China muda o tom e destaca que Xi Jinping atuou rápido contra coronavírus

Em movimento raro, mídia estatal publicou um discurso antigo para mostrar que presidente chinês liderou reação - mas acabou levantando novos questionamentos

São Paulo – Epicentro do novo coronavírus, que já matou 1.665 pessoas, a China mudou o tom para convencer o mundo e seus próprios cidadãos de que atuou desde o início de forma rápida e decisiva para conter a epidemia.

A mídia estatal chinesa publicou neste domingo um recente discurso do presidente chinês, Xi Jinping, sinalizando pela primeira vez que o chefe de estado liderou a resposta contra a ameaça de epidemia gerada pelo novo coronavírus, nomeado como COVID-19, desde o início da crise.

A publicação do discurso, feito originalmente em 3 de fevereiro, aparentemente é uma tentativa de demonstrar que a liderança do Partido Comunista atuou bem desde o início.

No discurso, Xi diz ter dado instruções sobre o combate ao vírus em 7 de janeiro e ordenado o isolamento de algumas cidades localizadas no epicentro da crise em 23 de janeiro.

“Em 22 de janeiro, diante do rapidez de contágio identificada por esse vírus e os desafios para prevenção e controle, deixei claro minha solicitação para que a província de Hubei implemente medidas de restrição e controle sobre o fluxo de pessoas”, teria dito Xi.

O discurso foi feito para os principais membros do Partido Comunista, na instância mais alta de deliberação da alta cúpula chinesa, e cujos detalhes não costumam ser divulgados.

O movimento, porém, também abre espaço para a pergunta: por que o público não foi alertado sobre o problema antes?

O primeiro comentário do presidente sobre a doença foi publicado no dia 20 de janeiro, mas Xi depois não apareceu publicamente por semanas enquanto o vírus se alastrava.

Seu retorno ao palco só aconteceu só no último dia 10, quando foi divulgado um vídeo onde ele inspeciona um novo centro contra a doença:

O discurso publicado no domingo sugere que a alta liderança chinesa já tinha clareza da ameaça mesmo enquanto autoridades sanitárias e médicas tentava minimizá-la, e também dificulta a tentativa de colocar parte da responsabilidade em lideranças locais.

Do ponto de vista internacional, um dos principais símbolos da luta contra a epidemia na China foi a construção de um hospital para doentes da epidemia em apenas 10 dias – no caso um símbolo de eficiência, e não lentidão, de resposta.

O mundo observa de perto a reação chinesa pois os impactos transcendem as fronteiras. A economia da China é sete vezes maior do que na época da epidemia de Sars em 2003, e sua participação no PIB global pulou de 4% para 16%.

Recuo

O número de casos na China continental caiu pelo terceiro dia consecutivo neste domingo, de acordo com dados oficiais da Comissão Nacional de Saúde (CNS). Com 2.009 novos casos identificados nas últimas 24 horas, o total de infectados na região diminuiu para 68.500 pessoas.

Segundo o porta-voz da Comissão, Mi Feng, o porcentual de casos graves caiu para 7,2% do total, ante o pico de 15,9% registrado em 27 de janeiro.

A maior proporção de casos graves ainda se concentra em Wuhan, a cidade de Hubei onde o surto começou, mas caiu para 21,6%, frente ao pico de 32,4% registrado em 28 de janeiro.

“Os esforços nacionais contra a epidemia tem mostrado resultados”, disse Mi.

(Fonte: Associated Press)