Bancos centrais e EUA criam interdependência prejudicial

Países asiáticos compram cada vez mais títulos em dólar para evitar uma desvalorização que comprometa a competitividade de suas exportações. Com isso, alimentam o déficit americano

Os Estados Unidos e os bancos centrais sobretudo os asiáticos envolveram-se numa relação perigosa para todos, de acordo com o Banco Mundial (Bird) e do Fundo Monetário Internacional (FMI). A origem dessa interdependência, segundo os organismos internacionais, é a irresponsabilidade fiscal dos americanos, que emitem cada vez mais títulos para financiar sua dívida pública.

Somente no ano passado, o déficit orçamentário dos Estados Unidos, inflado pelos gastos com as guerras no Iraque e no Afeganistão, atingiu 412 bilhões de dólares o equivalente a 3,6% do Produto Interno Bruto (PIB). Para este ano, projeta-se uma pequena queda para algo em torno de 3% do PIB ou 365 bilhões de dólares.

Segundo a revista britânica The Economist, para reequilibrar as contas, a saída natural dos Estados Unidos seria uma desvalorização do dólar, capaz de conter as importações e de aumentar a atratividade de seus produtos no mercado externo, elevando as exportações. Mas os demais países, principalmente os bancos centrais da Ásia, tentam de todas as formas adiar essa mudança do câmbio, por temerem que suas exportações para o mercado americano sejam prejudicadas.

A estratégia asiática é aplicar as reservas em dólar que obtêm por meio das exportações em títulos americanos. Com isso, conseguem manter a taxa de câmbio a seu favor. Mas o ponto negativo dessa manobra é a crescente interdependência entre americanos e asiáticos. Quanto mais a Ásia investe em papéis dos Estados Unidos, mais o governo Bush protela o necessário ajuste fiscal que reequilibraria seu orçamento, de acordo com o Bird e o FMI, porque continua contando com as fontes externas de recursos.

O problema, segundo a revista The Economist, é que esta situação é insustentável no longo prazo. Quanto maior a demora americana em desvalorizar o dólar, mais forte será o impacto sobre as economias de todo o mundo, pois a necessidade de um ajuste mais agudo cresce com o tempo. Atualmente, 70% das reservas internacionais dos países estão em dólar.