Bilhões de empreendedores

A emergência do continente asiático é a principal novidade deste século - e ela irá transformar por completo a dinâmica da economia mundial

Ao longo da história, algumas sociedades conseguiram realizar uma proeza transformadora ao liberar a energia empreendedora de suas populações. E deram saltos em termos de desenvolvimento. A enorme disparidade na distribuição da riqueza que se observa hoje no mundo leva muita gente a acreditar que o talento também é desigualmente repartido, mas trata-se de uma falácia. Creio fortemente que todos os povos têm uma parcela semelhante de empreendedores, mas algumas sociedades permitem que eles floresçam e se desenvolvam, enquanto outras os restringem. A revolução em curso na Ásia é a migração de um estado a outro. Barreiras artificiais na economia estão sendo removidas. E a recompensa tem sido um enorme crescimento econômico.

Foi essa percepção que me levou a escrever o livro Bilhões de Empreendedores, que descreve o que é, segundo o meu entendimento, o elemento principal da história de sucesso dos novos pesos pesados da economia, China e Índia. Quando se tem isso em mente, parece claro que a crise atual não será capaz de tirar os dois países de sua rota. É provável que haja uma desaceleração do crescimento, embora de forma bem menos severa do que no Ocidente. Mas nada mudou estruturalmente na economia asiática desde a eclosão da crise financeira. Curiosamente, as regiões menos desenvolvidas do continente estão agora até mais defendidas da crise nos mercados globais.

China e Índia partilham alguns elementos comuns, a começar do mais óbvio, uma enorme massa populacional. Ambos foram dominados por forças externas. E também têm em comum uma infinidade de desafios a lidar, seja na geração de oportunidades para um contingente de centenas de milhões de camponeses pobres, seja no enfrentamento de problemas ligados à saúde e à educação. Mas é muito interessante observar a forma distinta como as duas nações buscam enfrentar essas questões. O approach chinês é baseado em uma mão estatal muito forte. Não estou defendendo o monopólio político do governo chinês, mas apenas constatando que ele tem sido capaz de administrar o país como uma eficiente máquina econômica. É quase como uma empresa.Diferentes oficiais operam quase como gerentes de uma grande corporação, recebendo ordens superiores e cumprindo suas metas. Assim como temos empresas bem administradas, em que executivos têm os incentivos apropriados para criar riqueza econômica, algo semelhante ocorre com o poder público chinês. Também é curioso o equilíbrio entre política e economia. Politicamente, a China é muito centralizada e está sob forte controle de Pequim. Entretanto, há bastante descentralização econômica, e isso tem sido combustível para muito desenvolvimento.

Já na Índia, o governo é tão mal administrado que não consegue prover a estrutura para dar às pessoas os incentivos apropriados. Felizmente, o que se observa ultimamente é que há muita atividade independente, e as pessoas estão exercitando as próprias formas de fazer coisas novas, produtivas e animadoras – gerando assim atividade econômica e mudança social. Ou seja, pelo menos o governo não está impedindo esse movimento. Não deixa de ser um enorme avanço, já que antigamente as autoridades tendiam a reprimir qualquer atividade empreendedora.

Tensões e cooperação

Decorre que os desafios à frente também são diferentes nos dois casos. O principal desafio na Índia está na esfera da governança pública. Seria necessária uma reforma do Estado para torná-lo muito mais eficiente, para que possa participar com o setor privado, ajudando no processo de desenvolvimento. Em textos recentes, tenho argumentado que talvez o setor privado deva servir como catalisador e ajudar a melhorar o setor público. E isso só pode acontecer se prestarmos atenção à governança do setor público. Será necessário que haja uma pressão da população, exigindo reformas, cobrando transparência etc. Governança pública é o maior desafio. Com ela, poderemos assistir a uma melhoria efetiva em saúde, educação, saneamento, infra-estrutura e nos outros inúmeros problemas que a Índia tem.

