A última do Capitão Kirk

Quem é e como age Kirk Kerkorian, o polêmico investidor que quer tirar a GM da crise

O empresário e investidor Kirk Kerkorian poderia ser definido como o garoto-problema do capitalismo americano. Onde decide colocar seus dólares, há discussões, tentativas hostis de tomadas de controle e muita, muita confusão. O detalhe é que o “Capitão Kirk”, como é conhecido em alguns círculos, não é propriamente um menino rebelde, que se diverte com as próprias estripulias. Kerkorian completou recentemente 87 anos — uma idade na qual a maioria dos mortais, sobretudo aqueles que já ganharam muito dinheiro na vida, prefere saborear os frutos do trabalho. Ele, porém, mostra uma incrível disposição quando o assunto é sacudir Wall Street.

A última do Capitão Kirk foi sua oferta-surpresa por um substancial lote de ações da General Motors. Há alguns dias, Kerkorian ofereceu 878 milhões de dólares pela aquisição de 4,8% das ações da maior montadora do mundo, envolvida em uma das piores crises de sua história (recentemente, as ações da companhia foram rebaixadas por agências de classificação de risco para o patamar de junk bonds). Se for aceita, o que será decidido no próximo dia 20 de maio, a estratégia vai elevar sua participação na GM de 4% para 8,8%, transformando-o no terceiro maior acionista individual da companhia. O lance deixou muitos analistas desnorteados. Como Kerkorian espera lucrar com uma empresa que, no último trimestre, divulgou um prejuízo de 1,1 bilhão de dólares, vem perdendo participação em seu principal mercado, os Estados Unidos, e não encontra meios de reduzir seus gigantescos gastos com pensões e planos de saúde dos funcionários?

Especulações não faltam. Alguns apostam que Kerkorian está de olho, na verdade, na lucrativa GMAC, empresa de seguros e financiamentos da GM, cuja venda poderia render algo em torno de 20 bilhões de dólares. Há os que acreditam que esse seria o primeiro passo para uma futura tentativa de tomada hostil da empresa. Outros crêem que, na verdade, a idéia é atormentar a diretoria da montadora a tal ponto que a empresa lhe pague uma soma astronômica para abandoná-la. A julgar pela conturbada trajetória profissional do Capitão Kirk, todas as alternativas são perfeitamente plausíveis. Kerkorian tem um extenso currículo de confusões — inclusive no ramo das montadoras. No início dos anos 90, sua empresa de investimentos, a Tracinda Corporation (uma conjunção fonética com o nome de suas filhas Tracy e Linda), adquiriu secretamente ações da Chrysler, então em situação financeira tão ou mais penosa que a GM. Em 1995, ele havia se tornado seu maior acionista, com 13,7% de participação. De posse de 20,5 bilhões de dólares, Kerkorian fez uma tentativa fracassada de tomada hostil. Três anos mais tarde, embolsou mais de 4,5 bilhões de dólares quando da aquisição da empresa pela alemã Daimler-Benz.

Dono de uma fortuna estimada em 9 bilhões de dólares, Kirk Kerkorian tem uma trajetória curiosa. Americano, filho de imigrantes armênios, ele nem sequer chegou a cursar o ensino médio. Sua primeira profissão foi de boxeador, atividade interrompida pela Segunda Guerra, período em que serviu como piloto voluntário na Royal Air Force britânica. Sua estréia no mundo dos negócios foi em 1948, quando, motivado pela experiência durante o conflito, comprou um avião por apenas 12 000 dólares. Com essa única aeronave, Kerkorian criou uma companhia de transporte aéreo, a Trans International Airlines, dedicada a levar homens de negócios de Los Angeles para jogar em Las Vegas. Vinte anos mais tarde, ele vendeu a companhia por 100 milhões de dólares. Mas a grande virada de sua carreira foi a compra dos estúdios da MGM. A aquisição rendeu-lhe prestígio, passaporte para se tornar dono de metade dos cassinos de Las Vegas e muito, muito dinheiro. De lá para cá, Kerkorian já comprou e vendeu o estúdio por três vezes, a última delas para a Sony, por 5 bilhões de dólares.

Nesse processo de compras e vendas, Kerkorian protagonizou casos que ficaram marcados pela forma agressiva de atuação (veja quadro). Um dos mais célebres aconteceu no final dos anos 70. Em segredo, ele acumulou 24% das ações da Columbia Pictures e tentou impor uma fusão com a MGM, da qual era o maior acionista. A tentativa fracassada envolveu a Columbia num pesadelo litigioso tão grande que, no final, os outros acionistas aceitaram comprar as ações de Kerkorian por 137 milhões de dólares, o dobro do que ele havia pago por elas. Desta vez, porém, alguns analistas vêem o reforço de posição do Capitão Kirk na GM como de grande ajuda a Richard Wagoner, presidente mundial da montadora. Investido de mais poder, ele deve pressionar por fortes mudanças na estrutura da empresa, sobretudo com relação a seus gastos mastodônticos. A primeira participação de Kerkorian na nova condição pode acontecer no próximo dia 7 de junho, data em que expira o prazo da oferta-surpresa e também o dia da reunião anual dos acionistas da GM. Tudo pode ocorrer nessa data — menos uma pacífica confraternização de camaradas.

O estilo Kerkorian
Alguns episódios polêmicos envolvendo o empresário e as empresas em que
ele tem ou já teve participação
Western Airlines

Em 1968, Kerkorian compra 30% da Western Airlines. Membro da diretoria,
força a saída do CEO e tenta impor uma fusão com a American Airlines. O
fracasso o leva a revender as ações à companhia em 1976

Metrogoldwyn- Mayer
Em 1969,
Kerkorian adquire o estúdio. Depois disso, ele já o vendeu e recomprou por
três vezes. O último lance foi a venda à Sony, por 5 bilhões de dólares,
em abril deste ano
Columbia
Em 1978,
ele compra secretamente 24% da Columbia Pictures. Tenta fundi-la à MGM,
mas fracassa. No acordo com o estúdio, revende suas ações pelo dobro do
que havia pago 137 milhões de dólares
Chrysler
Dono de 14% da Chrysler, Kerkorian embolsou 4,8 bilhões de dólares quando
a empresa foi incorporada à Daimler-Benz, em 1998, mas alega ter sido enganado
no processo. Na Justiça, exige indenização de 1 bilhão de dólares