A vez do otimismo para a América Latina

Apesar dos maus exemplos da Venezuela e da Argentina, investidores estão animados com a região, avalia Nick Allan, o presidente global da Control Risks

Os investidores internacionais estão otimistas quanto ao panorama para os negócios na América Latina, que consideram estar mais dinâmico e competitivo em razão da chegada dos investimentos chineses. Essa é a visão de Nick Allan, presidente da Control Risks, uma das maiores consultorias de risco do mundo, que tem como missão ajudar as empresas a navegar nas águas turbulentas das relações globais.

Em entrevista exclusiva a EXAME, o executivo falou sobre as perspectivas não só para a região, mas também para o Brasil, país que continua em destaque na mira dos investidores. Veja a entrevista na íntegra:

Transformações geopolíticas recentes causaram o aumento nos riscos de instabilidades econômicas e transformaram drasticamente o panorama político global. Quais as perspectivas para a América Latina?

Nick Allan: A América Latina sempre foi um continente de contrastes. Do ponto de vista de negócios, investidores enxergavam a ascensão de governos populistas e políticas econômicas convencionais. Uma região de oportunidades, rica em recursos naturais e com uma população jovem. Alguns países crescendo rapidamente, outros nem tanto, como o Brasil.

Agora, vejo que as coisas mudaram um pouco, mas no sentido de que observamos a rejeição aos governos populistas de esquerda. Há, no entanto, otimismo em torno de vários países, como o Brasil, Chile, Colômbia e Peru, por exemplo, assim como o México.

Como está o clima entre os investidores internacionais para o Brasil?

Nick Allan: O Brasil continua apresentando a maior oportunidade, por causa do tamanho da economia e a população jovem. Os investidores estão atentos aos desdobramentos da aprovação da reforma da Previdência, uma questão importante para o país.

Vemos que os políticos chegam ao mandato com grandes planos, mas esses planos mudam no momento em que encaram a realidade política do país. E esse certamente será o maior desafio do governo de Jair Bolsonaro: como fazer com que o Congresso aprove as medidas que ele deseja.

Ainda assim, os investidores estão otimistas e particularmente aliviados por causa de algumas indicações feitas pelo novo presidente, consideradas escolhas ortodoxas do ponto de vista da economia e competentes tecnicamente.

Quais as questões-chave na região hoje?

Nick Allan: Do ponto de vista dos investidores internacionais, as questões-chave são o Estado de Direito, corrupção, regulação e estabilidade política.

Mas há também uma dinâmica interessante, com o panorama dos investimentos mudando em razão dos chineses que buscam entrar na América Latina: estão interessados nas riquezas naturais de uma região que precisa de investimentos em infraestrutura, algo em que eles são bons.

Além disso, as mesmas transformações que estão impactando o mundo também estão impactando a América Latina. Por isso, acredito que a guerra comercial entre China e Estados Unidos também será sentida por aqui.

Em que sentido? Na sua visão, a guerra comercial é uma oportunidade ou uma ameaça para a América Latina?

Nick Allan: A América Latina não está no meio dessa disputa, que é sobre equilíbrio comercial. Os Estados Unidos estão conscientes dos avanços dos chineses em áreas consideradas chave para a sua dominância cultural, econômica e tecnológica norte-americana. Creio, contudo, que a guerra comercial pode representar oportunidades e ameaças para a região.

Uma oportunidade justamente no sentido de que a região não está envolvida diretamente e seus países hoje se beneficiam de uma relação mais próxima com a China, buscando investimentos particularmente em infraestrutura. A questão é como fazer um bom uso desses investimentos sem transformar a relação em dependência.

Agora, pode ser uma ameaça se os Estados Unidos enxergarem os investimentos da China na região como competitivos. Isso pode fazer com que os norte-americanos pressionem os países da América Latina a favorecer seus investidores em detrimento dos chineses.

Se a política não atrapalhar, é provavelmente uma boa oportunidade. Mas, se a política atrapalhar, isso pode complicar a situação, já que a China tem muito a oferecer à América Latina.

As crises na Venezuela e na Argentina podem contaminar o clima dos investidores para a região?

Nick Allan: Na América Latina, temos exemplos de tudo o que esses investidores não querem. E isso provavelmente não é uma propaganda atraente para quem pensa em investir na região e faz com que os investidores questionem até que ponto outros países podem seguir pelo mesmo caminho.

A situação na Venezuela, um país que sempre foi muito importante para os negócios internacionais, se agravou e os riscos mais temidos se concretizaram em termos de apreensão de bens e nacionalização de operações.

Na Argentina, o clima é de desespero, especialmente por conta do risco da volta do kirchnerismo, que muitos pensavam ter ficado no passado. Quando o atual presidente, Mauricio Macri, anunciou o pacote econômico de controle de preços, a decepção dos investidores era visível, já que esperavam medidas diferentes. No fim, algumas de suas políticas não eram tão diferentes da era Kirchner.

Qual é a sua avaliação sobre o papel do Brasil na América Latina atualmente?

Nick Allan: Está muito claro que veremos uma política externa cada vez mais vocal. O Brasil sempre foi uma voz importante na comunidade internacional e as pessoas querem ouvi-lo quando pensam em América Latina. Veremos um presidente mais ativo nesse sentido e um exemplo disso está no reconhecimento de Juan Guaidó como presidente da Venezuela. Isso mostra que o país quer ter alguma influência na região.

Na política doméstica, as indicações aos ministérios, como Paulo Guedes à frente da equipe econômica, e Sergio Moro na Justiça, foram bem recebidas por governos como Chile e Colômbia. Então, acredito que vamos ver mais do Brasil e isso é importante, já que é um parceiro comercial fundamental para os países da região.

O Mercosul foi severamente criticado pelo presidente Bolsonaro durante a campanha presidencial. Como os investidores estão olhando para o futuro da integração econômica na América Latina?

Nick Allan: Políticas de integração econômica em todo o mundo podem se beneficiar de um novo olhar. É o que vimos com os Estados Unidos e o Nafta (Tratado Norte-Americano de Livre Comércio): o presidente Trump fez muito barulho, negociou apenas alguns termos e mudou o nome da tratativa para Acordo Estados Unidos-México-Canadá. No fim, o acordo sobreviveu.

Isso mostra que políticos falam muito durante a campanha, mas os desafios de remodelar um acordo como o Mercosul são enormes, especialmente quando lembramos que um parceiro fundamental nisso, a Argentina, vive uma severa crise.

Eu não acredito em um grande movimento e não acho que os investidores estão preocupados com isso. O foco está nas reformas políticas no Brasil e, vamos ser honestos, a ação está toda aqui.