América Latina voltará ao centro da política externa dos EUA

Após quatro anos voltados para a Ásia e a Europa, os americanos deverão se concentrar na conclusão de tratados de livre comércio com países latino-americanos nos próximos quatro anos

Qualquer que seja o vencedor das eleições programadas para o mês que vem, o próximo presidente dos Estados Unidos já tem uma prioridade na sua agenda de política externa: a conclusão de tratados de livre comércio com países da América Latina. Embora a meta seja a mesma, o presidente republicano George W. Bush, candidato à reeleição, e seu adversário democrata, o senador John Kerry, possuem estratégias diferentes. Mas, segundo especialistas em política internacional, qualquer que seja a tática, as negociações com os latino-americanos podem não ser bem-sucedidas.

Há dois principais desafios para os Estados Unidos em relação à região. O primeiro é a necessidade de se aprovar o acordo de livre comércio com cinco países da América Central, que tramita atualmente no Congresso americano. Parlamentares ligados ao setor têxtil e a alguns outros ramos industriais resistem à idéia de aprovar um tratado que prevê a redução de tarifas americanas de importação, o que permitiria o aumento da entrada de têxteis e outros produtos nos Estados Unidos.

Se vencer, Bush deverá se apoiar no lobby dos grandes atacadistas e varejistas americanos, bem como dos importadores, para forçar a aprovação do acordo pelo Congresso. O republicano também acena com a promessa de reduzir drasticamente as importações de artigos têxteis da China, como forma de amenizar os protestos da indústria americana. Já Kerry propõe a renegociação do acordo, a fim de incluir cláusulas trabalhistas e ambientais. A posição é semelhante à do ex-presidente democrata Bill Clinton que, em 1993, renegociou o acordo de criação do Nafta (área de livre comércio da América do Norte) para incluir cláusulas semelhantes.

Brasil

Segundo o americano The Wall Street Journal, o Brasil é um desafio à parte para a política externa americana nos próximo quatro anos. Isto porque as divergências entre os dois países dificultam a conclusão da Alca (Área de Livre Comércio das Américas). Caso Bush continue na Casa Branca, a condução das negociações seguirá na mesma linha. Isto significa que os Estados Unidos continuarão negociando acordos em separado com outras nações, como Peru, Chile e Colômbia, enquanto pressionam os grandes países da região, como o Brasil, a abrandarem sua posição.

A principal reivindicação brasileira é que os Estados Unidos abram seu mercado agrícola. Neste ponto, conforme The Wall Street Journal, Bush e Kerry têm posições semelhantes. Ambos pregariam uma redução global dos subsídios agrícolas, com o intuito de conquistar parte do mercado europeu em troca de possíveis perdas causadas pelos brasileiros no mercado americano. O problema é que a conclusão de uma negociação tão ampla poderia levar muitos anos. Diante dessa alternativa, Estados Unidos e Brasil poderão optar por assinar um acordo bem mais modesto para a criação da Alca, que não estimule tanto o livre comércio quanto se pretendia.