Bitcoin: a revolução do samurai

Quando o conflito entre duas facções ameaça desembocar em uma guerra civil, o mítico samurai japonês – reverenciado pelas duas casas – volta do exílio autoimposto… e revela que é, na verdade, um pistoleiro australiano, com uma cara meio parecida com a do ator americano Charlie Sheen.

Esta trama ruim para um filme de Hollywood é possivelmente o final de um mistério de quase oito anos na vida real. A história começou em outubro de 2008, quando um autor identificado apenas como Satoshi Nakamoto publicou um estudo sobre como um mercado virtual poderia funcionar. A solução, brilhante, deu origem à moeda virtual mais famosa do mundo, o Bitcoin, que hoje tem um mercado de quase 7 bilhões de dólares e realiza cerca de 200.000 transações por dia.

A identidade de Nakamoto era (e talvez ainda seja) um dos maiores mistérios do mundo da tecnologia e das finanças. Ele jamais havia se revelado e se comunicava com seus parceiros apenas por mensagens. Em 2010 passou as rédeas da comunidade ao americano Gavin Andresen, que se tornou o cientista-chefe da Fundação Bitcoin, e sumiu de vez.

“Estejam seguros, assim como vocês trabalharam, eu não fiquei à toa durante todos esses anos”, escreveu o empresário australiano Craig Steven Wright em seu recém-criado blog, no post em que se identificou como Nakamoto. “Desde que me distanciei da persona pública que era Satoshi, mergulhei fundo na pesquisa. Estive em silêncio, mas não ausente. Tenho trabalhado com um grupo excepcional e anseio por compartilhar nosso notável trabalho quando ele estiver pronto.”

Antes de publicar seu post, Wright deu entrevistas à revista Economist, à TV BBC e à revista GQ. Disse que não queria fama nem dinheiro, apenas ser deixado em paz. A motivação para se revelar, segundo ele, é que desde que a revista Wired e o site Gizmodo o apontaram como possível Nakamoto, em dezembro, a fama começou a afetar sua família e as pessoas que trabalham com ele. Pela BBC, mandou o recado de que não estava interessado em prêmio Nobel nem em medalha de matemática. (Soa como delírio de grandeza, especialmente se tudo não passar de enganação, mas sim, o trabalho de Nakamoto é digno dos mais altos galardões.)

Wright pode ou não ser Nakamoto: as provas que apresentou não são contundentes, segundo a Economist; o especialista em segurança virtual Dan Kaminsky concluiu que se tratava de uma trapaça; o programador Patrick McKenzie publicou uma análise em que afirma que não há no post de Wright nenhuma informação não pública sobre Satoshi. Por outro lado, Andresen, que trocou mensagens com Satoshi desde o início do Bitcoin, encontrou Wright em Londres e disse ter se convencido de que ele é realmente o criador do código que deu origem à moeda, tanto por seu estilo de falar quanto por uma prova que lhe apresentou em pessoa: inseriu um código num dos primeiros blocos de transações do Bitcoin, algo que requer uma chave de decodificação que só Nakamoto teria. “Durante nosso encontro, eu vi uma pessoa brilhante, cheia de opiniões, focada, generosa e ciosa de sua privacidade, que bate com o Satoshi com quem trabalhei há seis anos”, escreveu Andresen em seu blog. “Estou muito feliz de poder dizer que apertei sua mão e lhe agradeci por ter dado o Bitcoin ao mundo.”

Bitcoin, uma moeda limitada
Se fosse esta a grande contribuição de Nakamoto – dar o Bitcoin ao mundo – a discussão não mereceria ultrapassar as fronteiras nerds dos núcleos envolvidos com a moeda. Como meio de pagamento, o Bitcoin tem um sucesso relativo e perspectivas limitadas. Nasceu entre entusiastas, valendo centavos, e hoje sua cotação está por volta dos 450 dólares. Mas é de uma volatilidade assustadora: foi a moeda que mais se valorizou em 2015 no mundo – e a que mais se desvalorizou em 2014.

Sua capacidade técnica para rivalizar com o sistema tradicional também é restrita. A cada segundo, são feitas sete transações com Bitcoins no mundo. Para efeito de comparação, o sistema de cartões da Visa realiza quase 2.000 transações por segundo nos Estados Unidos – e tem condições técnicas para realizar 56.000.

Por não depender de autoridade central e garantir o anonimato de quem faz as transações, o Bitcoin se tornou um mecanismo para quem quer permanecer oculto: traficantes de drogas e terroristas, mas também uns tantos idealistas que não gostam do poder dos bancos e gente que quer se livrar da burocracia estatal ou não pagar impostos. Sem falar nos especuladores, dada a volatilidade da moeda.

Bitcoin, uma tecnologia disruptiva
Por tudo isso, é pouco provável que o Bitcoin deixe de ser uma moeda de nicho e se torne um concorrente viável das moedas tradicionais. Isso não quer dizer, porém, que ele não vá conquistar o mundo. Vai. Não como moeda, e sim como tecnologia.

