Acordo é primeiro passo para sono tranquilo na Península Coreana

Na sexta-feira, governantes das Coreias do Norte e do Sul concordaram em pôr fim oficialmente ao estado de guerra dentro de um ano

Sete meses atrás, na Assembleia Geral das Nações Unidas, o presidente Donald Trump apelidou o ditador norte-coreano, Kim Jong-un, de “homem foguete numa missão suicida”. O rótulo fazia sentido na época, com o regime norte-coreano testando mísseis freneticamente, e ameaçando atacar os EUA, uma potência militar infinitamente mais poderosa.

Na sexta-feira, um outro Kim, irreconhecível, cruzou a fronteira entre as duas Coreias, para cumprimentar calorosamente o presidente sul-coreano, Moon Jae-in. “Ouvi falar que seu sono matutino foi perturbado muitas vezes para ir a reuniões do Conselho de Segurança Nacional por nossa causa”, desculpou-se Kim, referindo-se aos testes dos mísseis norte-coreanos. “Acordar cedo deve ter se tornado um hábito para você. Vou cuidar para que seu sono matutino não seja mais perturbado.”

Moon respondeu: “Agora posso dormir em paz”. O diálogo deu uma dimensão humana à Declaração de Panmunjom, uma carta de intenções de três páginas na qual os dois governantes se comprometem a fazer gestões com os Estados Unidos — que mantêm um arsenal nuclear na região — para “desnuclearizar” a Península Coreana, o que implica também o fim do programa nuclear norte-coreano.

Kim já havia anunciado o fim dos testes com mísseis, afirmando que eles “não são mais necessários”. Supostamente seu país já dominaria a tecnologia de miniaturizar uma ogiva nuclear e encaixá-la em um míssil de longo alcance capaz de cumprir sua trajetória até o alvo.

Mais surpreendente ainda do que a preocupação de Kim com o sono de Moon foi o seu humilde realismo na comparação entre as condições das duas Coreias. De acordo com o porta-voz do presidente sul-coreano, Yoon Young-chan, quando Moon manifestou o desejo de visitar a Coreia do Norte, Kim respondeu: “Será muito constrangedor”, referindo-se ao mau estado das estradas de seu país. Kim admitiu também que os norte-coreanos que foram aos Jogos de Inverno da Coreia do Sul, em fevereiro, ficaram admirados com o trem-bala sul-coreano.

Essas declarações contrastam muito com a postura do regime, que trata a dinastia Kim (fundada pelo avô de Jong-un, Kim Il-sung, no final dos anos 40) com uma idealização mística, como os líderes mais perfeitos e inquestionáveis da face da terra.

A modéstia revela uma ansiedade de Kim de atrair ajuda sul-coreana. O ditador, no poder desde 2011, prometeu melhorar as condições de vida da população. Há sinais de que isso aconteceu, dando origem a uma classe média relativamente exigente. É provável que Kim esteja preocupado com o impacto das sanções impostas recentemente pelo Ocidente, que poderiam reverter essas pequenas conquistas, deteriorar as condições de vida até do círculo íntimo do poder e finalmente debilitar seu regime.

Moon entende essa dinâmica e recordou a Kim que há anos a Coreia do Sul havia prometido investimentos nas rodovias e ferrovias norte-coreanas, indicando que, se o acordo entre os dois países seguir adiante, isso se concretizará.

Em setembro, uma resolução aprovada pelo Conselho de Segurança da ONU baniu as exportações norte-coreanas de carvão, minério de ferro, pescados e têxteis. A medida englobou 90% das exportações do país em dólares. Já em dezembro, outra resolução reduziu para apenas meio milhão de barris ao ano a quota de petróleo que o país pode importar — um corte de 90% em relação ao ano anterior.

As sanções também proibiram a China e outros países de empregar imigrantes norte-coreanos, e milhares deles tiveram de voltar para o país. Seus salários eram pagos diretamente ao governo norte-coreano, e representavam uma fonte de divisas para o país.

Kim introduziu uma tímida abertura da economia, dando mais autonomia a fazendas e fábricas para vender seus produtos diretamente no mercado, em vez de passar pelos distribuidores estatais. Dessas atividades lucrativas começou a surgir uma pequena classe média. A elite no poder também se aproveitou, acumulando estoques para vender a preços melhores e comprando moeda forte.

Em fevereiro, os EUA adotaram novas sanções, anunciando que bloqueariam 56 cargueiros que estariam transportando petróleo e outros produtos banidos para a Coreia do Norte. O cerco foi se fechando. A perspectiva de desabastecimento pode ter influenciado na decisão de Kim de negociar — embora não fosse a primeira vez que os norte-coreanos enfrentassem esse tipo de problema.

