Cientistas recomendam cautela na gestão de Fundo Verde para mudanças climáticas

Verbas são destinadas a enfrentar os impactos das mudanças climáticas em países pobres

Nova York  – Cientistas divulgaram, esta sexta-feira, recomendações para gerir os bilhões de dólares do Fundo Verde, destinados a enfrentar os impactos das mudanças climáticas em países pobres, de forma a evitar problemas nos programas de ajuda.

As promessas de ajuda para as mudanças climáticas são tão importantes quanto o Plano Marshall foi para por nos trilhos a economia da Europa após a Segunda Guerra Mundial, afirmou Simon Donner, em artigo na revista Science.

Mas ele advertiu que “se (estes recursos) não forem bem administrados, muito dinheiro pode ser perdido e muita gente pode não ter a ajuda que precisar”.

Entre as recomendações, Donner e sua equipe incluíram avaliações permanentes e independentes que assegurem que a ajuda para enfrentar as mudanças climáticas não seja apenas uma transferência de recursos de outros programas existentes, mas novos fundos.

Eles também pediram a indicação de auditores independentes de organismos externos para supervisionar os gastos e controlar os excedentes, bem como o uso de métodos científicos para escolher os projetos.


No ano passado, em Cancún, líderes mundiais prometeram 100 bilhões de dólares ao ano a partir de 2020 para ajudar os países em desenvolvimento a se adaptar às mudanças climáticas e mitigar os danos. Outros 30 bilhões de dólares recursos imediatos (‘fast track’) foram prometidos a partir de 2012.

Se esta ajuda maciça for mal gasta ou investida de forma ineficaz, os doadores ficarão decepcionados, enquanto o clima no mundo for se tornando cada vez mais perigoso para aqueles mais vulneráveis às suas consequências, alertou Donner.

Os pesquisadores, entre eles Milind Kandlikar e Zerriffi Hisham, todos da Universidad de British Columbia, decidiram pensar na questão depois de perceber, no começo do ano, que tem havido pouco controle e cálculo nos recursos dedicados às mudanças climáticas, disse Donner à AFP.

Tanto ele quanto seus colegas, acrescentou, esperam que o tema seja abordado durante a cúpula das Nações Unidas sobre o clima em Durban, África do Sul, que começa no fim deste mês.

Os cientistas mencionaram como os desastres ambientais do passado receberam uma avalanche de doações e o dinheiro foi gasto em publicidade direcionada para mostrar à comunidade internacional que as agências estavam “tomando medidas”.

“O sistema de ajuda internacional está cheio de problemas e somar outros 100 bilhões de dólares ao ano, basicamente dobrando os recursos, pode acabar piorando as coisas”, advertiu Donner.


O estudo citou o exemplo do Quênia de como o uso de avaliações científicas pode economizar muito dinheiro. Os pesquisadores demonstraram que dar às pessoas mosquiteiros para combater a malária é muito mais eficaz e barato do que usar métodos caros para erradicar a doença.

Segundo Donner, aplicando esta experiência à ajuda para as mudanças climáticas seria possível usar um estudo para decidir pela contratação de engenheiros para construir barreiras de alta tecnologia ou de trabalhadores locais para plantar manguezais na costa.

O tema ganha importância especial porque os problemas financeiros mundiais ameaçam desmontar os planos de ajuda às mudanças climáticas.

Na quinta-feira, consultores do Ernst&Young, em Londres, advertiram para um déficit no financiamento de US$ 45 bilhões no plano de ajuda se a crise econômica na zona do euro se aprofundar.

“Os governos não podem mais permitir se comprometer com os níveis anteriores de investimento em conformidade com as medidas de austeridade atual”, afirmou o Ernst & Young em um comunicado.

Em advertência à necessidade dos países em se adaptarem às mudanças climáticas e mitigar os danos, o Ernst & Young também destacou que apenas 18% dos executivos consultados pensavam que as negociações em Durban levariam a um acordo sobre as mudanças climáticas.