Assad combate “primavera” com punho de ferro

Assad só tem ouvidos para seus adeptos, que gritam: "Alá, Síria, Bashar e nada mais", e chama de "terroristas" os grupos opositores

O presidente da Síria, Bashar al Assad, cujo país vive uma guerra civil que já causou 70 mil mortes, luta a sangue e fogo contra uma primavera árabe que brotou em 2011 em Tunísia, Egito, Líbia e Iêmen, países agora imersos em processo de transição rumo à democracia.

Assad só tem ouvidos para seus adeptos, que gritam: “Alá, Síria, Bashar e nada mais”, e chama de “terroristas” os grupos opositores, cuja maior aliança, a Coalizão Nacional Síria (CNFROS), conseguiu que a Liga Árabe lhe reconheça oficialmente a representação do país quando formar um governo interino.

O presidente sírio fecha os olhos para as transições em outros países árabes, liderados por novos dirigentes cuja tarefa pendente é a de realizar processos eleitorais e reformas constitucionais que consolidem a essência da revolução.

Os dirigentes que ignoraram as reivindicações populares inscreveram seus nomes na página trágica da história como o ex-presidente egípcio Hosni Mubarak, que cumpre prisão perpétua; o tunisiano Zine el Abidine ben Ali, exilado na Arábia Saudita, e o líbio Muammar Kadafi, enterrado em um lugar desconhecido do deserto em seu país após sua captura e morte. Apenas o iemenita Ali Abdullah Saleh goza em seu país de imunidade, sob amparo de um acordo auspiciado pela ONU.

Pouco mais de dois anos depois da queda de Mubarak, em 11 de fevereiro de 2011, o Egito vive uma crise de segurança e política, enquanto se prepara para as eleições legislativas, que acabam de ser adiadas pela justiça.

Na Tunísia, pouco mais de dois anos depois da queda do presidente Ben Ali, os cinco partidos que integram a opositora Frente União pela Tunísia exigiram no último dia 5 ao presidente Moncef Marzouki a realização de um “Congresso de Salvação Nacional” para tirar o país da atual crise política e econômica.


O assassinato em 6 de fevereiro do ativista esquerdista Chukri Bel Aid e a renúncia no dia 19 do mesmo mês do primeiro-ministro, Hamadi Jabali, secretário-geral do Al Nahda -partido islamita que ganhou as eleições de 2011 – evidenciaram a necessidade de novas eleições.

Igualmente, a Líbia conduz sua própria transição, após a primavera que acabou em uma guerra civil na qual houve 25 mil mortes entre janeiro e 20 de outubro de 2011, e que concluiu com a queda de Kadafi.

A Líbia está politicamente estagnada desde as eleições de 6 de julho de 2012 – que geraram o Congresso Nacional Geral, que tomou o bastão do Conselho Nacional de Transição -, e o novo governo continua sendo incapaz de estender sua autoridade a todo o país.

Sinal disso foi o ataque armado ao consulado dos Estados Unidos em Benghazi, no dia 11 de setembro do ano passado, no qual morreram o embaixador americano, Christopher Stevens, e três funcionários.

Os novos dirigentes líbios têm que assumir a reconstrução das instituições do estado, o desarmamento das várias milícias e a redação de uma Constituição antes de realizar eleições.

O Iêmen, onde em 27 de fevereiro de 2012 o presidente Ali Abdullah Saleh cedeu o poder a seu vice-presidente, Abdo Rabbo Mansour Hadi, também deve dialogar com as forças políticas para redigir uma Constituição e realizar eleições presidenciais e legislativas em fevereiro de 2014.

No Bahrein, a reivindicação de reformas democráticas à monarquia do rei Hamad bin Issa al Khalifa (sunita, ao contrário da maioria da população, xiita) continua em aberto devido à repressão.


Na Jordânia, o rei Abdullah II inaugurou em 10 de fevereiro deste ano o novo parlamento, que saiu do pleito de 23 de janeiro, boicotado pelos principais grupos da oposição, liderados pela Irmandade Muçulmana.

Abdullah prometeu continuar o processo de reformas políticas, que foi contestado nas ruas em protestos inspiradas na Primavera Árabe.

Na Argélia, a Primavera viu o triunfo nas eleições de maio de 2012 da Frente de Libertação Nacional Argelina (FLN), de Abdelaziz Bouteflika, e a derrota dos islamitas.

O Marrocos impulsionou uma nova Constituição em 2011 que levou ao poder o islamita Partido Justiça e Desenvolvimento, de Abdelilah Benkiran, ganhador do pleito de 25 de novembro daquele ano.

Paradoxalmente, o Irã, um país muçulmano e que apoiou as revoluções em Tunísia, Egito, Líbia e Iêmen, além dos protestos em Bahrein e Jordânia, ignorou as da Síria e as suas próprias, que nasceram após as acusações da oposição de fraude nas eleições presidenciais de junho de 2009, nas quais Mahmoud Ahmadinejad foi reeleito.