Brasil entra na guerra com pouca condição de lutar

Soldados brasileiros não tinham uniformes nem armas adequadas na maior parte das vezes

O Brasil foi um dos primeiros países da América Latina a declarar guerra à Alemanha e à Itália. Foi o único país da América Latina a enviar combatentes para a Europa. Foram mais de 23 mil soldados e oficiais, além de um grupo de aviadores de caça. Entre 1944 e 1945, morreram em combate 451 brasileiros. Mais de 1 500 foram feridos. A marinha mercante brasileira, com navios lentos e obsoletos, realizou viagens arriscadas para levar suprimentos a portos americanos e ingleses. Durante o conflito, 32 navios brasileiros foram afundados por submarinos alemães e italianos. Morreram 470 marinheiros e 502 passageiros.

São esses os números. Parece pouco diante da magnitude da Segunda Guerra Mundial mas deve-se levar em conta a situação do Brasil dos anos 1940. Era um país sem indústria; com população predominantemente rural e pobre; e dono de um exército que, além de pequeno, era desatualizado e despreparado. Sua grande experiência militar havia ocorrido entre 1864 e 1870, durante a guerra contra o Paraguai. Depois disso, com exceção de algumas revoltas internas que exigiram sua intervenção, o exército dedicava-se mais à política do que à arte de guerrear. Por todas essas razões, a participação ativa do Brasil na luta que se deu entre 1939 e 1945 foi limitada, para dizer o mínimo. A importância real do país estava em sua posição geográfica. Os americanos precisavam de bases aéreas no Nordeste para reabastecer os aviões que se dirigiam ao norte da África.

A história da Força Expedicionária Brasileira (FEB), nome dado os três regimentos de infantaria que seguiram para a Itália a partir de julho de 1944, tem sido tratada de dois modos nos últimos 60 anos. Durante a guerra e nos anos seguintes, uma literatura ufanista tratou os pracinhas como guerreiros extraordinários e exagerou seus feitos, fazendo com que episódios como a tomada de Monte Castelo, ocorrida em fevereiro de 1945, parecessem maiores do que realmente foram. Uma outra corrente não dá à FEB o crédito que ela merece. Segundo essa linha, a FEB primou pela irrelevância, se é que não foi um fiasco.

Meio-termo

A verdade provavelmente se encontra no meio dessas duas correntes. Os soldados brasileiros não tinha nada de extraordinário. Mas não foram irrelevante. A FEB combateu ao lado de divisões americanas bem treinadas, e várias vezes as substituiu na linha de frente. Os brasileiros lutaram na região dos Apeninos, contra fortificações inimigas instaladas no cume dos morros. Uma luta difícil, sempre morro acima. Seus opositores na Itália eram alemães e italianos cansados da guerra. Uma tropa que estava longe de ser a elite que combatia o exército soviético, no leste europeu, e os exércitos aliados, que em 1944 avançavam em direção à fronteira alemã. Era um time da terceira divisão, é verdade, mas tinha experiência e era comandado por um dos mais competentes oficiais alemães, o marechal Albert Kesselring.

Tudo isso deve ser levado em conta quando se julga os sucessos e os fracassos da FEB. Mas há uma outra história sobre os expedicionários brasileiros que anda meio esquecida ou que nunca foi contada em toda a sua extensão. É uma história de descaso, desorganização e incompetência que cerca a própria organização da força expedicionária e que certamente pesou em seu desempenho.

Estrutura

O Brasil declarou guerra à Itália e Alemanha em agosto de 1942. Decidiu formar uma expedição de combatentes em março de 1943. Entendeu-se com os militares americanos, emitiu ordens e portarias, enviou comissões aos Estados Unidos. A princípio a Força Expedicionária Brasileira seria formada por três divisões de infantaria algo em torno de 60 mil soldados e oficiais. Um ano depois, e com muito esforço, o exército conseguiu arrebanhar seus 23 mil praças, o suficiente para uma única divisão. As outras duas nunca saíram do papel. A maior parte desse contingente era formada por trabalhadores rurais, com níveis escolares insuficientes para as exigências de uma guerra moderna. Muitos soldados brasileiros embarcaram doentes para a Itália. Para espanto dos americanos, havia até mesmo tuberculosos e sifilíticos entre os que chegaram ao porto de Nápoles, destino inicial da FEB.

