Coalizão contra o grupo Estado Islâmico se reúne em Paris

"O eixo da reunião é o Iraque, mas levando em conta o avanço (dos jihadistas) e o alcance da situação, a Síria também será abordada", explicou Romain Nadal

A coalizão internacional que luta contra o grupo Estado Islâmico se reúne nesta terça-feira, em Paris, para rever sua estratégia diante dos últimos avanços dos jihadistas no Iraque e na Síria, e com o objetivo de que Bagdá integre mais os sunitas.

Participarão do encontro ministros e representantes de organizações internacionais. A reunião será presidida pelo ministro francês das Relações Exteriores, Laurent Fabius, e pelo premiê iraquiano, Haider al Abadi.

Já o secretário de Estado americano, John Kerry, que também chefiava as conversações, precisou cancelar sua participação após fraturar o fêmur em um acidente de bicicleta na França, após o qual teve que retornar aos Estados Unidos.

“O eixo da reunião é o Iraque, mas levando em conta o avanço (dos jihadistas) e o alcance da situação, a Síria também será abordada”, explicou o porta-voz da chancelaria francesa, Romain Nadal.

Segundo o funcionário, o encontro deve, a princípio, permitir aos participantes “conversar sobre a estratégia da coalizão, em um momento em que a situação no terreno é especialmente frágil”.

No Iraque, os jihadistas tiveram uma vitória importante em 17 de maio, com a tomada de Ramadi, capital da província de Al Anbar, a maior do país.

Na Síria, conseguiram deslocar as tropas de Damasco da localidade de Palmira, no centro do país, um sítio arqueológico catalogado como patrimônio da humanidade.

Estratégia em dúvida

Estes avanços geraram dúvidas sobre a eficácia da estratégia seguida pela coalizão internacional liderada por Washington, formada após o impressionante avanço feito pelo EI no primeiro semestre de 2014.

Diante da reticência em enviar tropas, a coalizão participa efetuando bombardeios e treinando soldados iraquianos.

No entanto, os ataques aéreos não conseguem conter os “caminhões-bomba”, que os jihadistas começaram a usar para entrar nas localidades. Especificamente, a coalizão não conseguiu evitar a retirada de Ramadi das tropas iraquianas.

Após a queda de Ramadi, o secretário de Defesa americano, Ashton Carter, disse que as forças iraquianas “falharam ao combater” e “não mostraram vontade de lutar”, embora especialistas tenham destacado que o problema enfrentado pelos soldados de Bagdá foi, sobretudo, a falta de armas, de estratégia e de logística.

A formação de um exército sólido também enfrenta o obstáculo das lutas sectárias no país. Desde a queda do regime de Saddam Hussein, em 2003, um governo sunita, a maioria xiita, agora no poder, sofre com a violência gerada pelos confrontos entre as duas ramificações do Islã.

Desde 2014, a coalizão se concentra na formação de militares sunitas, pensando que eles serão mais adequados para enfrentar o EI, um grupo que pertence a esta mesma ramificação do Islã e que está fortemente instalado em regiões que seguem esta crença.

A derrota contundente em Ramadi levou o primeiro-ministro a convocar uma poderosa milícia xiita apoiada pelo Irã, que no sábado conseguiu entrar no oeste da cidade.

No entanto, esta estratégia foi duramente condenada pelo Pentágono.

Excesso de desconfiança

O encontro em Paris também tem como objetivo enviar uma “mensagem forte” ao governo iraquiano para que inclua também os combatentes curdos, informou o ministério das Relações Exteriores francês.

“Vinculamos o apoio militar da coalizão a compromissos políticos de parte do novo governo. O que pedimos é uma política de união mais inclusiva”, disse Fabius esta semana.

Para Magdalena Kirchner, especialista em segurança no Oriente Médio do centro de estudos alemão DGAP, esta política inclusiva “não está funcionando”.

“Há desconfiança demais entre sunitas e xiitas”, explicou.

Segundo Guido Steinberg, especialista da Fundação Economia e Política, com sede em Berlim, um avanço frente ao grupo EI só será possível com a inclusão dos sunitas.

“Falta um enfoque político, que torne possível uma luta efetiva contra o EI no terreno. É por isso que os bombardeios dos americanos e seus aliados não têm o efeito esperado”, afirmou.