Abusos sexuais contra militares nos EUA continuam na sombra

Homens que servem nas Forças Armadas americanas continuam a ter medo de denunciar assédios sexuais

Washington – Os homens que servem nas Forças Armadas dos Estados Unidos continuam a ter medo de denunciar assédios sexuais por causa do peso da cultura militar masculina e o temor de perder as possibilidades de subir na hierarquia militar.

O Departamento de Defesa anunciou nesta quinta-feira o aumento de 50% das denúncias de abusos sexuais e estupros em 2013 graças às campanhas para facilitar as vítimas a revelarem seus casos e as revisões das políticas que estão na origem desse problema.

Apesar dos avanços, o Pentágono acredita que os homens continuam a esconder os problemas de estupro e de assédio sexual por medo do estigma de uma cultura militar que reforça o conceito do “machão”.

O secretário de Defesa, Chuck Hagel, disse recentemente em entrevista coletiva que entre as diretivas aprovadas no último ano há medidas para estimular os homens a denunciarem os abusos, já que o Pentágono estima que a metade dos soldados vítimas sejam do sexo masculino.

Em 2013 foram denunciados 5.061 casos de abuso sexual nas Forças Armadas, acima dos 3.374 de um ano antes.

Oitenta e quatro por cento das denúncias foram realizadas por mulheres, o que permite estimar que um grande número de abusos a homens permanece oculto por medo das consequências, exatamente o que o Departamento de Defesa quer combater.

“Temos que lutar contra os estigmas culturais que fazem os homens desistirem de denunciar. Temos que deixar claro que estes ataques não acontecem porque a vítima é frágil, mas porque o abusador despreza nossos valores e a lei”, explicou Hagel.

Os dados indicam que 6,8% das mulheres militares denunciam abusos, definidos sob a lei militar como “contato sexual não desejado”, toques, sodomia ou estupro, enquanto entre os homens o nível de denúncias é de apenas 1,2%.

Na entrevista coletiva posterior à apresentação do relatório, Nate Galbreath, responsável pela pesquisa, disse que esses dados são “a ponta do iceberg” e é difícil determinar com clareza as razões pelas quais os homens denunciam menos.

“Há uma percepção errada de que este problema é coisa de mulher”, explicou Galbreath.


Os dados do Pentágono indicam que um grande número de ataques sexuais envolvem o consumo de álcool, a violência e ataques vindos de hierarquias um pouco superiores superiores.

Por isso, além de habilitar uma linha de atenção às vítimas, políticas de prevenção e uma mudança no modo como são processados estes casos na Justiça militar, o Pentágono focou na regulação da venda e do consumo de álcool dentro das bases.

A maioria das vítimas tem sub categoria (de soldado a cabo), enquanto os agressores costumam ser tenentes e sargentos, com idades que variam entre os 18 e os 35 anos.

Isto indica que são os superiores imediatos em categorias baixas os que aproveitam da sua posição para abusar das vítimas.

“A maioria são colegas, menos de 25% (dos acusados) são oficiais”, detalhou Galbreath.

O perfil dos agressores é mais dividido do que o de denunciantes: 35% são homens, 40% mulheres e no resto dos casos homens e mulheres são acusados de abuso conjuntamente.

O governo de Barack Obama deu atenção especial nos últimos anos ao combate do abuso sexual em todas as facetas da sociedade e especialmente nas Forças Armadas, onde rege um código de justiça diferente e tinha se optado por uma cultura de negligência mantida por muitos altos oficiais.

Hagel disse que “os abusos sexuais são um dos piores crimes que uma pessoa pode cometer contra outra, e um inimigo dos vínculos de confiança no coração das Forças Armadas”.