As dúvidas sobre o futuro da relação entre México e EUA

As pesquisas apontam o candidato de esquerda Andrés Manuel López Obrador como favorito nas eleições presidenciais no México no próximo domingo

Andrés Manuel López Obrador, conhecido como AMLO, é favorito nas eleições presidenciais no México no próximo domingo, mas sua provável vitória abre muitas questões sobre o futuro relacionamento com os Estados Unidos.

Mais confronto

“A retórica de AMLO em relação aos Estados Unidos será mais conflituosa do que a do presidente cessante, Enrique Peña Nieto, que assumiu uma posição muito mais colaborativa com Washington”, aponta Katherine Pereira, diretora associada do centro sobre América Latina do Atlantic Council.

Michael Shifter, presidente do Diálogo Interamericano, outro centro de reflexão americano, concorda: “Espera-se que um governo AMLO seja menos complacente com as exigências do presidente Donald Trump e com suas declarações agressivas e insultuosas sobre o México e os mexicanos”.

“O relacionamento será menos suave”, sentencia Francisco González, especialista em América Latina na Universidade Johns Hopkins. Mas AMLO é “pragmático” e a possibilidade de ele tomar “decisões concretas” para se distanciar dos Estados Unidos “é muito remota”, acrescenta.

Nafta e imigração

O tom do relacionamento depende muito do que acontecerá com os dois principais eixos da agenda bilateral: o Acordo de Livre Comércio da América do Norte (Nafta), que a pedido de Trump ambos os países renegociam junto com o terceiro parceiro, Canadá, e a questão da imigração, apina Earl Anthony Wayne, ex-embaixador dos Estados Unidos no México e acadêmico no Wilson Center.

“Se um acordo sobre o Nafta for alcançado antes de 1º de dezembro, que é quando AMLO deve assumir, e se até lá a situação na fronteira for calma, haverá mais espaço para um relacionamento mais positivo”, acredita.

Os Estados Unidos são o principal parceiro comercial do México e AMLO já disse que apoia o Nafta.

Semelhanças

Uma faísca poderia inflamar um confronto entre Trump e AMLO? Talvez, mas a relação entre os Estados Unidos e o México vai além do estilo desses líderes, que neste caso são semelhantes.

“AMLO é muito mais parecido com Trump do que seu antecessor”, afirma Pereira, uma ideia que Wayne e Shifter compartilham.

Tanto AMLO como Trump “são nacionalistas que protestaram contra a ordem estabelecida e os partidos políticos tradicionais. Eles não estão interessados ​​em aprender detalhes das políticas. Já mostraram intolerância”, diz Shifter.

No entanto, assim como González, há uma diferença fundamental: AMLO, ex-prefeito da Cidade do México, é um político de raça, na corrida pela presidência pela terceira vez, enquanto Trump, um magnata do setor imobiliário com fama midiática, é uma novato nesses jogos.

De acordo com especialistas, duas questões dariam espaço para o entendimento AMLO-Trump, se a volatilidade da questão migratória não ofuscar o debate: ambos querem um aumento dos salários no México e ambos favorecem uma maior cooperação para lidar com as questões de segurança na América Central, combustível da migração.

México primeiro, Venezuela talvez

AMLO não diz “México primeiro”, mas seu discurso vai nessa direção: ele promete melhorar a economia, lutar contra a corrupção e combater a insegurança.

Levará a bandeira venezuelana, como Peña Nieto tem feito até agora, liderando o apelo regional por uma “restauração da democracia”, como Washington insiste?

“Eu não o vejo levantando-se para defender a democracia no nível internacional”, diz Pereira. “Ele vai se concentrar nas questões internas”, acredita.

“Espero que o México continue desempenhando um papel construtivo em relação à Venezuela, e muitos dos críticos de AMLO estão preocupados com isso. Quero dar a ele o benefício da dúvida”, conclui Wayne.

“Incerteza”

Em Washington, a ideia de AMLO presidente desperta suspeitas.

“Eles temem pelos investimentos americanos no México”, explica Gonzalez, descartando, no entanto, o medo: AMLO “sabe que a falta de confiança dos empresários afetaria fortemente a economia mexicana”.

“Para muitos, seu pedido de anistia para os traficantes há alguns meses foi bastante alarmante”, disse Shifter, para quem, embora o discurso de AMLO tenha moderado “notavelmente”, continua gerando “considerável incerteza”.

“O governo e o Congresso americano veem isso como uma ameaça porque até agora o PRI e o PAN, os partidos mexicanos tradicionais, jogavam dentro das regras, mas com AMLO ainda não se sabe exatamente o que será feito”, diz Pereira.

Seu anúncio de uma revisão dos contratos de energia, por exemplo, “é uma grande preocupação para os Estados Unidos”, acrescenta.