As eleições que prometem abalar o mundo em 2019

Em 2019, vários países entrarão em novos ciclos políticos cujos resultados trarão impactos para o desenho geopolítico global. Veja alguns deles

São Paulo – O ano de 2019 promete ser de turbulências políticas mundo afora. O clima entre China e Estados Unidos, que se engalfinharam em 2018 em uma guerra comercial, continuará sendo monitorado e a União Europeia enfrentará novos desafios com a saída do Reino Unido e a polarização cada vez maior das forças políticas em seus estados-membros.

E é nesse contexto que vários países entrarão em novos ciclos políticos, com a realização de eleições, referendos ou o início de corridas presidenciais. Eventos cujos resultados trarão impactos para o desenho geopolítico global. Confira abaixo algumas das disputas mais importantes que acontecem no ano que vem:

1) Parlamento Europeu

Data: Entre 23 e 26 de maio

Os milhões de cidadãos da União Europeia irão escolher a nova composição do Parlamento Europeu, o principal braço político e decisório do bloco, para a legislatura 2019-2024. A eleição acontece a cada cinco anos e cada um dos 27 países-membros escolherá um número fixo de deputados, totalizando 705 representantes, número que já reflete a saída do Reino Unido, marcada para acontecer em 29 de março.

O pleito acontece em um momento delicado para os europeus. Além de enfrentar o divórcio com os britânicos, a União Europeia enfrenta uma divisão crescente entre os estados-membros na questão migratória e observa a ascensão de governos populistas de direita, cada vez céticos em relação aos benefícios de fazer parte do bloco.

Essas forças políticas prometem trazer grandes novidades para a composição do Parlamento. Se antes a maioria dos deputados europeus era de partidos de centro, à direita ou à esquerda, a expectativa é de uma polarização maior entre polos radicais e diametralmente opostos no espectro ideológico.

Para os analistas Stefan Lehne e Heather Grabbe, do centro de pesquisas Carnegie Endowment for International Peace, a próxima eleição do Parlamento Europeu poderá reequilibrar as forças na casa. “Mas se os partidos populistas ganharem poder o suficiente para bloquear decisões cruciais, outros terão de se juntar para manter a UE em pleno funcionamento. Se não isso não acontecer, o Parlamento poderá ser contornado por acordos entre os próprios governos”. E isso pode ameaçar a integridade do bloco.

2) Estados Unidos

Data: 2020

A eleição presidencial americana acontece apenas em 2020. Contudo, a partir do ano que vem os dois principais partidos, o Democrata e o Republicano, começam a traçar suas estratégias para a disputa. Será em 2019 que o mundo começará a conhecer os nomes que irão disputar as primárias e que eventualmente podem se tornar os candidatos que efetivamente disputarão a Presidência dos EUA em novembro do ano seguinte.

Do lado Republicano, é quase certo que Trump estará no rol de candidatos, uma vez que deve buscar a sua reeleição. O cenário para o atual mandatário, entretanto, promete ser turbulento, já que enfrentará uma Câmara dos Representantes de maioria democrata e observará o desenrolar das investigações sobre sua campanha presidencial em 2016. Nesse contexto, há dúvidas sobre se Trump estará sozinho na corrida republicana ou se veremos outros nomes dispostos a desafiá-lo.

Já entre os Democratas, a situação é menos clara, já que não se sabe, ainda, quem despontará como um candidato plausível a ser nomeado para disputar a Casa Branca. Depois da derrota de Hillary Clinton para Trump em 2016, o partido se viu em crise, sem nomes evidentes e fortes que podem ser o sucessor ou sucessora de Clinton nesse posto em 2020. A lista de possíveis candidatos, hoje, é imensa, mas deve começar a afunilar no ano que vem.

3) Argentina

Data: outubro 

Oficialmente em recessão, a Argentina chegará em 2019 se preparando para uma nova eleição presidencial em outubro após um ano de caos econômico, no qual o atual presidente Mauricio Macri correu atrás de um resgate do Fundo Monetário Internacional e observou protestos violentos contra o plano de austeridade.

Assim como em outras disputas mundo afora, o pleito argentino sinaliza uma polarização entre os principais prováveis candidatos: Macri, que está na centro-direita e representa a coalizão Cambiemos, e Cristina Kirchner, ex-presidente da Argentina (2007-2014) e parte da coligação de esquerda Unidade Cidadã.

Eleito em 2014 após uma vitória estrondosa contra o candidato apoiado pela ex-presidente, Macri enfrentou em 2018 o ano mais difícil do seu mandato: o peso argentino desvalorizou 50% em relação ao dólar, o nível de pobreza chegou a 27,3% da população, o desemprego atingiu 9,6%. E é nesse cenário de fragilidade econômica que a Argentina verá a nova edição da disputa entre a centro-direita e o kirchnerismo.

