Analistas elogiam pacote de socorro a bancos dos EUA

Para especialistas, além de compartilhar o risco com o setor privado, o governo conseguiu evitar desgastes na implementação das medidas

Os especialistas viram com bons olhos o plano de resgate aos bancos divulgado nesta segunda-feira (23/03) pelo Tesouro americano. Para eles, a decisão do governo de envolver o setor privado foi acertada não só pelo compartilhamento do risco com o setor privado, mas também por permitir uma melhor gestão da operação. “Outra grande vantagem é escapar de uma nova rodada de negociação com o Congresso. Isso poderia retardar demais a implementação das medidas e trazer sérios riscos para o país”, destaca a analista da consultoria Tendências, Alessandra Ribeiro.

O governo americano tem mostrado grande preocupação em não repetir os erros cometidos pelo Japão, que levou mais de dez anos para começar a se recuperar da crise bancária provocada pelo estouro da bolha imobiliária no país na década de 1990. Por isso, o Tesouro dos Estados Unidos se uniu ao Federal Reserve (Fed, o banco central americano) e à Corporação Federal de Seguro de Depósito (FDIC, na sigla em inglês), e criou dois modelos para a compra de ativos podres.

O primeiro, destinado ao setor bancário, terá como objetivo limpar o balanço dos bancos. O governo criará fundos para a compra dos ativos, que contarão com recursos públicos e de investidores privados. Serão oferecidos estímulos a investidores individuais, fundos de pensão e companhias de seguros para que participem dos fundos, que contarão com garantias do governo.

O sistema funcionará da seguinte forma: imagine que um banco tem uma carteira de empréstimos imobiliários avaliada em 100 milhões de dólares e deseja vender esses papéis. O banco, então, procura a FDIC que prepara um leilão para a venda dos ativos. Os investidores privados interessados fazem suas propostas e, a melhor delas, fica com os títulos, formando um fundo em pareceria com o governo americano. Suponhamos que o vencedor do leilão tenha aceitado pagar 84 milhões de dólares pelos ativos. Destes 84 milhões de dólares, 72 milhões de dólares seriam garantidos pela FDIC. Os outros 12 milhões de dólares ficariam a cargo do Tesouro americano e do investidor privado. O Tesouro aplicaria 50% do valor – no caso 6 milhões de dólares – e o investidor privado os outros 50%.

As garantias da FDIC sempre serão equivalentes a até seis vezes o valor aplicado pelo Tesouro e pelo investidor individual. Os fundos serão geridos pelos investidores privados, ficando submetidos à fiscalização da FIDC. Ganhos e perdas serão compartilhados pelos participantes.

“É uma boa saída porque ninguém sabe quanto valem esses ativos. Se o governo socorresse os bancos sozinho, ninguém saberia se o valor pago pelos ativos teria sido barato ou caro. Se fosse muito baixo, não ajudaria os bancos e, se fosse muito alto, prejudicaria o contribuintes”, afirma Silvio Campos Neto, economista-chefe do Banco Schahin.

O segundo modelo é destinado a papéis lastreados em hipotecas que estão no mercado secundário, e consiste em uma expansão do Programa de Crédito a Termo de Títulos Lastreados em Ativos (Talf, na sigla em inglês), criado para comprar títulos lastreados em empréstimos a consumidores e pequenas empresas. Somente poderão ser negociados os títulos que inicialmente receberam nota máxima das agências de classificação de risco.

O Tesouro selecionará até cinco gestores para levantar os recursos necessários para a compra dos ativos. Para cada dólar levantado pelo gestor, outro dólar será depositado pelo governo, que também providenciará os recursos do Talf. Digamos que o gestor de um dos fundos tenha levantado 100 milhões de dólares para a compra de ativos tóxicos. O Tesouro colocará no fundo mais 100 milhões de dólares e providenciará outros 100 milhões de dólares do Talf, totalizando 300 milhões de dólares para a compra dos ativos.

Os especialistas acreditam que haverá demanda pelos títulos, que hoje apresentam baixo valor, mas que no futuro poderão gerar um alto retorno para os investidores. “O resultado poderá ser parecido com o do Proer, que gerou bons ganhos para quem investiu”, diz Campos Neto. O Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Fortalecimento do Sistema Financeiro Nacional (Proer) foi lançado nos anos 1990 no Brasil para recuperar os bancos em dificuldade.

Em artigo publicado nesta segunda-feira pelo Wall Street Journal, o secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Timothy Geithner, explica que o plano de ajuda, batizado de Programa de Investimento Público-Privado, vai criar um mercado para os ativos tóxicos. Com o tempo, o governo espera que esses títulos voltem a ganhar valor, que os bancos aumentem sua capacidade de emprestar e que as dúvidas em relação aos prejuízos dos bancos sejam reduzidas.

“O governo americano está demonstrando disposição para resolver o problema. Como essas medidas são inéditas, não sabemos se irão ou não dar certo. A expectativa é de que aos poucos a confiança no sistema bancário seja restabelecida”, diz Mariam Dayoub, estrategista da Arsenal Investimentos.

A princípio, o Programa de Investimento Público-Privado utilizará entre 75 e 100 bilhões de dólares do Tesouro para gerar 500 milhões em poder de compra de ativos podres. Com o tempo, o governo espera que o potencial de compra seja expandido para 1 trilhão de dólares.

Esses recursos fazem parte do Programa de Alívio de Ativos Problemáticos (Tarp), o pacote de 700 bilhões de dólares aprovado pelo Congresso em outubro do ano passado para socorrer as instituições financeiras.