Chile precisa fortalecer o Estado sem “idealização ingênua”, diz socióloga

Os protestos no Chile assustaram o mundo. A EXAME, socióloga analisa o que está por trás da insatisfação da população do país mais estável da América Latina

São Paulo – Um dos países mais ricos, desenvolvidos e estáveis da América Latina, o Chile se viu tomado por protestos que resultaram em episódios de violência, mortes, saques e incêndios no final da semana passada. Pela primeira vez desde o fim da ditadura de Augusto Pinochet (1990), militares foram chamados para patrulhar as ruas de Santiago.

Inicialmente motivados pelo anúncio do aumento de 30 pesos nas tarifas do metrô, os manifestantes ampliaram o rol de demandas ao governo do presidente Sebastián Piñera, que dias antes se gabava à imprensa internacional sobre a estabilidade do país. O aumento foi descartado, mas os protestos não pararam, deixando evidente que a população está ansiosa por mudanças profundas. 

Para entender o que está por trás dos protestos no Chile nos últimos dias e o que está gerando insatisfação entre os chilenos, EXAME entrevistou a socióloga chilena María-Luisa Mendez, pesquisadora do Centro de Estudos de Conflitos e Coesão Social (Coes) e diretora do departamento de Sociologia da Universidade Diego Portales, ambos baseados em Santiago. Abaixo, a entrevista na íntegra. 

O que está por trás dos protestos no Chile?

Maria Luísa Méndez – É um processo complexo, mas a crítica central é a desigualdade em seus mais diversos ângulos, como as diferenças entre as classes e a desconexão do governo em relação às demandas do povo. É um mal-estar generalizado que se tornou ainda mais agudo a ponto de explodir com o anúncio do aumento das tarifas do transporte. 

O que explica essa reação tão forte por parte da população?

Maria Luísa Méndez – Os protestos são muito transversais e a população foi às ruas mesmo em bairros de classe alta. As pessoas que se manifestaram estão encontrando um ponto comum no rechaço da militarização das manifestações e as declarações do presidente, que descreveu os eventos como “estado de guerra”. A combinação do mal-estar que falamos acima, a desigualdade social e o uso da força por parte das autoridades está dificultando um diálogo amplo. Todos esses aspectos são gatilhos importantes. 

Por que os chilenos estão tão insatisfeitos?

Maria Luísa Méndez – Um aspecto é a precariedade nas condições de vida. O Chile é um país que tem uma renda per capita alta para a região, mas a maioria das pessoas não conta com um sistema de proteção efetivo. 

Tanto a classe média quanto os mais pobres estão expostos aos problemas na saúde pública e o desemprego. Essas vulnerabilidades são evidentes entre os menos privilegiados, mas os mais ricos também temem os problemas que surgir em uma eventual queda no padrão de vida e a ausência do Estado. 

O governo de Piñera já descartou o aumento das tarifas, mas as pessoas continuam nas ruas. Por que isso está acontecendo e qual é o caminho para sair dessa crise?

Maria Luísa Méndez – Isso é apenas a ponta do iceberg. A intensidade e a transversalidade dos protestos mostram que os chilenos querem transformações estruturais que algumas pessoas já definem como um novo pacto social.

Não há dúvidas que as demandas desafiam não apenas o governo, mas o Estado, que está enfraquecido e cedeu o seu protagonismo como um ator de coesão. Portanto, fortalecê-lo, sem idealização ingênua, é um passo-chave para a sociedade seguir adiante. 

Reformas sociais distributivas ainda não vistas no Chile podem nos fazer avançar sem retrocessos na desigualdade e em prol de uma coesão social democrática e inclusiva. É preciso mirar nos aspectos subjetivos que contaminam a experiência diária de frustração e falta de tratamento digno das pessoas.