Com greve geral, Equador completa sete dias de protestos

Protestos começaram após o presidente Lenín Moreno anunciar um pacote de medidas econômicas que aumentou o preço dos combustíveis em 123%

No sétimo dia consecutivo de protestos no Equador, nesta quarta-feira (9), o país amanhece com uma greve nacional, convocada pelo movimento indígena e por centrais sindicalistas. Parte da população equatoriana saiu às ruas na última semana em protesto contra um pacote de medidas econômicas anunciadas pelo presidente Lenín Moreno no dia 1 de outubro.

A crise começou quando Moreno cancelou 1,3 bilhão de dólares em subsídios ao diesel e à gasolina como parte do ajuste necessário para ter acesso aos 4,2 bilhões de dólares do Fundo Monetário Internacional (FMI). Com a medida, os preços dos combustíveis subiram 123% de um dia para o outro. Como consequência, no dia 2 de outubro, houve uma greve geral dos transportes, com adesão de motoristas de ônibus, táxis, caminhões e vans escolares.

Nos dias seguintes, a decisão do governo de não revogar a medida trouxe mais categorias para as paralisações, que se espalharam pelo país. Na quinta-feira passada, Moreno foi obrigado a decretar Estado de Exceção para poder mobilizar recursos para atender as emergências e proteger o governo. As Forças Armadas estão nas ruas e em frente aos prédios públicos do Equador, tentado frear o avanço dos manifestantes.

A organização coletiva indígena Conaie disse que os protestos vão continuar até que o governo revogue a medida da semana passada que acabou com os subsídios dos combustíveis. “Mais de 20 mil de nós estarão chegando a Quito para exigir que o governo revogue o decreto”, prometeu o presidente da Conaie, Jaime Vargas, em mobilização que vai coincidir com a greve nacional.

Por segurança, as aulas foram suspensas no país. Muitas empresas, por temerem saqueadores, fecharam as portas nos últimos dias. Há registros de saques em fábricas no norte e centro do país. Nas áreas rurais, empresas vinícolas, de laticínios, de papel e de flores foram invadidas. Devido aos bloqueios em estradas, há desabastecimento de alguns produtos e combustíveis pelo país. Duas pessoas morreram nas manifestações, mais de 70 estão feridas e 570 estão detidas, segundo dados da agência Reuters.

Mesmo diante do cenário de caos, Moreno segue com um discurso firme de que não voltará atrás. Mas, por segurança, na noite da segunda-feira 7, ele decidiu mudar a sede do governo da capital Quito para a cidade litorânea Guaiaquil, em atitude inédita na história do país. Durante o pronunciamento em que anunciou a medida, Moreno reiterou que não vai retirar os ajustes econômicos feitos.

O presidente também culpou seu antecessor, Rafael Correa, e o presidente Venezuelano, Nicolás Maduro, de agirem para desestabilizar seu governo.

Em nota divulgada na última terça-feira, os governos da Argentina, Brasil, Colômbia, El Salvador, Guatemala, Paraguai e Peru expressam seu repúdio “a qualquer tentativa de desestabilizar os regimes democráticos legitimamente constituídos” e apoiam as ações de Moreno para recuperar “a paz, a institucionalidade e a ordem”. O comunicado ainda diz que os países sul-americanos signatários “rejeitam qualquer ação destinada a desestabilizar nossas democracias por parte do regime de Nicolás Maduro e daqueles que buscam estender as diretrizes de seu governo nefasto aos países democráticos da região”.

A única perspectiva de negociação com os manifestantes por parte do governo equatoriano depende de ajuda internacional. Na terça-feira 8, o secretário da presidência, Juan Sebastian Roldan, disse que o governo está aberto à mediação internacional das Nações Unidas ou da Igreja Católica. “A única resposta é diálogo e firmeza ao mesmo tempo”, disse a uma rádio local.

Diante do cenário caótico instalado em uma semana, fica difícil imaginar como o governo de Moreno pretende continuar no poder se não fizer mesmo nenhuma concessão.