta divisão do primeiro corpo do exército dirigida por Maher al-Assad, irmão do presidente.

“A revolução se estende e fecha o cerco ao redor do regime nas zonas nas quais acreditava-se que estavam a salvo da ira do povo”, reagiu a oposição no domingo.

“Os bombardeios com morteiros foram retomados nas primeiras horas da manhã”, indicaram os Comitês Locais de Coordenação (LCC, oposição).


Além disso, segundo os LCC, há violentos combates entre o exército regular e o Exército Sírio Livre (ESL), formado essencialmente por desertores, “nos bairros de Kafar Soussé e Khobar’, no oeste e leste de Damasco.

Um morador de Kharamana, na rota do aeroporto internacional de Damasco, afirmou à AFP que não “dormiu a noite toda” pelos “foguetes e disparos”.

Declarou que viu quatro caminhões de transporte de tropas passarem pela estrada.

Outro morador do bairro Al Tadamon, contactado pela AFP, indicou que não podia deixar o setor, onde violentos combates explodiram no domingo.

O jornal Al-Watan, próximo ao regime, intitulou “Damasco, não a terão”, em direção aos opositores.

“As forças de segurança apoiadas pelo exército atacam há 48 horas os grupos terroristas que tentam se entrincheirar nos bairros periféricos” do sul de Damasco, como Al-Tadamon, Hajar Assuad, Daf al-Shok, Nahr Aishe, Qadam e Kafar Sousse, no oeste, afirma o Al-Watan.

Qatana, a 20 km da capital, era nesta segunda-feira alvo de bombardeios, assim como os bairros de Khaldiye, Khurat al-Shayah e Qarabis, em Homs (centro), rodeados pelo exército há semanas, segundo o OSDH.

Os bairros rebeldes da cidade de Homs (centro), rodeados pelas forças do regime há semanas, também eram bombardeados, segundo o OSDH.


Na província de Aleppo (norte), quatro rebeldes morreram em confrontos, enquanto foram apontadas hostilidades na região de Hama (centro), onde foram ouvidas explosões.

Em Deir Ezzor (leste), também bombardeada, um jovem morreu por disparos de um franco-atirador, segundo o OSDH.

Por sua vez, o Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) considerou que os combates na Síria são uma situação de guerra civil e ressaltou, em uma mensagem a todas as partes, que “deve ser aplicado o direito internacional humanitário”.

Em Moscou, para onde o enviado especial da ONU e da Liga Árabe, Kofi Annan, se dirige, o ministro das Relações Exteriores, Serguei Lavrov, ressaltou que “não é realista” esperar que seu país possa convencer o presidente sírio Bashar al-Assad a deixar o poder, como afirmam as potências ocidentais.

O presidente Assad “não partirá, não porque o apoiemos, mas simplesmente porque uma parte significativa da população da Síria o apoia”, acrescentou.

Lavrov acusou, por sua vez, as potências ocidentais de exercerem “uma chantagem” para obrigar Moscou a aceitar as sanções do Conselho de Segurança da ONU contra o regime de Damasco, ameaçando, caso contrário, se recursar “a prolongar o mandato da missão de observadores” na Síria.

Esta declaração ocorre quando o presidente Vladimir Putin deve receber o enviado da ONU e da Liga Árabe em Moscou, encontro durante o qual a “Rússia ressaltará seu apoio ao plano de paz de Kofi Annan”.

“Do ponto de vista russo, partimos do princípio de que este plano é a única plataforma viável para resolver os problemas internos da Síria”, ressaltou o Kremlin.