Na Argentina, um candidato “fantasma” pode vencer Kirchner

Ex-presidente disputa uma vaga no Senado argentino pela província de Buenos Aires com Esteban Bullrich, do partido governista Cambiemos

Buenos Aires – A seis dias das eleições legislativas na Argentina, dois atos nesta segunda-feira (16) ilustraram a tônica das campanhas dos principais nomes que disputam o cargo de senador pela província de Buenos Aires: a da ex-presidente e candidata da oposição, Cristina Fernández de Kirchner, e a de Esteban Bullrich, da frente governista Cambiemos.

Enquanto Kirchner encerrou sua campanha com um discurso de 30 minutos diante de mais de 50.000 pessoas no estádio Presidente Perón, em Avellaneda, na província de Buenos Aires, Bullrich nem chegou a pegar no microfone no micro-estádio com capacidade para 3.000 pessoas no coração da capital federal, onde o Cambiemos encerrou sua campanha. Os protagonistas foram o presidente Mauricio Macri e a atual governadora da província, Maria Eugenia Vidal.

Os dois eventos resumem o que os eleitores de Buenos Aires, província considerada estratégica por conter 40% do eleitorado argentino, viram nos últimos meses de campanha. Por parte do partido Unidad Ciudadana, um culto quase exclusivo à imagem de Cristina, sua fundadora e principal candidata. Apesar de concorrer ao Senado, ela está em campanha para resgatar o Kirchnerismo e, se tudo der certo, para tentar voltar à presidência em 2019.

E por parte do governista Cambiemos, está em jogo muito mais do que uma vaga de senador que é pouco conhecido ex-ministro da educação. Macri e seus aliados querem mostrar poder político e barrar de uma vez por todas as pretensões da ex-presidente.

A força de Cristina

A reportagem de EXAME esteve no estádio do Racing, um dos principais times de futebol da Argentina, e viu de perto a força da imagem de Cristina junto a seus eleitores. Desde antes do meio dia, começaram a chegar ondas de kirchneristas com bottons, adesivos, camisetas, faixas e cartazes. “Cristina, te amo” e “Cristina o nada” eram algumas das frases preferidas. Por todos os lados, predominavam o azul celeste da bandeira Argentina, do partido de Kirchner, e do Racing.

Com baterias de torcida organizadas, fogos de artifício, fumaças azuis, música praticamente o tempo todo e um calor que fez várias pessoas passarem mal, o clima era de festa. Pouco antes de começarem as falas, por volta das 16h, as entradas da arena estavam lotadas de gente que lutava para conseguir chegar nas arquibancadas.

A estudante de gastronomia Dora Andrea, de 52 anos, foi ao ato sozinha, e chegou cedo para conseguir um lugar na grade da passarela, por onde passaria a ex-presidente, bem no meio do estádio. Com uma bandeira da Argentina ao redor do pescoço e um chapéu ilustrado com o rosto de Cristina, fez questão de declarar que não é filiada a nenhum partido, mas que viera pelo agradecimento que sente à ex-presidente.

“Os anos com Néstor e Cristina foram os melhores que eu vivi. Meu marido, que é pedreiro, sempre teve trabalho, tinha até o luxo de negar ofertas. Desde que assumiu esse governo tem sido impossível de conseguir trabalho. Por isso, eu sou agradecida a ela, eu a amo”, afirmou.

Abrigados do sol por um guarda-chuva colorido, Marta Carranza e seu marido, Pastor, os dois de 84 anos, compartilham do entusiasmo de Dora. O casal saiu de manhã cedo de San Isidro, no norte da província, para ver Cristina. “Depois de Perón e Evita, tudo foi ruim. Só quando veio a senhora, primeiro com seu marido [Néstor], que começamos a voltar para uma coisa boa. Com a senhora, em quatro anos minha aposentadoria melhorou muito”, disse Pastor. “Com ela não nos faltava nada”, completou Marta.