Na China, a grande questão será a inclusão política. Conforme o país se desenvolve, são notadas diversas vozes expressando opiniões sobre quais devem ser os próximos passos. E algumas dessas opiniões não são sempre iguais às do Partido Comunista. Estão todos agora analisando como o partido lida com essa divergência de opiniões. Conseguir fazer isso de forma razoável será o grande desafio à frente. O sucesso até aqui do Partido Comunista chinês na condução da economia tem levado alguns analistas a sugerir que a democracia é causa das dificuldades indianas. Indiretamente, o que sugerem é que democracias podem ser problemáticas para países que buscam sair do subdesenvolvimento.

Não acho razoável essa posição. Mesmo conhecendo todos os problemas da Índia, acho difícil conceber uma alternativa ao sistema democrático. Ao contrário, parece-me que a única alternativa verdadeira seja fortalecê-lo. Embora a Índia mereça crédito por manter-se democrática há tanto tempo, a verdade é que muitos indianos ainda não podem efetivamente participar do processo político. Se as pessoas que estão sofrendo com a falta de saúde, educação e água pudessem realmente expressar sua opinião, o setor público teria de responder a elas. Não estão agindo assim porque, de alguma forma, essas vozes não conseguem se fazer ouvir. Elas não têm a informação necessária,nem meios para conseguir isso, de modo que avanços nessa questão só virão com mais, e não com menos, democracia.

Uma pergunta recorrente é se a Índia poderá repetir o milagre econômico chinês. Para mim, a resposta é nitidamente positiva. Os indianos começaram sua emergência econômica com um atraso de mais de uma década em relação à China. Desde então, vemos taxas de crescimento que começam a se aproximar. Creio que a Índia atingirá o mesmo patamar. Mas isso significa dizer que os caminhos serão semelhantes? Acho que a resposta é não. Pois há muitas diferenças entre os dois. Vamos olhar as economias. Por um lado, as corporações indianas são mais impressionantes que as chinesas. Por outro lado, a China teve mais sucesso em permitir às gigantes globais operar em seu território – companhias como Motorola, GE,  Nokia, Procter & Gamble, dentre tantas outras. A Índia tornou isso mais difícil. De todo modo, acho que veremos daqui em diante muito mais atividade econômica entre China e Índia. Embora haja tensões políticas entre os dois países, haverá mais cooperação com o passar do tempo. As duas economias são também muito complementares e não há razão para que isso não se realize, porque foram raros os conflitos entre os dois países por questões econômicas ao longo da história.

Nesse sentido, podemos pensar no século 21 como um século asiático. Pois a Ásia definitivamente terá um papel bem mais relevante do que no passado, tanto em termos sociais e políticos quanto econômicos. Não quero com isso dizer que China e Índia vão necessariamente suplantar outras potências econômicas. O que vejo é uma maior paridade entre diferentes partes do mundo – as Américas, a Europa e a Ásia. Trata-se de uma democratização da força econômica. De um mundo unipolar, estamos migrando para uma situação em que há vários centros de força econômica. Não vejo razão para o Brasil não ter um papel comparável ao de Índia ou China, especialmente por ser um centro de gravidade em um setor muito importante para o mundo, em torno do agronegócio. Se pensarmos um pouco no estereótipo das diferentes nações emergentes, a China vem se tornando conhecida por sua produção, a Índia por sua economia de serviços urbanos, e o Brasil por sua fantástica vantagem natural na agricultura e, de uma forma mais geral, no agronegócio. E o fato de os países terem economias diferentes abre perspectivas de negócios nos anos à frente.

Parece-me que há uma ligação potencial muito interessante entre o Brasil, a China e a Índia. Antes, tudo tinha necessariamente de passar por Nova York ou Londres. Agora, empresas brasileiras operam na China, empresas indianas vêm ao Brasil, empresas chinesas buscam a Índia, e assim por diante. Já há cada vez mais atividade econômica bilateral Sul-Sul. Ninguém deve temer o novo mundo. Pois tratase de um desenvolvimento positivo para todos, não apenas para indianos e chineses. Devemos celebrar a emergência de múltiplos pólos econômicos, porque com isso o vôo da economia mundial não tem mais de depender apenas do motor americano. Ao longo do século 21, veremos mais e mais nações participando da economia global – e nela os gigantes asiáticos emergentes certamente terão um lugar de honra.

*Tarun Khanna ocupa a cátedra Jorge Paulo Lemann da Harvard Business School e é autor do livro Bilhões de Empreendedores