Ciúme pode estar por trás do caso Assange

O fundador do WikiLeaks é suspeito de ter cometido quatro crimes sexuais nesse país

Copenhague – O fundador do portal Wikileaks, Julian Assange, encontra-se refugiado há dois meses na Embaixada equatoriana em Londres para não ser extraditado à Suécia, onde é suspeito de ter cometido quatro crimes sexuais e onde esse verdadeiro impasse do “caso Assange” começou.

Após conceder asilo político a Assange, o Equador estuda comparecer à ONU ou à Corte Internacional de Haia para garantir esse direito ao fundador do Wikileaks, que, por sua vez, teme ser extraditado da Suécia aos EUA, onde poderia ser condenado à morte pela divulgação de arquivos diplomáticos secretos.

Os supostos crimes sexuais envolvem duas mulheres com as quais Assange alega ter tido relações sexuais consentidas, entre 13 e 18 de agosto de 2010, quando o fundador do Wikileaks estava na Suécia participando de algumas conferências.

A principal acusação é a de estupro “em grau menor” da jovem SW (Sofia Welin), enquanto a mesma dormia. Esta acusação ainda traz o agravante da prática sexual ter sido feita sem preservativo, segundo a declaração da jovem recolhida na investigação preliminar da Promotoria sueca.

Além deste, Assange é suspeito de outros três delitos contra AA (Anna Ardin): um de coerção ilegal (do dia 13 para 14), por retê-la contra sua vontade e usando a força, e dois de assédio sexual, um nessa mesma noite e o outro (do dia 18) por ter sexo feito sexo sem preservativo e por ter esfregado seu órgão sexual contra ela, segundo a denúncia.

O estupro prevê uma pena que vai de dois a seis anos de prisão, enquanto os outros crimes podem gerar penas de multa ou de prisão de até dois anos, segundo as leis suecas.

O caso Assange esteve rodeado pela polêmica, tanto pelos fatos como pelo próprio comportamento das denunciantes, assim como o da Promotoria sueca.

Assange, que negou essas acusações em diversas oportunidades, viajou para Estocolmo convidado por várias organizações, como o coletivo cristão do Partido Social-Democrata sueco, cuja porta-voz é a própria Anna Ardin, que foi chefe de imprensa de Assange nesses dias e, inclusive, o acolheu em sua casa.

O fundador do Wikileaks apresentou uma conferência para este coletivo no dia 14 de agosto, quando conheceu Welin, que tinha se credenciado como fotógrafa para cobrir o evento. Dois dias depois, eles viajaram de trem até a casa de Welin em Enköping, ao oeste de Estocolmo, e passaram a noite juntos.


As duas jovens, que tinham se conhecido uns dias antes, decidiram comparecer a uma delegacia do centro de Estocolmo somente no dia 20 para apresentar as denúncias por estupro e por assédio sexual.

No entanto, vários detalhes dessas denúncias são questionáveis, principalmente os relacionados com Ardin.

Se tinha sido violentada por Assange no dia 13, teoricamente, ela não teria motivo para conviver com ele por mais uma semana e nem para escrever em sua conta de Twitter que estaria com ele em uma festa no dia seguinte e que era “assombroso” estar com a “pessoa mais “cool” do mundo” dois dias depois.

As mensagens foram apagadas por Ana após ela ter apresentado a denúncia, mas acabaram ficando armazenadas no “esconderijo” do Google, um mecanismo de armazenamento de informação na internet.

Vários veículos da imprensa sueca insinuaram que Ana pôde ter atuado vingança após receber uma chamada de Welin a sua casa e descobrir que Assange mantinha relações sexuais com outra jovem.

Em seu blog, também fechado após a denúncia, Ana tinha postado algo sobre o que chamou de “perfeita estratégia” para se vingar de um homem “infiel”, o que unido a sua condição de “feminista radical”, assumida por ela mesma, poderia alimentar essa hipótese.

Ana, que trabalha como jornalista no “Gotlands Folkblad”, mantém vínculos com grupos anticastristas há anos, o que acabou gerando algumas acusações de supostos contatos com a CIA.

O processo judicial não foi menos polêmico: o dia que se apresentou a denúncia, a juíza de guarda ordenou a prisão de Assange sem direito de defesa, uma notícia que foi confirmada por ela mesma a um jornalista.

Menos de um dia depois, a promotora-chefe, Eva Finné, cancelou a ordem de prisão, limitando o caso em uma investigação por assédio. No entanto, uma semana depois, a juíza superior, Marianne Ny, reabriu o caso de estupro sem explicar os motivos de sua decisão.

Depois, Marianne ordenou a prisão de Assange, que já se encontrava fora da Suécia, e emitiu uma ordem de prisão europeia.

Após várias apelações, as quais só serviram para limitar a quatro os crimes e diminuir o de estupro a um “grau menor”, Assange foi detido em Londres pela Polícia britânica em dezembro de 2010.

No Reino Unido, as autoridades deram início a um longo processo judicial, que foi encerrado somente no último dia 14 de junho, quando o Supremo britânico rejeitou seu último recurso e reafirmou sua extradição a Suécia.