Bento XVI fala de Paulo II em entrevista após renúncia

"Papa João Paulo II era um santo", disse Joseph Ratzinger na primeira entrevista que concedeu após renúncia para um livro sobre o pontífice polonês

Roma – Para o papa emérito Bento XVI, João Paulo II era um santo e cada dia que passava junto a Karol Wojtyla ele tinha mais certeza disso, disse Joseph Ratzinger na primeira entrevista que concedeu após a renúncia há um ano e que faz parte de um livro sobre o pontífice polonês.

O jornalista vaticanista polonês Wlodzimierz Redzioch, da agência de notícias “Zenit”, é o autor de um livro que será publicado em breve na Itália, intitulado “Ao lado de João Paulo II – Amigos e Colaboradores falam”.

A publicação reúne 21 entrevistas com pessoas próximas a Karol Wojtyla por ocasião de sua canonização em 27 de abril.

A primeira entrevista é justamente a de Joseph Ratzinger, que em alguns trechos da conversa publicados nesta quarta-feira pelo jornal “Il Corriere della Sera”, reconhece que “João Paulo II era um santo, durante os anos de colaboração com ele, se tornava cada vez mais e mais claro para mim”.

“Se doou com uma radicalidade que não pode ser explicado de outro modo. (…) Seu empenho era incansável, e não apenas nas grandes viagens, cujos programas eram cheios de eventos do início ao fim, mas também no dia a dia, desde a missa matutina até tarde da noite”, descreveu Ratzinger.

Os dois se conheceram no conclave que elegeu João Paulo I. Depois disso, Bento XVI sentiu uma grande veneração e simpatia por João Paulo II. Tratava-se de um imediato fascínio humano com o poder que ele exalava.

“João Paulo II não pedia aplausos, nunca olhava ao redor preocupado sobre como suas decisões seriam aceitas. Ele atuou a partir de sua fé e suas convicções, e estava preparado também para sofrer ataques. A coragem da verdade está em meus olhos um critério de primeira ordem da santidade”, disse o papa emérito.

O papa alemão lembrou a total dedicação de João Paulo II. Um exemplo disso foi um momento durante a primeira visita que fez à Alemanha, em 1980, e que Ratzinger o encontrou em uma pausa para o almoço mais longa que a habitual.

“Durante esse intervalo, ele me chamou em seu quarto. Encontrei-o rezando o breviário e disse: “Santo Padre, você deve descansar”, e ele disse: “Eu só posso fazer isso no céu”.

“Eu não podia e sabia que não deveria tentar imitá-lo, mas eu tentei continuar o seu legado e seu trabalho melhor do que podia. E assim, tenho certeza de que ainda hoje a sua bondade está comigo e a sua bênção me protege.”

Sobre a relação que começou quando ele se tornou prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé em 1981, Ratzinger explica a parceria com João Paulo II sempre esteve caracterizada por amizade e afeto.

“Eu aceito o trabalho, bem consciente da gravidade da tarefa, mas também sei que a obediência ao papa agora exigia de mim um “sim”. Foram anos ocupados pela Igreja, comprometida com os desafios prementes da doutrina, em tudo o que a teologia da libertação que estava se espalhando na América Latina. Foi um erro colocá-lo na convicção de que não havia na Europa, que era uma maneira de ajudar os pobres.”