Cessar-fogo em Donetsk não tem sido respeitado, diz Kiev

Jornalistas da AFP no terreno ouviram vários disparos de foguetes nos arredores do aeroporto às 11h00 local (06h00 de Brasília)

As autoridades ucranianas acusaram nesta quarta-feira os rebeldes pró-russos de violar a trégua concluída no dia anterior no aeroporto de Donetsk, palco dos combates mais violentos no leste separatista do país há vários meses.

Jornalistas da AFP no terreno ouviram vários disparos de foguetes nos arredores do aeroporto às 11h00 local (06h00 de Brasília).

Também observaram na estrada para o aeroporto quatro veículos rebeldes, três deles carregados com foguetes Grad, alguns já utilizados.

“Estamos ouvindo bombardeios, mas não temos medo. Já estamos acostumados”, declarou Alexander, um mineiro aposentado de 54 anos que vivia com sua filha em um prédio nas proximidades do aeroporto, agora em ruínas.

O porta-voz militar ucraniano, Andrii Lysenko, afirmou, por sua vez, que “desde que os negociadores foram embora os tiros contra posições ucranianas nos arredores do aeroporto foram retomados”.

Um líder rebelde, Andrei Purguin, anunciou no dia anterior a conclusão de um cessar-fogo no aeroporto de Donetsk após uma reunião entre um general ucraniano, um general russo, os rebeldes e a OSCE (Organização para a Segurança e Cooperação na Europa).

As autoridades ucranianas não relataram vítimas nos combates na área, mas há poucos dias admitiram ser impossível obter informações confiáveis devido aos combates em curso.

Os rebeldes, entretanto, negaram qualquer ataque coordenado nas ruínas do vasto aeroporto, a norte de Donetsk, a capital regional e reduto de insurgentes. “Nosso lado tem respeitado o cessar-fogo”, disse à AFP um comandante rebelde presente na área, recusando-se a dar seu nome.

Poucas esperanças de uma trégua durável

A retomada dos confrontos ocorre no momento em que cerca de 50 ministros das Relações Exteriores dos países membros da OSCE devem discutir em Bâle (Suíça) a partir desta quarta-feira à noite a crise na Ucrânia, na esperança “de avançar na direção de uma paz durável”.

Os chefes da diplomacia americana, John Kerry, e russa, Serguei Lavrov, deverão se encontrar à margem da reunião, de acordo com uma autoridade americana.

Os dois deverão “discutir uma série de questões de interesse comum, incluindo questões relativas ao Oriente Médio”, indicou a fonte.

O anúncio na terça-feira pela OSCE e os líderes separatistas de um cessar-fogo a partir de 5 de dezembro na região de Lugansk, um dos pontos mais conturbados do conflito, e a promessa de novas negociações de paz, suscitaram poucas esperanças.

As tréguas firmadas entre os rebeldes pró-russos e o Exército ucraniano foram todas violadas pelos dois lados.

A última foi concluída em setembro em Minsk entre Kiev e os rebeldes com a participação de Moscou e da OSCE, mas que também não vingou. Mais de 1.000 pessoas morreram no leste do país desde a assinatura dos acordos.

O ex-presidente ucraniano Leonid Kutchma, que participa do grupo de mediadores sobre a Ucrânia, informou nesta quarta que o próximo ciclo de negociações poderia iniciar na próxima semana, o que os rebeldes não confirmaram.

Lyssenko também ressaltou que há “sinais que mostram que os rebeldes começam a escutar os negociadores”.

500 milhões da UE

Essas esperanças nascem após a confirmação pelo Parlamento ucraniano do novo governo pró-ocidental, que tem, pela primeira vez em suas fileiras, estrangeiros, incluindo uma americana nas Finanças e um lituano na Economia.

Eles terão a difícil tarefa de recuperar uma economia em profunda crise e erradicar a corrupção endêmica.

A formação do novo governo ucraniano foi elogiada pelo presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, e pelo vice-presidente americano, Joe Biden, que evocou “as difíceis, mas necessárias” reformas que precisam ser concluídas.

Além disso, a União Europeia depositou nesta quarta-feira uma nova parcela de 500 milhões de euros em ajuda à Ucrânia, uma “promessa de solidariedade”, mas exigiu em troca “a manutenção do ritmo das reformas”.

O novo ministro da Economia, Aivaras Abromavicius, já prometeu na terça usar “métodos mais radicais” para realizar este trabalho.