Bachelet visita uma Venezuela devastada pela crise

Durante sua estadia, a alta comissária se reunirá com o presidente Nicolás Maduro e com o opositor Juan Guaidó

A Alta Comissária da ONU para os Direitos Humanos, Michelle Bachelet, se reuniu nesta quarta-feira (19), com chanceler da Venezuela, Jorge Arreaza, no início de uma visita a este país devastado pela crise política e econômica.

Bachelet foi recebida por Arreaza na Casa Amarela, sede do ministério das Relações Exteriores em Caracas, em meio a uma apresentação de músicos locais, e não falou com a imprensa.

“Esperamos que (a visita) seja para ajudar, ouvir recomendações, propostas de alto nível profissional (…), para que Venezuela melhore”, disse o presidente Nicolás Maduro num depoimento exibido na televisão.

Durante sua estadia, a alta comissária se reunirá com o presidente Nicolás Maduro e com o opositor Juan Guaidó, autoproclamado presidente interino reconhecido no cargo por meia centena de países. A agenda completa de Bachelet no país ainda não foi divulgada.

A diplomata chegou à Venezuela a convite de Maduro, sob cujo governo – iniciado em 2013 – a ex-potência petroleira mergulhou na pior recessão de sua história moderna.

Segundo a ONU, desde 2015 quatro milhões de venezuelanos deixaram o país por causa da crise, marcada pela escassez de itens de primeira necessidade, uma hiperinflação que o FMI projeta em 10.000.000% para 2019, o colapso do sistema de saúde e falhas nos serviços públicos.

A visitante não fugirá da queda de braço entre Maduro e Guaidó, líder do Parlamento, que se autoproclamou presidente interino há cinco meses.

Maduro reivindica que Bachelet se aproxime dele, enquanto Guaidó, que disse que se reunirá com a comissária na sexta-feira, afirma que sua presença é um “reconhecimento da catástrofe” que vive o país com as maiores reservas petroleiras do mundo.

Bachelet também tem previsto se encontrar com “vítimas de abusos e violações dos direitos humanos”.

Por ocasião de sua visita, ONGs convocaram mobilizações para a sexta-feira para denunciar a situação. “Vamos às ruas na sexta-feira”, disse Guaidó nesta quarta.

A visita poderia “dar mais visibilidade à crise” e motivar a União Europeia a “aumentar a pressão” contra Maduro, disse à AFP o internacionalista Mariano de Alba.

País em estado crítico

A ex-presidente chilena chega a um país cuja economia encolheu à metade entre 2013 e 2018, e onde a produção de petróleo perdeu dois milhões de barris diários na última década, segundo cifras oficiais.

Uma situação que levou um quarto da população, o equivalente a sete milhões de pessoas, a precisar de ajuda urgente, segundo um relatório da ONU.

Estima-se que 22% dos menores de cinco anos sofram desnutrição crônica e 300.000 pacientes estejam em risco por falta de tratamentos e medicamentos, acrescenta este estudo.

“Estamos pedindo a Michelle Bachelet que veja o que está acontecendo no nosso país. (…) Não é uma mentira”, disse Pedro Amado, porta-voz de um grupo de ex-petroleiros em greve há três semanas para reivindicar o recebimento de seu pagamento.

Bachelet, que prepara um relatório sobre a Venezuela, denunciou a “criminalização do protesto”.

No começo deste ano, por ocasião de manifestações, ela fez denúncias sobre “o uso excessivo da força, os assassinatos, as prisões arbitrárias e torturas” por parte de organismos de segurança.

Parentes de presos políticos (693, segundo a ONG Fórum Penal) pedem que ela interceda por sua liberdade. Maduro nega a existência de “presos políticos”.

Na segunda-feira, o deputado opositor Gilber Caro foi libertado após cerca de dois meses de prisão, mas outro colega está preso e 14 refugiados em embaixadas ou na clandestinidade por apoiar uma fracassada tentativa de golpe militar contra Maduro, liderado por Guaidó, em 30 de abril.

Medo de sanções

A Alta Comissária é crítica às sanções de Donald Trump para asfixiar Maduro, apoiado pelos militares, Rússia e China.

Teme que a proibição de comercializar petróleo venezuelano nos Estados Unidos repercuta nos “direitos básicos e no bem-estar da população” em um país onde o petróleo financia 96% do orçamento.

Maduro afirma que o bloqueio dificulta a importação de alimentos, remédios e insumos hospitalares, e em abril autorizou a entrada de ajuda da Cruz Vermelha.

Bachelet “ratificará seu ceticismo ante as sanções, mas também refletirá situações que vão deixar Maduro em uma posição pior”, estima De Alba.

Tudo sobre a crise na Venezuela