As vítimas do conflito: o ponto espinhoso da paz com as Farc

O problema das centenas de milhares de vítimas é um dos cinco pontos da agenda que será debatida em Havana a partir de 15 de novembro

Bogotá – Dar uma resposta satisfatória às vítimas do conflito armado na Colômbia, o mais longo do continente – com quase meio século de duração – será um dos pontos mais complexos do processo de paz iniciado entre o governo e a guerrilha das Farc esta semana, na Noruega, consideram especialistas.

O problema das centenas de milhares de vítimas é um dos cinco pontos da agenda que será debatida em Havana a partir de 15 de novembro, e aflorou incomodamente nos discursos de instalação da mesa de diálogo.

“As Farc devem se explicar para as vítimas”, afirmou enfático o chefe da delegação governamental, o ex-vice-presidente Humberto de la Calle. “Não cometemos crimes contra o povo”, respondeu Iván Márquez, número dois das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, que lidera a equipe da guerrilha comunista.

Ao longo das últimas cinco décadas, o conflito interno colombiano envolvendo diversas guerrilhas de esquerda, grupos paramilitares de extrema direita, narcotraficantes e agentes do Estado deixou pelo menos 600.000 mortos, cerca de 15.000 desaparecidos e 3,7 milhões de pessoas deslocadas pela violência.

“É preciso ouvir a voz das vítimas, que são muitas. É preciso fazer todo o esforço possível para dar a elas a verdade e uma reparação. Cinquenta anos de violência não é uma coisa qualquer”, disse à AFP Luis Eduardo Celis, da Corporação Nuevo Arco Iris, que estuda o tema.

“Mas é necessário encontrar um equilíbrio que permita acabar com o conflito. O processo de paz não pode ser conduzido somente com base nos interesses da vítimas, mas também nos interesses das sociedade”, ressaltou este especialista.


O parlamentar de esquerda e defensor dos direitos humanos Iván Cepeda afirmou que a instalação da mesa de negociações “suscita otimismo e entusiasmo”, embora tenha reconhecido que os discursos dos delegados mostram “o quão difícil será este caminho”.

“Nestes 50 anos, tanto as guerrilhas como o Estado cometeram crimes de lesa Humanidade. Nem o Estado pode lavar as mãos, nem as Farc. A voz das vítimas será essencial para o processo. Creio que com paciência e perseverança podemos chegar a isso”, disse à AFP este congressista, que teve o pai assassinado em 1994.

Até o ano passado, a unidade de direitos humanos da Procuradoria havia aberto investigações por mais 1.500 casos relacionados com homicídios cometidos supostamente por agentes do Estado.

Entre essas vítimas estão os casos conhecidos como “falsos positivos”, civis assassinados por militares que os fizeram passar por guerrilheiros mortos em combate, com o objetivo de obter recompensas de superiores.

“Os militares estão preocupados com o que possa acontecer com eles. Se perguntam se eles serão os únicos a receber penas máximas de prisão de 40 anos”, disse Celis.

Antes do início do processo de paz, o Congresso já havia assentado as bases para eventualmente permitir que os guerrilheiros que abandonarem a luta armada sejam beneficiados com mecanismos como a redução ou a suspensão de penas.

Sigifredo López, ex-deputado regional mantido em poder das Farc entre 2002 e 2009, afirmou que “a paz não pode ser conquistada de costas para as vítimas, que são as únicas que podem perdoar”.


“Estamos dispostos a perdoar, mas deve ser formada uma comissão da verdade para todas as vítimas de todos os grupos armados e dos agentes do Estado”, disse López à AFP.

A questão do sequestro talvez seja um dos temas que mais marquem a sociedade colombiana.

Celis afirma que nos últimos 20 anos, as Farc cometeram milhares de sequestros de maneira sistemática. “Este é um crime de lesa Humanidade, e alguém terá que pagar por ele, mas não podem ser todos os guerrilheiros porque, se for assim, com que motivação irão para a mesa de diálogo?”, disse.

Ismael Márquez, presidente da associação civil Los que Faltan e que tem um filho desaparecido depois de ter sido supostamente sequestrado pelas Farc em 1999, disse que se sente “totalmente desamparado e marginalizado”.

“Inúmeros familiares de todo o país vêm clamando e insistindo que querem saber o que aconteceu com seus entes queridos. Se morreram no cativeiro, devem informar o que aconteceu”, disse Márquez à AFP.