Carlos Poggio: A aposta de Nancy Pelosi no impeachment de Donald Trump

Uma das operadoras mais experientes de Washington, Nancy Pelosi mudou sua posição sobre o impeachment de Trump. Entenda sua estratégia

Durante muito tempo, a presidente da Câmara dos Deputados nos Estados Unidos, a Democrata Nancy Pelosi, resistiu às pressões de integrantes do seu partido para iniciar procedimentos de impeachment contra Donald Trump. Pelosi tinha boas razões para tal.

No mais recente episódio de impeachment pelo qual o país passou, o tiro saiu pela culatra. Além de não ser condenado pelo Senado, Bill Clinton viu seus números de popularidade atingirem recordes durante o processo, e os Republicanos, vistos como extremistas por parcela expressiva do eleitorado, perderam cadeiras no Congresso nas eleições de meio de mandato de 1998. O resultado final foi tão devastador que levou à renúncia do presidente da Câmara à época, o Republicano Newt Gingrich.

Até a semana passada, Pelosi temia que um pedido de impeachment poderia fazer com que os Democratas fossem vistos como extremistas, e acreditava que o caminho politicamente mais seguro era apostar todas as fichas em derrotar Trump nas urnas em 2020.

Pelosi é uma das operadoras mais experientes de Washington, lugar onde nada acontece por acaso ou por puros princípios. Se ela decidiu por finalmente iniciar um inquérito para o impeachment contra Trump, não é porque ela acredita que as acusações atuais são mais graves que as anteriores, mas é porque seu cálculo político mudou. Pelosi está apostando que pode evitar o destino dos Republicanos sob Clinton e mira em outro exemplo histórico: o de Richard Nixon em 1974.

As pesquisas feitas até agora têm demonstrado que a maior parte do público americano não apoia um impeachment contra Trump, com cerca de 40% favoráveis. Como comparação, o apoio ao impeachment de Nixon em 1973 era de apenas 19%. Após o Congresso ter iniciado os procedimentos de impeachment em outubro de 1973, a aprovação pulou para 38% no começo de 1974 e foi para 58% quando Nixon renunciou.

Ao contrário do que aconteceu com Clinton em 1998, a opinião pública nos Estados Unidos foi a de que os congressistas em 1973 estavam conduzindo os procedimentos de forma adequada e havia evidências suficientes para o impedimento de Nixon. Consequentemente, houve uma queda expressiva dos índices de aprovação do Republicano que foi de mais de 60% no começo de 1973 para cerca de 20% quando da sua renúncia em agosto de 1974.

Uma lição que se pode extrair da comparação entre os episódios de Nixon e Clinton é que o apoio da opinião pública é fundamental para que a estratégia do impeachment seja politicamente bem-sucedida. E esse apoio está diretamente ligado à percepção de partidarismo do processo. Quanto menos a percepção do público for a de que o impeachment é meramente uma jogada político-partidária, maior o apoio popular e a legitimidade do processo.

Os Republicanos não conseguiram convencer a opinião pública de que o processo de impeachment de Clinton era algo além de uma perseguição política e foram punidos nas urnas. Ao decidir pelo início do inquérito de impeachment ontem, Pelosi julgou ter as condições políticas necessárias para seguir o caminho nos mesmos moldes do processo contra Nixon e evitar um cenário como o de Clinton.

Dois fatores importantes ajudaram a alterar o cálculo de Pelosi. Primeiro, um aumento significativo no número de Democratas na Câmara que passaram a favorecer o impeachment nos últimos dias, em especial de deputados que ocupam assentos em distritos considerados competitivos e que temiam o impacto desse curso de ação nas próximas eleições. Praticamente 90% dos Democratas na Câmara dos Representantes manifestaram-se favoravelmente ao impedimento de Trump.

Em segundo lugar, como a própria Pelosi admitiu, as acusações atuais, de que Trump teria usado o cargo para solicitar auxílio de um país estrangeiro com a finalidade de obter ganhos políticos domésticos, é mais “compreensível” para a população norte-americana do que as acusações que vinham sendo feitas até então.

Há pelo menos duas diferenças importantes entre Trump e os casos de Clinton e Nixon. Uma é o fato de Trump ser o único presidente na história que já assumiu o cargo com rumores de que poderia sofrer um impeachment, assumindo a Casa Branca já com uma investigação do FBI em andamento. A outra é que, tanto com Nixon como com Clinton, os procedimentos de impeachment foram iniciados no segundo mandato desses presidentes.

Nesse sentido, o caso de Trump é mais próximo do primeiro caso de impeachment presidencial na história dos Estados Unidos: o de Andrew Johnson em 1868, quando contava 3 anos de mandato. Os processos contra Johnson e Clinton foram os únicos a serem aceitos pela Câmara, onde é necessária a maioria simples para tanto, em quase 250 anos de democracia ininterrupta nos Estados Unidos.

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Ambos foram rejeitados no julgamento do Senado, no qual precisa ser aprovado por dois terços. Clinton escapou com folga, mas Johnson foi salvo por apenas um voto. As chances do impeachment de Trump passar no Senado, casa na qual os Republicanos atualmente têm maioria, são praticamente nulas, dependeriam de uma enorme pressão popular e precisariam incluir parcela significativa de eleitores republicanos convencidos de que Trump não tem condições de permanecer na presidência.

Evidentemente, cada um destes processos seguiram uma lógica própria e o clima atual altamente polarizado na sociedade americana deve alterar muitos desses cálculos.

As pesquisas têm indicado que a aprovação de Trump entre eleitores do Partido Republicano supera os 90%. A confiança dos norte-americanos no Congresso dos Estados Unidos gira em torno de 10% contra 42% durante o impeachment de Nixon. A confiança na imprensa também está em níveis historicamente baixos e muitos consomem notícias pelo fragmentado universo das redes sociais selecionando informações que apenas reforçam seus próprios pontos de vista.

Nancy Pelosi sabe que dadas essas condições dificilmente Trump perderá o cargo pela via do impeachment. Mas ela aposta que conseguirá desgastar suficientemente o presidente entre eleitores independentes e parcela dos Republicanos até as eleições de 2020. O risco para os Democratas é Trump seguir o caminho de Clinton e sair ainda mais fortalecido desse processo. Apenas o tempo dirá se a aposta de Pelosi foi bem-sucedida.

*Carlos Gustavo Poggio é professor de Relações Internacionais na FAAP