“Foi com a Cristina que comecei a me envolver em política, porque me senti identificado com ela, com todas as políticas de promoção de direitos das pessoas mais humildes”, disse o militante Facundo Ruiz, de 18 anos.

A ex-presidente está sendo investigada em processos que correm na justiça argentina, como por enriquecimento ilícito em sociedade com o filho e por ter acobertado o Irã nas investigações do atentado à sede da Amia (Associação Mutual Israelista Argentina), em 1994. Mesmo assim, possui um apoio eleitoral fiel, que lhe deu a vitória nas prévias das eleições legislativas, no fim de agosto, com 34,27%, ante 34,08% de Bullrich.

“Cada um de vocês deve convencer mais duas pessoas da necessidade de colocar um freio, um limite, a esse governo, não por nós, mas por todos os argentinos e argentinas”, disse Kirchner no estádio de Avellaneda.

Kirchner, claro, prega aos convertidos. Mas, como mostram os números, pode ser o suficiente para levar uma cadeira no Senado. “Apesar de ter uma alta taxa de rejeição, Kirchner também conta com uma porcentagem alta de adesão entre os setores mais humildes da província de Buenos Aires e franjas da classe média mais vinculadas ao ambiente universitário e ao pensamento popular e progressista”, afirma Daniel García Delgado, professor da Universidad de Buenos Aires (UBA) e diretor da área de estado e políticas públicas da Faculdade Latino Americana de Políticas Sociais da Argentina.

A estratégia de Bullrich

É esse tipo de identificação com o eleitorado que Bullrich não parece capaz de gerar, mesmo tendo um currículo relativamente robusto. Bullrich foi deputado nacional pela cidade de Buenos Aires, ministro da Educação da Cidade entre 2010 e 2015 e o ministro da Educação do país até ser escolhido por Macri para encabeçar a lista governista.

Sua estratégia de campanha foi, basicamente, não aparecer e deixar o protagonismo para outra importante mulher da política na Argentina, Maria Eugenia Vidal, do mesmo partido do atual presidente, o Pro. Nos últimos meses, ela percorreu os distritos da região, inaugurou obras públicas e fez campanha para a ida de Bullrich ao Senado.

Em diversos lugares, é seu rosto que aparece nos cartazes da coligação “Vamos Juntos”, o braço do Cambiemos em Buenos Aires, e não o do real candidato ao Senado. “Sem dúvidas que a protagonista da campanha do Cambiemos na província foi Vidal. A estratégia não tem grandes segredos: ela gerou um vínculo mais afetivo com o eleitorado desde sua eleição, em 2015, e com certeza o fortaleceu durante seus dois anos de gestão”, diz Gonzalo Arias, professor de comunicação política da UBA e autor do livro “Gustar, Ganar y Governar” (Gostar, ganhar e governar, em tradução livre) sobre campanhas eleitorais.

Em uma declaração dada no último domingo 15, o próprio Bullrich defendeu a liderança da colega. “Hoje, na província, Maria Eugenia é uma presença permanente, é a pessoa que os bonaerenses elegeram para liderar a transformação. É ela quem encabeça. Para nós, Maria Eugenia é o Messi”, afirmou.

Vidal foi eleita a primeira mulher a governar Buenos Aires em 2015. Desde então, a ascensão da popularidade da política de 44 anos tem sido meteórica. Uma pesquisa publicada em setembro pela consultoria Observatorio Eleitoral mostrou que Vidal tem uma imagem positiva para 49,8% dos eleitores na província – mais até que Macri, então com 44,2% e que Kirchner, com 35,1%. De acordo com uma reportagem da agência Bloomberg, o índice de aprovação da governadora é de 59%, segundo dados da última pesquisa da consultoria Elypsis.

A quatro dias do pleito, marcado para este domingo 22, as principais pesquisas de opinião dão vitória à lista encabeçada por Bullrich sobre a de Kirchner, por cerca de 3,8 pontos. Mas nada está decidido.