As ambições de Gary Cohn, o esteio econômico de Trump

Ex-presidente do Goldman Sachs, Gary Cohn quase deixou o governo Trump após o presidente defender supremacistas brancos. Ficou, de olho no Fed

O presidente americano, Donald Trump, colecionou críticas de todos os lados por sua dúbia e tíbia condenação dos supremacistas brancos que organizaram um protesto em Charlottesville, na Virgínia, há dez dias. Mas a crítica feita nesta sexta-feira 25, foi provavelmente a mais importante.

Ela veio de Gary Cohn, seu principal conselheiro econômico – e, para muitos, o principal nome de seu governo.

“Essa administração pode e deve fazer melhor em consistentemente e inequivocamente condenar esses grupos, e fazer tudo o que pudermos para curar as profundas divisões que existem em nossas comunidades”, disse ele ao jornal Financial Times.

Cohn afirmou que se sentiu compelido a “externar meu desgosto pelos eventos das últimas duas semanas”. Mesmo em se tratando de Trump – que não gosta nem um pouco de ser contrariado, que dirá contestado – a declaração de Cohn deve vir como um alívio: ao “externar seu desgosto”, ele sinaliza que vai permanecer no governo.

Não apenas permanecer, mas arregaçar as mangas com disposição. Na mesma entrevista ao Financial Times, ele afirmou que o presidente vai começar uma campanha pela reforma fiscal na semana que vem, com o intuito de aprovar a mudança nos impostos até o final do ano.

Esta é uma das grandes bandeiras de Trump, e um dos pontos que explicam a adesão de Cohn (que sempre teve simpatia pelos democratas) ao seu governo. Ex-presidente do banco de investimento Goldman Sachs, Cohn recebeu 285 milhões de dólares de remuneração total e bônus quando trocou Wall Street pelo governo Trump.

A saída de Cohn vinha sendo prevista ou pedida por dezenas de analistas políticos desde que Trump deixou de condenar explicitamente a multidão que entoava lemas racistas e anti-semitas. Um dos lemas era “nenhum judeu vai tomar nosso lugar”.

Cohn, que é judeu praticante e está num dos principais postos do governo, sentiu-se mal com a reação de Trump ao ataque, segundo diversos jornalistas que conversaram com amigos dele. Trump culpou “os dois lados” pela violência e depois disse que havia muita gente boa entre os supremacistas brancos.

Pior: suas declarações foram feitas durante uma conferência de imprensa sobre investimentos em infra-estrutura, quando estava ladeado por Cohn e Stephen Mnuchin, seu secretário do Tesouro, também judeu. Depois do comentário, Trump saiu da sala e deixou Cohn lá, tentando responder perguntas sobre o tema original da reunião.

Um dia depois, um jornalista do New York Times publicou que Cohn havia dito a três interlocutores que estava “preocupado” e “desgostoso” com o governo. Houve rumores de que ele estava para pegar o boné e ir embora, mas a demissão do conselheiro especial Steve Bannon, ultra-direitista e oponente do grupo “globalista” de Cohn e Jared Kushner (genro de Trump), o fez mudar de ideia.

Reputação, missão e ambição

“Sofri uma enorme pressão tanto para renunciar quanto para ficar no governo”, disse Cohn ao Financial Times. Um exemplo do tipo de pressão que Cohn sofreu veio do jornalista e comentarista William Cohan (nenhum parentesco), que escreveu na revista Vanity Fair: “Ele deveria renunciar (…) porque é a coisa certa a fazer ante a terrível reação de Trump aos eventos de Charlottesville. Ele deveria renunciar apesar da provável reação negativa dos mercados financeiros à saída de uma das únicas vozes parcialmente sãs nessa administração.”

Segundo outros analistas, Cohn deveria deixar o governo antes de manchar a reputação que construiu durante décadas, especialmente no banco de investimentos Goldman Sachs (do qual era presidente).

O outro lado da pressão vinha da responsabilidade. No intervalo de 45 minutos entre os rumores da saída de Cohn e o desmentido da Casa Branca, o índice Dow Jones caiu 0,5%, na semana passada.

Não é que todos acreditem que Cohn seja assim tão imprescindível. Scott Wren, um analista senior da Wells Fargo, diz que o mercado de ações vai cair até o final do ano, independentemente de Cohn ficar ou não no governo. Outros analistas afirmam que ninguém mais está muito otimista com a aprovação de reformas nos impostos, e o pessimismo já estaria precificado pelo mercado.

“A reforma fiscal provavelmente tem mais potencial para ser uma surpresa positiva do que uma surpresa negativa, considerando que as expectativas estão tão baixas”, disse Andrew Adams, estrategista da instituição financeira Raymond James.

Ainda assim, a maioria dos investidores considera Cohn um dos esteios para manter a credibilidade no governo. Jeffrey Sonnefeld, professor da Escola de Negócios de Yale, disse temer que sua saída provoque uma quebra dos mercados.

Com tão boas razões para ficar e para sair, a ambição pode ter pesado na (pelo menos até agora) decisão de permanecer. Segundo vários analistas, Cohn é o favorito na disputa pelo cargo de presidente do Federal Reserve (Fed), o banco central dos Estados Unidos.

Cohn foi apontado por Trump como chefe da comissão que busca um eventual substituto para Janet Yellen. E se dispôs a ele mesmo ocupar o cargo. Embora não seja um economista de formação, a experiência de Cohn em finanças o coloca à frente de praticamente todos os candidatos aprovados por Trump.

O presidente diz que ainda considera apontar a própria Janet Yellen para um segundo mandato. Mas as desavenças entre eles tornam a hipótese não muito provável. Nesta sexta-feira 25, Yellen fez um discurso em uma reunião de presidentes de bancos centrais estaduais, ministros de finanças e economistas, defendendo as regulações bancárias impostas após a eclosão da crise de 2008 – as mesmas que Trump considera que deveriam ser amenizadas ou revogadas.

Tornar-se presidente do Fed, para Cohn, seria uma solução dupla: estaria mais resguardado em relação aos estranhos humores de Trump, e continuaria a influenciar a adoção de políticas que considera as melhores para o país (na visão da direita, tirar obstáculos ao crescimento; na visão da esquerda, favorecer os ricos).

O caminho ideal para Cohn seria aprovar uma ampla reforma fiscal até o final do ano e – no exato prazo de seis meses até o fim do mandato de Yellen – ser apontado para o Fed.

Não é um caminho perfeito, mas ironicamente carrega um certo consenso: desagrada tanto aos que lhe cobram respeito à sua reputação e a valores humanistas como aos ultra-direitistas e aos racistas, que precisam engolir um globalista (e judeu) num posto que queriam para um dos seus.