Ameaça futura? Mudança climática é o presente incendiário da Califórnia

Mais destrutivas e mortais ondas de incêndios no estado norte-americano entram na segunda semana

São Paulo – Ao menos 78 pessoas morreram e mais de 1.000 estão desaparecidas nos mais mortais incêndios da Califórnia, que entram na sua segunda semana. Desde que se iniciou, em 8 de novembro no norte do estado norte-americano, o Camp Fire já destruiu quase 10 mil casas e ceifou incontáveis vidas animais.

A pequena cidade de Paradise é a mais afetada pelo fogo, que já consumiu mais de 60 mil hectares. O segundo foco de incêndio — o de Woolsey — nos arredores de Los Angeles, no sul do estado, já destruí centenas de casas, entre as quais as da cantora Miley Cyrus e do ator Gerard Butler.

As causas destes incêndios ainda estão sendo investigadas. Há quem ponha a culpa em falhas em redes elétricas e quem responsabilize a intervenção humana. Mas há um pano de fundo por trás desses desastres: as mudanças climáticas.

visitam os locais destruídos pelo incêndio em Paradise, Califórnia, em busca de sobreviventes Equipes de resgate visitam os locais destruídos pelo incêndio em Paradise, Califórnia, em busca de sobreviventes

Equipes de resgate visitam os locais destruídos pelo incêndio em Paradise, Califórnia, em busca de sobreviventes (Justin Sullivan/Getty Images)

O fogo é uma parte natural da ecologia da Califórnia. Por meio de queimadas frequentes, as florestas do norte ao sul da região evoluíram ao longo de milhares de anos: elas ajudam a regenerar e espalhar sementes para a próxima geração de árvores. Mas, o tamanho e a ferocidade dos incêndios que varrem o estado estão aumentando.

Dos 20 maiores incêndios florestais registrados na história da Califórnia, 15 ocorreram desde o ano 2000. Só em 2017, segundo o Departamento de Agricultura dos EUA, a temporada de incêndios custou mais de US$ 2 bilhões, a mais cara já registrada. A maioria dos anos mais quentes e mais secos do estado ocorreu durante as duas últimas décadas também.

Aviões tentam conter incêndios em Malibu, Califórnia (EUA) Aviões tentam conter incêndios em Malibu, Califórnia (EUA).

Aviões tentam conter incêndios em Malibu, Califórnia (EUA). (Eric Thayer/Reuters)

Não há coincidências aqui. O ar mais quente e a redução das chuvas deixam as árvores, os arbustos e as pastagens mais secos e, portanto, mais propensos a queimar. Devido a esse efeito, os incêndios florestais estão se tornando mais frequentes e violentos por lá. Para piorar, esse ciclo de queimadas retroalimentam a mudança do clima.

Explica-se: as florestas saudáveis removem o dióxido de carbono (CO2), o principal gás causador do efeito estufa, da atmosfera e o armazenam como carbono enquanto crescem. Quando as árvores morrem, elas liberam CO2 de volta para a atmosfera. Incêndios como os que castigam a Califórnia podem resultar em grandes emissões de CO2 de volta para o ar, o que alimenta o efeito estufa.

Centenas de pessoas ficam desabrigadas por conta dos incêndios na Califórnia Centenas de pessoas ficam desabrigadas por conta dos incêndios na Califórnia.

Centenas de pessoas ficam desabrigadas por conta dos incêndios na Califórnia. (Terray Sylvester/Reuters)

Há outro fator que explica a dimensão da tragédia na Califórnia: as pessoas estão cada vez mais se movendo para áreas próximas às florestas, conhecidas como interface urbano-floresta, que estão propensas a queimar. A população do estado está se aproximando aproximando de 40 milhões, com um incremento de 300.000 pessoas por ano desde 2010. Ao menos 5 milhões de residências se encontram nessas fronteiras perigosa, o que aumenta o risco de encontros mortais com o fogo.