Após revoltas, Tunísia elege Assembleia Constituinte

País que deu início a Primavera Árabe se prepara para ir as urnas

Túnis – No dia 23 de outubro, dez meses e sete dias depois que o jovem Mohammed Bouazizi ateou fogo ao próprio corpo para condenar a injustiça do regime de Zin el Abidin Ben Ali, os tunisianos irão às urnas para participar de eleições históricas para a formação da Asembleia Constituinte.

A revolta popular suscitada após a demonstração de raiva de Bouazizi se estendeu por todo o país até que, em 14 de janeiro, Ben Ali deixou a Tunísia após presenciar, atônito, a recusa do Exército em reprimir os protestos.

Desde então, o descontentamento popular não parou, e sua determinação em conquistar uma sociedade mais justa e democrática forçou a renúncia de dois Governos transitórios, e obrigou a formação de um órgão para a defesa dos ideais da revolução, das reformas e da transição política.

Começava um processo de mudança em contínuo progresso, cheio de desafios e dificuldades. Um processo que contou com a contribuição de sindicatos de trabalhadores como a União Geral de Trabalhadores da Tunísia (UGTT), redes sociais da internet e redes de televisão árabes.

Em um primeiro momento, as eleições foram fixadas para 24 de julho, mas a falta de tempo ‘para renovar e atualizar o censo eleitoral’, como denunciou a Instância Superior Independente para as Eleições (ISIE), assim como para a preparação das formações políticas, convenceu o Governo a adiá-las.

Em todo este período e até o início da campanha no início de outubro, foram catalogados 1.521 registros eleitorais, sendo 827 de partidos políticos, 660 de candidatos independentes e 34 de coalizões.

Entre este grande número de agrupamentos e candidatos destacam-se vários nomes, muitos deles mais por sua tradição política do que por seu peso, como são os casos do Partido Democrático Progressista de Najib Chebbi, dos socialistas do Forúm Democrático pelo Trabalho e as Liberdades (FDTL), do marxista Partido Comunista dos Operários da Tunísia (POCT) e do islâmico moderado Al Nahda.

Este último, dirigido pelo histórico líder Rachid Ghannouchi, parte como um dos favoritos, como ficou visível em janeiro, quando milhares de pessoas receberam o carismático dirigente no aeroporto de Túnis após 21 anos de exílio.


A legalização desta legenda e o retorno de personalidades islâmicas após a queda de Ben Ali são vistos como um avanço no processo democrático por alguns, mas outros veem um perigo potencial para a tradição laica do país.

Agora, todos seguem as mesmas regras ditadas pelo ISIE, que impôs normas rigorosas, como a proibção da concessão de entrevistas aos candidatos para evitar que as coalizões com mais recursos levassem vantagem sobre as mais modestos.

Entretanto, este avanço das liberdades políticas e inclusive dos direitos humanos não pôde evitar que a instabilidade causada pelas revoltas tenha piorado drasticamente as perspectivas econômicas do país.

O porta-voz do Ministério das Finanças, Jamel Belhaj, afirmou em agosto que a economia teve um crescimento negativo de 3% nos seis primeiros meses de 2011 ‘por causa na regressão de 50% na receita do setor turístico e da produção industrial’.

Muitos expressaram descontentamento e desinteresse pelo fato de que a situação econômica, apontada como a origem das revoltas, tenha piorado, unida à multiplicação de partidos e candidatos, que não tiveram seus programas divulgados completamente.

De acordo com uma pesquisa elaborada em setembro pelo Instituto de Pesquisa e Tratamento de Informação Estatística, mais da metade da população tunisiana julgava ‘incompreensível’ a situação do país e se mostrava descontente com o momento econômico e social.

Além disso, o estudo mostrou que dois terços dos entrevistados não tinham decidido em qual força política votariam, e opinavam que os partidos políticos não os representavam.

Alguns temem que esse desinteresse afete a participação nas primeiras eleições da primavera árabe, que devem gerar uma assembleia que vai moldar o modelo político da nova Tunísia e satisfazer às aspirações de seu povo. EFE