O treinamento que receberam no Brasil foi mínimo. Em termos práticos, os praças brasileiros só aprenderam a marchar e a bater continência. Sua experiência de combate foi adquirida do pior modo: debaixo dos tiros alemães. Nos quartéis em que se reuniram no Brasil, as condições de higiene eram aterrorizantes. O rancho era composto da seguinte maneira: pão sem manteiga no café da manhã; carne seca com feijão e farinha no almoço; carne seca com feijão e farinha no jantar. Alimento muitas vezes estragado. Os pracinhas que tinham algum dinheiro faziam suas refeições em bares. Nos quartéis, não havia jeito de limpar as marmitas. Elas eram esfregadas com jornal para que se pudesse fazer a refeição seguinte.

Condições precárias

Houve o capítulo do fardamento. Para vestir os combatentes foi escolhido um tecido de algodão de baixa qualidade. Encolhia ao primeiro contato com a água, o que fez com que os brasileiros se apresentassem na Itália com canelas de fora e mangas que quase chegavam so cotovelos. Um fator de humilhação. As pouco mais de 50 enfermeiras que seguiram com os soldados ganharam um uniforme tão mal cortado que os próprios americanos pediram aos brasileiros autorização para refazê-los.

Só a escolha do tecido vagabundo já seria motivo para corte marcial, mas a irresponsabilidade brasileira foi além. O uniforme que ganhou o apelido de Zé Carioca tinha a mesma cor verde oliva dos uniformes alemães. O primeiro escalão de FEB desembarcou em Nápoles desarmado (receberia as armas dos americanos) e vestido de verde oliva. Quando iniciou sua marcha em direção ao acampamento, os italianos confundiram os brasileiros com prisioneiros alemães. Houve vaias, e algumas pedradas.

Os organizadores da FEB também se esqueceram de que o inverno italiano é muito frio. Mandaram a tropa para a guerra sem agasalhos. Os cobertores que os brasileiros receberam eram tão ralos que ficavam transparentes na chuva.

Falta de soldados

Se foi difícil encontrar soldados aptos para a expedição, também não foi simples encontrar oficiais, embora o exército brasileiro estivesse abarrotado de gente ociosa. Muitos dos oficiais de carreira simplesmente não queriam nada com a guerra. Por isso, o Exército foi forçado a convocar oficiais do CPOR, um corpo da reserva. Eram advogados, médicos e engenheiros que haviam recebido treinamento superficial. Entraram para a FEB como tenentes. O tenente, observe-se, comanda um pelotão. É quem vê o combate de perto. É o oficial que mais se arrisca.

As deficiências da FEB foram conhecidas desde o início e nada se fez para resolvê-las. Em parte porque era assim que o Brasil funcionava (e ainda funciona), na base da improvisação e da papelada. Em parte porque os generais-políticos que cercavam Getúlio Vargas não se interessavam pelo assunto. Ou temiam que um comandante bem-sucedido voltasse para o Brasil com prestígio suficiente para tomar-lhes os cargos. “Quem menos acreditava na FEB, e por isso mesmo não lhe dava maior atenção, era o chefe do Estado Maior do Exército, general Góes Monteiro”, escreveu, alguns anos mais tarde, o coronel Floriano de Lima Brayner, chefe do Estado Maior da FEB. Mesmo durante a luta, a politicagem entre os oficiais superiores da Força Expedicionária não terminou, e a impressão que se tem quando se lê as memórias que deixaram é que gastavam mais tempo nisso do que com o inimigo.

Participação honrosa

Apesar de tudo, os brasileiros lutaram bem. Aprenderam a usar bazucas e canhões modernos; desenvolveram, com os seus tenentes do CPOR, técnicas de patrulha e de emboscada; sobreviveram ao inverno forrando as coturnos com palha e jornal. Entenderam-se razoavelmente com seus aliados. Muitos receberam medalhas de heroísmo de ingleses e americanos (as medalhas brasileiras eram mais difíceis de obter, por causa da sovinice de seus comandantes). No fim, formavam uma tropa eficiente e agressiva. É um fato pouco lembrado que os brasileiros cercaram e aprisionaram toda uma divisão de infantaria alemã, a 148. E não foi porque faltasse armas ou munição aos alemães.