Assad promete reformas se ‘caos’ chegar ao fim

No entanto, novas manifestações foram registradas logo depois do discurso do presidente sírio

Damasco – O presidente sírio Bashar al-Assad rejeitou nesta segunda-feira a realização de reformas em meio ao “caos”, embora tenha se dito aberto ao “diálogo”, mas novas manifestações foram registradas logo depois de seu discurso após três meses de protestos que desafiam uma brutal repressão.

“Pode-se dizer que o diálogo nacional é o lema da próxima etapa”, disse Assad em um discurso na Universidade de Damasco, transmitido pela televisão estatal, após três meses de distúrbios.

O mandatário admitiu inclusive que esse “diálogo” pode levar à supressão do artigo 8 da Constituição que assegura a supremacia política do Partido Baath, detentor do poder na Síria desde 1963.

“O diálogo nacional pode gerar emendas à Constituição ou uma nova Constituição”, destacou o líder sírio que foi interrompido por aplausos em diversas oportunidades.

A revogação do artigo 8 é uma das principais reivindicações da oposição, que, no entanto, não deu sinais de abrandamento após esse novo pronunciamento público, o terceiro de Assad desde o início das passeatas da oposição em março.

Novos protestos eclodiram logo depois do discurso na cidade universitária de Alep (norte), nas localidades de Saraqeb e Kafar Nubl (noroeste) e em Homs (centro), indicou Rami Abdel Rahman, presidente do Observatório Sírio de Direitos Humanos, com sede em Londres.

Outros militantes dos Direitos Humanos indicaram manifestações em Hama (norte) e Latakia (noroeste).

Grupos opositores pediram à população que se junte à “rebelião”.


“Consideramos inútil qualquer diálogo que não consiga virar a página do regime atual”, reiteraram os Comitês Locais de Coordenação, uma ONG síria que organiza as manifestações após o discurso de Assad.

Já o chefe de Estado afirmou que “há certamente uma conspiração” contra a Síria. “As conspirações são como micróbios que não podemos eliminar, mas devemos reforçar a nossa imunidade”.

Assad disse que nenhuma reforma poderá ser efetuada em um contexto de “sabotagem e caos”, advertindo que a economia síria está à beira do colapso.

“É preciso trabalhar para devolver confiança à economia síria porque existe um risco de desabamento”, declarou.

Ele se disse, entretanto, convencido de que esta “conspiração” ficará mais “resistente” e apresentou suas condolências às famílias dos “mártires” dos distúrbios e das manifestações.

“Fazemos uma distinção entre aqueles (que têm reivindicações legítimas” e os sabotadores que tentam se aproveitar da boa vontade do sírios para seus próprios fins”, proclamou.

“Os responsáveis pelo derramamento de sangue prestarão contas”, disse ele, no momento em que a repressão aos manifestantes alcança a marca de mais de 1.300 civis mortos, segundo as ONGs sírias.

“É dever do Estado perseguir os sabotadores, não há solução política para aqueles que pegaram em armas”, afirmou o presidente de 45 anos, que chegou ao poder em julho de 2000, um mês depois da morte de seu pai, o ex-presidente Hafez al-Assad.

Os Comitês Locais de Coordenação pediram em um comunicado que seja mantida “a revolução até a realização de todos os seus objetivos”, considerando que o discurso “consagra a crise”.

O defensor dos Direitos Humanos Anuar Bunni, que acaba de cumprir uma pena de cinco anos de prisão, considerou o discurso de Assad “decepcionante”. “Uma verdadeira solução política baseia-se em condições que não foram mencionadas, como a retirada do Exército das cidades e o respeito ao direito de manifestação pacífica”.

A posição do regime recebeu apoio da Rússia, que ameaçou vetar uma resolução patrocinada pelos países ocidentais contra a Síria nas Nações Unidas, por considerar que poderá servir de cobertura para uma ação militar.

Os países ocidentais examinam medidas concretas.

A União Europeia (UE) -que já aprovou duas séries de sanções contra Assad e seus assessores- estuda novas medidas, segundo um projeto de declaração dos ministros das Relações Exteriores reunidos em Luxemburgo.

O discurso de Assad coincidiu com a visita a Damasco do presidente da Cruz Vermelha internacional, Jakob Kellenberger, que pede acesso da organização às pessoas afetadas pela violência.