Com 8 mil manifestantes nas ruas, protestos deixam Paris entrincheirada

Em toda França, foram adotadas medidas de segurança excepcionais, com 90.000 policiais mobilizados em todo território

Confrontos entre manifestantes e policiais explodiram neste sábado (8) durante os protestos dos “coletes amarelos” em Paris, e várias estradas estavam bloqueadas em diferentes províncias em uma nova jornada de mobilização nacional contra o governo Macron.

Pela manhã, a polícia usou gás lacrimogêneo para tentar conter manifestantes em uma rua adjacente à Champs-Élysées, perto do Arco do Triunfo, epicentro dos distúrbios do fim de semana passado. Alguns manifestantes responderam lançando rojões.

Outros tentaram incendiar a fachada da Drugstore Publicis, um estabelecimento comercial de luxo situado na Champs-Élysées, onde a tensão aumentava no início da tarde.

Na capital francesa, a Torre Eiffel, o museu do Louvre e quase todas as lojas estão fechadas. Suas entradas e vitrines foram protegidas com painéis de madeira para evitar saques e quebra-quebra.

Ainda assim, alguns manifestantes conseguiram entrar na Drugstore até serem expulsos pela polícia, que recorreu a gás lacrimogêneo. Uma mulher foi ferida na cabeça.

Perto do Centro Pompidou, um museu de arte moderna, os blindados neutralizaram uma barricada. Uma imagem nunca vista na Cidade-Luz.

Cerca de 31.000 membros dos “coletes amarelos” estão nas ruas, e mais de 950 pessoas foram detidas neste sábado, o quarto consecutivo de manifestações desse coletivo antigoverno, informou o secretário de Estado do Interior, Laurent Nuñez. Pelo menos 721 continuam em prisão preventiva.

Em Paris, onde houve conflitos entre manifestantes e policiais, pelo menos 8.000 pessoas participavam dos protestos, e 651 foram detidas, disse Nuñez à emissora France 2.

 

 

“Estamos no meio do dia. Vamos nos manter muito prudentes. Até o momento não houve incidentes graves”, disse Nuñez.

“Vamos continuar muito concentrados em Paris e na província para enquadrar as manifestações e desarticular os agitadores. Como sabem, há muitos em Paris”, acrescentou.

Medidas excepcionais

Em toda França, foram adotadas medidas de segurança excepcionais, sobretudo em Paris, depois que as cenas de guerrilha urbana do último sábado na capital francesa correram o mundo.

Cerca de 90.000 policiais estão mobilizados em todo território. Além disso, pela primeira vez em mais de uma década, veem-se na capital veículos blindados da Gendarmeria.

Todo o oeste de Paris, onde ficam o Palácio do Eliseu (sede da presidência) e a maioria dos ministérios, estava coberto de azul, a cor das viaturas da polícia.

As patrulhas bloqueavam o acesso às principais praças da capital, incluindo a da Concorde, um dos extremos da avenida Champs-Élysées, que vai até o Arco do Triunfo.

Denis, de 30 anos, chegou a Paris, procedente de Caen, que fica no noroeste do país.

“O objetivo é ir até o Eliseu”, disse ele à AFP. “Faço isso pelo futuro do meu filho. Não posso permitir que ele viva em um país em que outros se enriquecem às nossas custas”, explicou.

A poucas ruas do Palácio do Eliseu, na praça de Madeleine, estavam John e Dorian, de 31 e 29 anos, respectivamente. Gendarmes verificavam seus documentos.

“É a segunda vez! Na estação do metrô já tiraram tudo. Os óculos de natação, o lenço, as caneleiras…”, conta Dorian, procedente de um subúrbio parisiense.

“Estamos aqui para que nos escutem, pacificamente”, insistiu.

Estradas bloqueadas

No restante do país parece prevalecer a calma, apesar de muitas rodovias estarem bloqueadas antes das manifestações previstas para a parte da tarde. A autoestrada que conecta Paris a Bordeaux (sudoeste) estava totalmente paralisada, depois que mais de 100 pessoas atearam fogo a pedaços de pau e a pneus.

Na fronteira franco-espanhola, os “coletes amarelos” montaram uma barricada seletiva que bloqueava a passagem dos caminhões procedentes da Espanha, informou a prefeitura dos Pirineus Atlânticos.

Em Marselha, 2.000 “coletes amarelos” desfilavam pelo centro desta cidade do sudeste da França.

“É a primeira vez que me manifesto. Recebo 1.248 euros de aposentadoria, e são meus quatro filhos que têm que me ajudar”, afirma Sylvia Paloma, de 70 anos.

Em algumas regiões da França, as autoridades proibiram as manifestações, assim como venda e transporte de gasolina, fogos de artifício e produtos inflamáveis, ou químicos.

Muitos dos “coletes amarelos” protestam sem violência. Há uma semana, porém, os mais radicalizados – sobretudo, membros de grupos de extrema direita e de extrema esquerda – invadiram as manifestações e enfrentaram a polícia.

Hoje, alguns manifestantes lamentavam a depredação.

“Que destruam os bancos, as multinacionais, não me importa, mas os pequenos comércios… É algo totalmente estúpido”, considerava Anthony, de 23. “É absurdo”, disse sua namorada, irritada com aqueles que “vêm apenas para destruir” e desacreditam o movimento.

Essa onda de manifestações começou em 17 de novembro em oposição a um aumento dos impostos sobre combustíveis, mas nas últimas semanas se tornou um protesto generalizado contra a política econômica e social do governo.

Os estudantes bloquearam instituições de ensino e participaram de manifestações, algumas delas marcadas por confrontos com a polícia.

Esta semana, Macron cedeu a algumas das demandas dos manifestantes. Anulou o aumento do imposto sobre combustíveis, parte de um plano para combater a mudança climática, e congelou os preços do gás e da energia elétrica nos próximos meses.

Estas medidas não foram suficientes para conter a ira de um movimento aparentemente sem estrutura ou lideranças, que expressa a exaustão da classe média com a perda de poder aquisitivo.

“Que fique claro que não vamos desistir”, garante Tony Vella, um operário da construção civil, de 32 anos. Ele conta que foi detido pela polícia por duas horas, ao chegar à capital, até ser liberado.

“Eu tinha uma máscara antigás e um baseado (…) Amarraram meus pulsos atrás da nuca”, completou.

O Ministério Público de París abriu uma investigação depois do vazamento de parte do plano de segurança para enfrentar os protestos.

Com a popularidade em queda e em meio à pior crise de sua presidência, Macron se mantém em silêncio. Deve falar com a imprensa na semana que vem.