4) Índia

Data: Abril ou maio 

A maior eleição geral do planeta também está marcada para acontecer em 2019, quando 900 milhões de indianos irão às urnas para escolher os novos membros do Parlamento que, por sua vez, irão determinar o nome que servirá como primeiro-ministro.

O atual ocupante desse posto, Narendra Modi, está na disputa pela reeleição, mas ainda é cedo para cravar uma vitória. Seu partido, Bharatiya Janata Party (BJP), vem sofrendo derrotas significativas em eleições regionais ante o rival Partido do Congresso, que dominou a cena política indiana por décadas até a chegada de Modi ao poder em 2014.

Na época, a vitória de Modi foi estrondosa e seu partido conquistou um número recorde de cadeiras no parlamento (275 das 543). A principal bandeira de campanha de Modi era a reforma da economia da Índia e gerar empregos para enorme força de trabalho jovem que chega ao mercado todos os anos no país (12 milhões de pessoas). Aqui, contudo, o primeiro-ministro fez poucos avanços e os índices de desemprego aumentaram ainda mais nos últimos cinco anos.

5) Bolívia

Data: Outubro 

Evo Morales chegou ao poder em 2006 e se consagrou vitorioso em outras duas eleições, sempre com vitórias expressivas ante seus rivais. Mais de dez anos depois, o primeiro presidente indígena da Bolívia busca seu quarto mandato, mas num cenário bem diferente dos anteriores: sua popularidade ruiu e a população está nas ruas, pronta para reagir a qualquer tentativa de Morales se manter no poder.

E ele bem que tentou. Em 2016, um referendo popular que visava alterar a constituição do país de modo a permitir que ele buscasse uma nova reeleição foi derrotado nas urnas, mas liberado após uma manobra do presidente e do Tribunal Constitucional.

A decisão foi alvo de protestos por todo o país em várias ocasiões e manifestações contra a sua candidatura voltaram a incendiar as ruas da Bolívia em dezembro. Apesar disso, a realidade é que Morales concorrerá ao pleito, que acontece em outubro de 2019. Do outro lado, o principal rival de Morales será o ex-presidente Carlos Mesa (2003-2005).

5) Cuba

Data: 24 de fevereiro

Embora Cuba não tenha uma eleição em 2019, o país realiza em 24 de fevereiro um referendo histórico para uma nova Constituição. E o dia não poderia ser mais simbólico para a ilha caribenha: a data marca os 124 anos do início da guerra da Independência, em 1895, e os 43 anos da promulgação da atual Constituição, de 1976.

São muitas as novidades que serão colocadas em pauta e, portanto, o processo do referendo deve durar semanas. Entre as novidades estão a eliminação do termo “sociedade comunista”, o reconhecimento da propriedade privada e a importância dos investimentos estrangeiros. Contudo, as mudanças não devem ser drásticas no sistema político do país, uma vez que o Partido Comunista Cubano continuará a se manter no poder, sem adversários.

No campo dos direitos civis, o governo havia primeiramente anunciado que submeteria à consulta popular sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo, em mais um sinal de que a ilha estaria buscando se modernizar. Após meses de debates com a sociedade, no entanto, houve um recuo depois de a maioria da população ter sido contrária ao novo texto, o conceito vigente de matrimônio, “entre um homem e uma mulher”, seria substituído por “entre duas pessoas”.

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6) Nigéria

Data: 16 de fevereiro

Na África, a eleição que irá dominar os holofotes será na Nigéria, um país que luta contra a corrupção, bem como contra conflitos armados e ameaças de grupos terroristas.

Desde o fim da ditadura militar em 1999, apenas dois partidos ocuparam a presidência: o Congresso de Todos os Progressistas (CTP), hoje no governo, e o Partido Democrático Popular (PDP). E, apesar de a disputa contar com mais de 30 candidatos, despontam como favoritos ao posto o atual presidente da Nigéria, Muhammadu Buhari (CTP), e Atiku Abubakar (PDP), que já foi vice-presidente.

E um dos temas mais importantes da corrida presidencial é a violência que assola o país em diferentes frentes. A Nigéria observa uma escalada na tensão entre pastores e fazendeiros, que estão em embate há cerca de três anos em razão de disputas religiosas e de terra. Neste período, quase 4 mil pessoas morreram nesses confrontos.

Além disso, o governo tenta a todo o custo fragilizar os terroristas do Boko Haram, que estão em atividade no estado de Borno. O grupo é um dos mais violentos em atividade hoje no mundo e o responsável pelo caso que ganhou atenção global, o sequestro o das garotas de Chibok, em 2014. Na ocasião seus militantes sequestraram quase 200 meninas em uma escola e o paradeiro de algumas delas é até hoje desconhecido.