Código Florestal: bate-boca, manobra e nada de votação

Em sessão tensa, governistas manobram de última hora para adiar mais uma vez a votação do texto do relator Aldo Rebelo, que troca farpas com a ex-senadora Marina Silva

São Paulo – Em meio a manobras, reviravoltas e muito bate-boca, a votação do novo Código Florestal na Câmara dos Deputados foi adiada pela terceira vez. Com receio de sofrer sua primeira derrota no Congresso, a base governista recuou, e a sessão foi encerrada na madrugada desta quinta-feira, por falta de quorum. O tema não volta à pauta antes da próxima terça – e provavelmente terá de esperar até o dia 24.

Na noite de quarta, tudo parecia pronto para a votação do texto do relator Aldo Rebelo (PCdoB). Primeiro, os deputados avaliariam um pedido, feito pelo PSOL, de retirada do item da pauta. Depois, passariam à análise do projeto. Os deputados da base aliada já haviam sido orientados a rejeitar o pedido do PSOL, quando Cândido Vaccarezza (PT-SP), líder do governo, subiu à tribuna: “Não vamos para a votação no escuro”. Pouca gente entendeu: Vaccarezza havia afirmado ao longo do dia que a votação ocorreria na sessão em andamento.

De imediato, o líder do DEM, ACM Neto, protestou, alegando que havia um acordo para votar a proposta nesta quarta: “Estamos diante de um grave descumprimento de acordo por parte do líder de governo. E eu quero ouvir a palavra do presidente da Casa para saber se ele vai resgatar o acordo que foi feito”, desafiou.

Um constrangido Marco Maia (PT-RS) tentou contemporizar: disse que o acordo não incluía a garantia de que o texto seria votado na mesma noite. Na verdade, o líder do governo na Câmara superestimou os votos com os quais contava para aprovar o texto. Quando tentou medir a temperatura do plenário, descobriu que havia muitos deputados dispostos a aprovar um destaque apresentado pelo DEM que alterava o texto de Rebelo.

Depois da orientação de Vaccarezza, PRB, PR, PDT, PMN e PSB mudaram a posição e passaram a também defender a retirada do item de pauta. O PMDB do líder Henrique Eduardo Alves foi atrás: “Não sei o que a minha bancada vai achar, mas vou me arriscar”. Foi vaiado.

Bate-boca – A manobra inesperada do governo esquentou o clima no plenário. Já era quase meia-noite. A troca de acusações começou quando o líder do PT, Paulo Teixeira (SP), acusou Rebelo de alterar o texto em cima da hora: “Nós encontramos modificações com as quais não concordamos”, disse, tentando justificar o adiamento.


Quase ao mesmo tempo, a ex-senadora Marina Silva (PV), que assistia à sessão no plenário, postou uma crítica direta a Rebelo em seu perfil no Twitter: “Estou no plenário da Câmara. Aldo Rebelo apresentou um novo texto, com novas pegadinhas, minutos antes da votação. Como pode ser votado?!”

Exaltado, Rebelo voltou ao microfone para se defender: “Foi uma fala infeliz do deputado Paulo Teixeira”, afirmou. Mas o maior ataque foi direcionado a Marina – que continuava no plenário. O parlamentar negou ter usado artimanhas e lembrou um episódio desabonador: “Quem fraudou contrabando de madeira foi o marido de Marina Silva!”.

O relator do Código Florestal afirma que, quando era líder do governo na Câmara, foi procurado por Marina para convencer outros deputados a não convocar o marido da então senadora, Fábio Vaz de Lima, a prestar esclarecimentos no Congresso sobre a denúncia de crime ambiental. O pedido foi atendido.

Foi então a vez de Alfredo Sirkis (PV-RJ) sair em defesa da colega de partido e acusar Rebelo de “canalha”, “traidor” e de ter se “vendido para os ruralistas”. A ex-senadora, que não tinha direito à palavra, apenas assistia, de pé, ao bate-boca. No fim, o requerimento de retirada de pauta foi rejeitado. Seria uma derrota para o governo. Mas, a esta altura, com quorum insuficiente, a sessão foi encerrada.

“Frustrante” – Depois de retirada estratégica da base aliada, o presidente Marco Maia admitiu: “É óbvio que se frustram as expectativas”. Embora tenha ampla maioria no Congresso, o governo sabe que nesta matéria não pode contar com a lealdade de boa parte da base aliada.

“Identifiquei um movimento para desfigurar o texto do Aldo Rebelo. Formou-se uma opinião no plenário para derrotar o governo”, disse Vaccarezza, após a sessão, tentando explicar a manobra. A oposição festejou o recuo: “O governo hoje se acha dono da Câmara dos Deputados. E nós vamos mostrar que não é bem assim”, disse ACM Neto.