Comandante de Alepo luta por “rebelião limpa”

Em Jdeidé, bairro cristão que não apoia unanimemente a revolução, os combatentes ordenam que a mulher se identifique

Alepo – Na noite escura, entre o estrondo das metralhadoras russas PKM, o estampido das armas automáticas de franco-atiradores e o cheiro de pólvora, os rebeldes não perceberam a presença de uma figura com véu surgida em uma esquina.

Os rebeldes a encurralaram contra um muro de pedra de uma velha casa situada no centro da cidade síria de Alepo, cenário de uma batalha sangrenta, e um deles a interroga, sem rodeios: “O que faz uma mulher no meio da noite em uma cidade em guerra?”

Em Jdeidé, bairro cristão que não apoia unanimemente a revolução, os combatentes ordenam que a mulher se identifique.

Este bairro, conhecido por seus restaurantes, atraía antes da guerra muitos turistas. Agora, os rebeldes reivindicam o controle sobre boa parte de sua área.

O comportamento da mulher parece suspeito e a explicação sobre seu filho enfermo não convence os rebeldes. O chefe, Abu Mohamed, decide levá-la ao quartel-general, situado a 100 metros, para interrogá-la.

Amira está sentada, de braços cruzados e movimenta compulsivamente uma perna enquanto Abu Mohamed mandou procurar moradores que a conheçam.

Quando Mohamed encontra no telefone celular da mulher fotos e canções de glória ao presidente Bashar al-Assad, precisa conter rapidamente alguns de seus homens que estão a ponto de insultá-la.

A mulher, chorando, jura estar do lado da oposição. Abu Mohamed liga então para o último número do telefone da suspeita e se apresenta como um oficial do Exército regular que a prendeu em um posto de controle porque acredita que seja espiã dos rebeldes.


“Não, está bem, libertem-na. Está do nosso lado e nos informa sobre as posições dos rebeldes”, responde o homem que atendeu o telefone e pertence às forças de segurança do Estado.

Amira, que recebe um copo de água, é levada para outro cômodo e Abu Mohammed, de 42 anos, sentado na borda de uma fonte no pátio desta elegante casa otomana, apoia a cabeça entre as duas mãos.

“O que vou fazer com ela? É uma espiã do regime, mas não podemos mantê-la aqui. É contra a nossa religião, embora esteja com os shabbiha”, milícia do regime, pergunta-se Mohamed.

“Nem sequer posso registrá-la. Como posso saber se não está colocando marcas para indicar nossas posições aos MIGS que nos bombardeiam?”, lamenta.

“Não pode dormir aqui. Seria uma desonra para nossas famílias”, acrescentou categoricamente Hosam Amine, membro do grupo.

A mulher é levada para a casa da irmã, que mora perto, e será novamente interrogada no dia seguinte.

“O que teria acontecido a ela se tivessem sido soldados do regime? Os senhores conhecem muitos rebeldes que a teriam tratado como nós?”, interpela Abu Mohamed.

Não se consegue nada sem o apoio do povo

Ex-oficial do Exército, Abu Mohamed desertou há três anos e obteve asilo político na Bélgica. “Não tinha futuro no Exército. Se a gente não tem as relações indicadas, não tem chance de fazer carreira. É repugnante”.


Ele decidiu aderir à rebelião há um ano e seu filho, Mohamed, luta ao seu lado na mesma unidade.

Uma das posições mais próximas é uma papelaria, revistada após a fuga do proprietário.

Cada vez que um rebelde pega uma caneta ou uma lâmpada, deve colocar dinheiro para o proprietário.

“Bashar e seu regime não respeitam nada. Riem das leis. A revolução deve mostrar aos cidadãos que o levante aconteceu por um motivo”, explica Abu Mohamed.

Ele diz saber que muitos moradores começaram a se queixar, afirmando que os combates do Exército Sírio Livre (ESL) expõem os civis aos bombardeios do Exército.

“Se não se tem o apoio do povo, não se consegue nada”, diz.

Este combatente rebelde não perdeu a esperança de convencer seus antigos colegas a aderirem à revolução. A barricada dos inimigos fica a 50 metros. Abu Mohamed pega um alto-falante e diz:

“Ouçam! Por que lutam por Bashar? Acreditam que se interessa por vocês? Alguns de vocês são de Alepo, estão destruindo a sua cidade”.