“Nós perguntamos às pessoas sobre as sanções”, contou Linda Lewis, representante na Coreia do Norte da entidade humanitária American

Friends Service Committee, ao jornal The New York Times. Segundo ela, a resposta mais comum é: “Nunca experimentamos um vida sem sanções, então como poderíamos saber?”

O mais provável é que Kim tenha decidido apelar para o desejo de Moon de normalizar a situação na península, considerando que a hostilidade entre as duas Coreias enfraquece os dois países perante os Estados Unidos, a China e o Japão.

Na campanha para a eleição de maio do ano passado, Moon manifestou esse desejo de reaproximação. Seus pais eram refugiados, que deixaram a Coreia do Norte durante a Guerra da Coreia (1950-53). Moon cresceu ouvindo do pai que seu sonho era visitar sua terra natal. Ele morreu sem realizar o sonho, mas sua mãe conseguiu, em uma das incursões permitidas, em julho de 2004. A última reunião de familiares ocorreu em outubro de 2015. No início do ano seguinte, a então presidente sul-coreana, Park Geun-hye, rompeu o diálogo, em reação aos testes com mísseis e com a bomba de hidrogênio, realizados pela Coreia do Norte. Park, de tendência nacionalista, acabou destituída no início do ano passado, e acaba de ser condenada à prisão, por corrupção.

A última reunião de cúpula entre os dois países ocorrera em outubro de 2007, quando Moon era chefe de gabinete do então presidente Roh Moo-hyun. Coube a Moon acertar os detalhes do encontro.

Na sexta-feira, os dois governantes concordaram em pôr fim oficialmente ao estado de guerra dentro de um ano. Isso envolverá os Estados Unidos, que participaram da guerra entre 1950 e 1953. E a China, que faz fronteira com a Coreia do Norte, sustenta o regime com apoio econômico e político, e deve exigir a retirada dos 28 mil militares americanos estacionados na Coreia do Sul.

“As Coreias do Sul e do Norte confirmaram o objetivo comum de alcançar, por meio da completa desnuclearização, uma Península Coreana livre de armas nucleares”, afirma a declaração conjunta.

Não seria o primeiro acordo entre Coreia do Norte e Estados Unidos. Desde os anos 90, os dois países já firmaram três. Em linhas gerais, sempre com o mesmo formato: os EUA garantiriam a segurança energética do pequeno país, que por sua vez abriria mão de suas ambições nucleares. Os dois lados acabaram sempre descumprindo os acordos.

Pelo acordo firmado em 1994 pelo presidente Bill Clinton e pelo ditador Kim Il-sung, avô de Jong-un, os EUA forneceriam petróleo e construiriam um reator nuclear para geração de energia elétrica na Coreia do Norte, e permitiriam o fornecimento de alimentos, enquanto os norte-coreanos desistiriam de seu programa nuclear.

Kim Il-Sung morreu naquele ano e seu filho, Kim Jong-il, assumiu com a preocupação de se consolidar no poder. De sua parte, o governo seguinte, de George Bush pai, não aprovou no Congresso os recursos para a construção do reator, e o fornecimento de petróleo acabou sendo irregular. Kim Jong-il manteve seu programa nuclear, e o acordo fracassou.

Em entrevista ao canal de TV Fox News, Trump ameaçou na quinta-feira desistir de sua reunião de cúpula com Kim, prevista para o fim de maio ou início de junho. Na sexta, depois do encontro entre Kim e Moon, ele tuitou: “Coisas boas estão acontecendo, mas só o tempo dirá!”

Quinze minutos mais tarde, escreveu, com letras maiúsculas: “A guerra da Coreia pode acabar!” Trump também agradeceu o presidente chinês, Xi Jinping, por sua “grande ajuda” no processo.

O Ministério das Relações Exteriores em Pequim elogiou a “coragem” dos dois líderes, e comemorou a “nova jornada” para a paz na Península. Xi recebeu Kim em março em Pequim, para mostrar quem estava com a iniciativa nesse processo. Só depois do encontro secreto telefonou para Trump, para informá-lo sobre a conversa.

Na sexta, Xi estava em outra reunião de cúpula, com o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi. China e Índia são rivais na Ásia, e o governo chinês tem cooptado, com investimentos e ajuda, países considerados como pertencentes ao quintal indiano, como Sri Lanka, Nepal e Ilhas Maldivas. Então os dois tinham muito o que conversar.

As ambições chinesas e americanas são tentaculares. Já os coreanos querem apenas ter um sono tranquilo.