China concentra tropas e blindados perto da fronteira com Hong Kong

Após dois meses de protestos a favor da democracia, Pequim deu a entender que poderia empregar a força para restabelecer a ordem na ex-colônia britânica

A China concentrava nesta quinta-feira (15) forças de segurança em Shenzhen, cidade próxima da fronteira com Hong Kong, em meio à escalada da crise pelas manifestações pró-democracia, na qual o presidente americano, Donald Trump, disse esperar que Pequim atue com “humanidade” pelo bem das negociações comerciais.

Pequim, que criticou na quarta-feira agressões “de tipo terrorista” contra seus habitantes nos confrontos em Hong Kong, concentrou forças da polícia militar em um estádio de Shenzhen, constatou um jornalista da AFP. Os homens da força de segurança estavam cercados por caminhões e blindados de transporte de tropas.

Após dois meses de protestos em Hong Kong a favor da democracia, Pequim deu a entender nos últimos dias que poderia empregar a força para restabelecer a ordem na ex-colônia britânica.

O embaixador chinês em Londres, Liu Xiaoming, afirmou que, “se a situação continuar piorando, e os distúrbios se tornarem incontroláveis para o governo de Hong Kong, o governo central não ficará de braços cruzados”.

O diplomata recordou que Pequim tem “recursos e poder suficientes para reprimir os distúrbios rapidamente”.

“Insisto em que Hong Kong faz parte da China. Nenhum país estrangeiro deve interferir (…) Pedimos às potências estrangeiras que respeitem a soberania chinesa”, completou o embaixador.

Em um momento de grande tensão, e após uma série de tuítes desconcertantes e anteriores à notícia da concentração de forças, o presidente Trump pareceu vincular um eventual acordo comercial com Pequim a uma resolução “humana” do conflito em Hong Kong.

“Milhões de empregos estão sendo perdidos na China para países sem tarifas. Milhares de empresas estão indo embora. Com certeza, a China quer alcançar um acordo. Deixem que trabalhem humanamente com Hong Kong primeiro!”, escreveu o presidente no Twitter.

Em outra mensagem publicada mais cedo, com um tom diferente, Trump afirmou que o presidente chinês, Xi Jinping, poderia “solucionar o problema de Hong Kong rápida e humanamente”. Também sugeriu uma “reunião pessoal”.

Nos Estados Unidos, as críticas aumentam contra Trump por sua aparente indulgência a respeito de Pequim, com quem Washington está envolvido em importantes e árduas negociações comerciais.

Na quarta-feira, um porta-voz do Departamento de Estado citou a preocupação com a “erosão contínua” da autonomia de Hong Kong e manifestou apoio “firme” aos direitos de liberdade de expressão e de reunião pacífica na ex-colônia britânica.

“Atos de tipo terrorista”

Na terça-feira, os manifestantes agrediram dois cidadãos da China continental durante o grande protesto no aeroporto da megalópole, que suspendeu os voos na segunda e terça-feiras.

“Condenamos com veemência atos de tipo terrorista”, afirmou em um comunicado o porta-voz do Escritório de Assuntos de Hong Kong e Macau do governo chinês, Xu Luying.

Com as acusações, Pequim assimila as ações dos manifestantes pró-democracia ao “terrorismo” pela segunda vez durante a semana. O tom mais duro provoca o temor de uma repressão militar para sufocar um movimento iniciado há dez semanas.

O Escritório de Assuntos de Hong Kong e Macau afirmou na segunda-feira que os ataques de “manifestantes radicais” contra policiais representavam um “grave crime”, com mostras dos “primeiros sinais de terrorismo”.

O Diário do Povo e o Global Times, dois jornais estatais chineses, divulgaram imagens de blindados transportando tropas a caminho de Shenzhen, a poucos quilômetros de Hong Kong, no sul da China.

O presidente Donald Trump aumentou a preocupação com uma possível intervenção militar ao afirmar na terça-feira que o serviço de Inteligência de seu país o informou sobre um deslocamento militar chinês “na fronteira com Hong Kong”.

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Aeroporto retoma a normalidade

Os manifestantes pró-democracia deixaram o aeroporto de Hong Kong, que na quarta-feira recuperou o ritmo normal após dois dias de protestos que provocaram muitos problemas ao tráfego aéreo.

Quase 100 ativistas se reuniram mais tarde no bairro operário de Sham Shui Po, diante de uma delegacia, mas a polícia dispersou o ato com gás lacrimogêneo.

A atual crise representa o maior desafio à autoridade da China sobre Hong Kong desde sua devolução pelo Reino Unido em 1997.

As manifestações, que levaram milhões de pessoas às ruas, começaram com a oposição a um projeto de lei que permitiria extradições à China. O movimento se ampliou, porém, com uma pauta de defesa das liberdades democráticas e contra a influência de Pequim no território.

Suspeitas e violência

Depois de expressar suas exigências de forma pacífica em um primeiro momento, na terça-feira, os ativistas adotaram técnicas mais agressivas, com barricadas organizadas com os carrinhos de bagagem para bloquear os passageiros na área de desembarque do aeroporto.

Durante a noite, a situação resultou em confrontos violentos com a polícia e brigas com passageiros desesperados para embarcar em seus voos.

A imprensa filmou uma cena especialmente desagradável, na qual um grupo de manifestantes agride um policial até que o agente saca a pistola e aponta para os ativistas, mas sem atirar.

Os manifestantes também agrediram dois homens que suspeitavam serem espiões, ou agentes disfarçados.

Um homem que usava um colete de imprensa, suspeito de ser um espião das forças de segurança chinesas, foi preso a um carro de bagagens e agredido por um pequeno grupo de manifestantes.

O homem foi retirado do aeroporto em uma ambulância.

O jornal “Global Times”, publicação oficial do governo chinês em língua inglesa, de linha nacionalista, afirmou que o homem agredido era um de seus repórteres.

Em outro incidente, manifestantes cercaram um homem denunciado como um agente policial infiltrado.

Durante a retirada desta pessoa, a polícia usou gás de pimenta para abrir passagem entre os manifestantes que bloqueavam a viatura que escoltava a ambulância.