Caso Assange deve impactar diplomacias britânica e latina

Ameaça britânica de suspender a imunidade diplomática da embaixada do Equador em Londres foi condenada pela América Latina

Londres – A América Latina condenou a ameaça britânica de suspender a imunidade diplomática da embaixada do Equador em Londres a fim de prender o ativista Julian Assange, mas o dano à reputação da Grã-Bretanha não deve perdurar, o que dependerá em grande parte da posição do Brasil.

Assange está abrigado desde junho na embaixada equatoriana em Londres na tentativa de escapar de um processo de extradição para a Suécia, onde é acusado de crimes sexuais. Ele diz temer que de lá seja transferido para os Estados Unidos, cujo governo o acusa de ter violado leis por divulgar no site WikiLeaks milhares de documentos diplomáticos confidenciais.

O episódio ocorre em má hora para a Grã-Bretanha, que cada vez mais busca oportunidades comerciais em países de rápido crescimento na América Latina. É a segunda vez neste ano que o governo britânico é acusado de arrogância colonial no trato com os latino-americanos.

Neste ano, a efeméride dos 30 anos da Guerra das Malvinas, entre Argentina e Reino Unido, motivou novos atritos entre os dois países pela posse das ilhas no Atlântico Sul, que os britânicos chamam de Falklands.


No caso da ameaça de invasão da embaixada, o Equador também acusa Londres de agir de forma “colonial”, esperando que Quito “se ajoelhe” diante de uma potência europeia.

“Acho que tanto a questão das Falklands/Malvinas quanto o caso Assange abalaram a imagem da Grã-Bretanha na América Latina”, disse o chefe do departamento de Assuntos Internacionais Latino-Americanos da London School of Economics, Francisco Panizza.

“É um dano à reputacional, se você quiser, mas no momento está contido, e não acho que os países da América Latina, exceto na altamente improvável situação de a Grã-Bretanha invadir a embaixada equatoriana, irão tentar exacerbar as tensões”, acrescentou.

Na semana passada, a Grã-Bretanha ameaçou suspender a imunidade da embaixada e invadi-la para prender Assange. Irritado, o governo do Equador concedeu asilo político ao ex-hacker australiano.

O presidente esquerdista do Equador, Rafael Correa, retrata essa disputa como uma luta Davi-Golias, e no domingo chanceleres do bloco regional Unasul manifestaram apoio ao direito do Equador de conceder asilo para Assange.

Mas o apoio é mais inflamado por parte dos governos esquerdistas da Venezuela e Bolívia, ao passo que outras nações adotam uma postura mais matizada.

Para esses, a ameaça britânica de invasão foi condenável, nada mais. Para outros, participar de uma demonstração latino-americana de solidariedade pode ser mais importante do que se queixar do comportamento britânico.


“Há momentos em que você precisa apoiar seus vizinhos, mesmo que você talvez tenha algumas ressalvas, sabendo que da próxima vez vão apoiá-lo”, disse Victor Bulmer-Thomas, da entidade londrina de estudos da política externa Chatham House.

“Não há nada até aqui no caso Assange que tenha causado danos sérios à posição britânica na região. Ninguém vai cancelar contratos petrolíferos nem nada por causa disso.”

Brasil quieto – Para que não haja uma escalada, a posição do Brasil é crucial, e até agora todas as indicações são de que o gigante latino-americano pretende desarmar a crise o mais rapidamente possível.

“Vamos permanecer quietos dessa vez”, disse à Reuters um funcionário brasileiro de alto escalão sob anonimato, acrescentando que o Brasil só vai elevar a temperatura diplomática se a Grã-Bretanha entrar na embaixada do Equador.

“Nosso interesse na questão da soberania é obvio”, disse o funcionário, lembrando que desde junho um político boliviano de oposição está refugiado na embaixada brasileira em La Paz.

“Os brasileiros são o ator regional mais importante no mundo e eles querem que isso vá embora”, disse o especialista em política latino-americana na Universidade de Londres-Queen Mary, James Dunkerley.

“Se você vai sediar a Copa do Mundo e a Olimpíada, se a sua chefe de Estado acaba de se reunir com os britânicos, as relações em geral estão boas. Por que complicar mais a vida?” (Reportagem adicional de Brian Winter, em São Paulo; e de Estelle Shirbon, em Londres)