É aí que entra a invenção de Nakamoto.Em 2009, logo depois do seu artigo, ele escreveu as primeiras linhas de programação do que seria o mercado de bitcoins. Basicamente, criou um sistema seguro para transações anônimas sem controle de uma autoridade central.

A chave está na palavra “seguro”. O problema das transações virtuais era garantir que o dinheiro eletrônico pudesse trocar de mãos sem ser desviado para a conta errada e sem permitir que ele fosse usado duas vezes pela mesma pessoa. Normalmente, esse controle é feito por um banco, que verifica os saldos e as quantias envolvidas no negócio.

Para fazer isso sem uma vigilância central, Nakamoto inventou o blockchain (cadeia de blocos). Cada bloco é formado por um certo número de transações (cerca de 1.400, hoje). Quando este bloco chega ao tamanho de 1 MB (megabyte), ele é “fechado” com criptografia. Essa criptografia gera um problema matemático, que só pode ser solucionado por tentativa e erro. Os computadores da comunidade rodam trilhões de possibilidades. Sim, trilhões. Eles são chamados de miners (mineiros), como nas corridas do ouro do início do século 20. Quando um deles consegue resolver o problema, os outros computadores verificam se a solução está correta (checar é um processo simples, depois que a chave foi descoberta).Qualquer um pode verificar as transações, sem necessidade de uma autoridade confiável. É transparência total, e ao mesmo tempo anonimato completo – só a identidade da transação e a quantia transferida são públicas.

Problemas e oportunidades
Essa receita esbarrou em alguns problemas. O processo de checagem é lento, cerca de dez minutos para a formação de um bloco. Com mais gente usando o Bitcoin, as transações ficam ainda mais lentas. E isso desestimula a adoção da moeda. Em março, o tempo médio para uma transação ser verificada chegou a 43 minutos.

No início do ano, um dos principais desenvolvedores do Bitcoin, Mike Hearn, anunciou que vendeu todas as suas reservas porque “o sistema fracassou”. Um grupo de pesquisadores da Cornell University, no estado de Nova York, divulgou um estudo dizendo que o Bitcoin precisa de uma restruturação completa para aguentar uma rede maior de usuários. E Andresen, o cientista-chefe da Fundação Bitcoin, afirmou que a rede iria sofrer disfunções este ano, se não se remodelasse.

Ao largo dessa briga, está se formando uma indústria em torno do blockchain. Nakamoto construiu uma plataforma aberta – quer dizer, qualquer um pode usar o sistema (mais ou menos como qualquer um pode criar aplicativos que rodem no Android ou no Windows) sem permissão. E vários pesos pesados pularam no barco.

Segundo um relatório da consultoria Accenture, essa tecnologia tem o potencial de ajudar a minimizar riscos de negociação, reduzir o tempo para acordo, melhorar a eficiência dos contratos, elevar a transparência. A empresa de pesquisas Forrester calcula que essa tecnologia esteja largamente empregada pelos bancos em uma década.

A Microsoft já lançou um serviço, o Ethereum, para rodar o blockchain na sua nuvem. Em abril, fechou acordo com mais de 30 bancos, incluindo o JPMorgan e o Citi, para desenvolver blockchains. A Fundação Linux tem um projeto de hiperlivro-razão, o Hyper Ledger Project, com IBM, ABN-Amro, JPMorgan, VMWare, Wells Fargo, entre outros.

As aplicações não se resumem ao setor financeiro. IBM anunciou que vai abrir centros de desenvolvimento de blockchain em Londres, Nova York, Cingapura e Tóquio. A ideia é estudar aplicações em finanças, claro, mas também em qualquer atividade que envolva permissões para fazer algo ou exija manejo de informações.

Imagine que você se envolveu em um acidente de carro. Em vez de fazer um boletim de ocorrência, pode colocar os dados no blockchain, numa negociação com a outra parte envolvida. Em empresas, o blockchain pode gerenciar as interações entre os vários departamentos, ou as relações com fornecedores, sem necessidade de um arquivo com controle centralizado.

Especialistas imaginam usos para a tecnologia em programas de fidelidade, gerenciamento de fichas médicas de pacientes, informações de inspeções sanitárias, controle de pagamento de direitos autorais, transparência em contas de campanha, certificados de cursos. Na área de seguros, pequenos objetos não costumam ser protegidos porque dá muito trabalho confirmar sua procedência, seu estado – um blockchain poderia cumprir essa função sem dispêndio com verificações, abrindo um enorme mercado.

A lista é enorme e inclui até a “internet das coisas”, a comunicação entre aparelhos – porque o blockchain resolve problemas de bases de dados incompatíveis (imagine uma série de aparelhos de casa como a lava-louças, a lava-roupas e o robô-aspirador que “negociam” entre si a prioridade de funcionar, de acordo com os horários mais convenientes e o custo da eletricidade).

Tudo isso terá sido feito com base nas linhas de código elaboradas e aprofundadas por muita gente, mas iniciadas por aquele estudo e pelas primeiras versões de programas de Satoshi Nakamoto.

(David Cohen)