A saga dos “Bastardos Inglórios” da vida real

Novo livro narra a história dos Ritchie Boys, judeus alemães que fugiram do nazismo e se juntaram ao Exército americano para enfrentar a Alemanha nazista

São Paulo – Era 1938 quando o judeu Martin Selling, então com 20 anos, fora preso em Lehrberg, Alemanha, e enviado para o campo de concentração em Dachau, próximo da cidade de Munique. Um ano depois, teve a sorte de conseguir ser libertado com algumas dezenas de prisioneiros numa ação que não tinha nada de benevolente, visava apenas aliviar a superlotação do local. Em seguida, ele se mudou para a Inglaterra e, em 1940, conseguiu chegar aos Estados Unidos.

Martin Selling soldado judeu alemão que lutou contra o nazismo ao lado dos EUA Martin Selling soldado judeu alemão que lutou contra o nazismo ao lado dos EUA

Martin Selling soldado judeu alemão que lutou contra o nazismo ao lado dos EUA (Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos/Editora Planeta/Divulgação)

Esperando vingar os horrores que vivenciou no campo, Selling se alistou no Exército e acabaria se tornando um dos 1.985 judeus alemães recrutados pela inteligência americana para combater a Alemanha nazista. Eles foram treinados para interrogar prisioneiros alemães e fornecer o máximo de informação possível aos Aliados sobre os movimentos e estratégias do inimigo.

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O grupo ganhou o apelido de Ritchie Boys (“garotos Ritchie”) por causa do nome do quartel onde eles foram treinados, o Camp Ritchie, no estado americano de Maryland. Considerados a “arma secreta” das forças aliadas na guerra contra os nazistas, os Ritchie Boys conheciam sua língua, seus costumes, sua psicologia. Mais do que isso, tinham motivações pessoais para combatê-los.

E a história mostra que foram bem-sucedidos: segundo um relatório do Exército americano divulgado anos depois do fim da guerra, 60% da inteligência relevante para a vitória foram colhidas graças ao trabalho desses jovens.

Soldados praticam técnicas de interrogatório em alemão com prisioneiro em Camp Ritchie Soldados praticam técnicas de interrogatório em alemão com prisioneiro em Camp Ritchie

Soldados praticam técnicas de interrogatório em alemão com prisioneiro em Camp Ritchie (Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos/Editora Planeta/Divulgação)

Motivado a contar a história do grupo, o escritor americano Bruce Henderson acaba de publicar o livro Filhos e Soldados (Editora Planeta), que chega às livrarias brasileiras em 10 de setembro. Nele, o autor narra em detalhe a saga dos quase dois mil soldados judeus e reúne também imagens e relatos do grupo.

Em entrevista exclusiva a EXAME, Henderson diz que a história dos Ritchie Boys é uma das últimas sobre a Segunda Guerra Mundial que ainda não tinham sido totalmente exploradas. “O que mais me cativou foi o fato de estes jovens terem conseguido escapar dos nazistas e terem se voluntariado a voltar para derrotar Hitler alguns anos depois”, diz ele, que também escreveu o best-seller And The Sea Will Tell (“E o mar vai contar”, numa tradução livre), publicado em 1991.

Leia a seguir a entrevista concedida por escrito e na qual o escritor falou mais sobre quem, afinal, eram os Ritchie Boys, a sua relevância na história da vitória e as motivações desses jovens.

Bruce Henderson, autor de "Filhos e Soldados" Bruce Henderson, autor de “Filhos e Soldados”

Bruce Henderson, autor de “Filhos e Soldados” (Roger Tully/Editora Planeta/Divulgação)

EXAME – Por que contar a história dos soldados judeus conhecidos como Ritchie Boys agora, 73 anos depois do fim da Segunda Guerra?

Bruce Henderson – O que mais me surpreendeu nessa história foi justamente o fato de que ela não havia sido contada mais de 70 anos depois. Em parte, acho que isso tem a ver com o fato de que esses jovens faziam parte dos serviços de inteligência. Seu treinamento e envio à Europa eram confidenciais durante a guerra. Depois dela, poucos falavam sobre seus serviços, mesmo para suas famílias. Se eu não tivesse lido o obituário de um homem de mais de 90 anos que foi um Ritchie Boy, eu jamais saberia sobre isso e este livro jamais teria sido feito. Me sinto honrado de ter sido a pessoa a contá-la.

EXAME – Você entrevistou vários dos Ritchie Boys e produziu uma grande pesquisa sobre esse grupo e suas atividades na Segunda Guerra. Quais aspectos dessa história mais o fascinaram?

Bruce Henderson – Acho que o que mais me cativou foi o fato de esses jovens terem conseguido escapar dos nazistas – frequentemente sem suas famílias, que não conseguiram fazer o mesmo – e terem se voluntariado a voltar para derrotar Hitler alguns anos depois. Como judeus, sabiam o que aconteceria caso fossem capturados. Ainda assim, foram.

Treinamento em Camp Ritchie Treinamento em Camp Ritchie

Treinamento em Camp Ritchie (Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos/Editora Planeta/Divulgação)

EXAME – Os Ritchie Boys eram um grupo diverso, embora muitos dividissem alguns traços mais óbvios, como a religião, a nacionalidade e a situação de deslocamento. O que mais eles tinham em comum?

Bruce Henderson – O maior grupo, com cerca de 2 mil membros, era de judeus alemães. No livro, seguimos a história de seis deles, mas havia jovens de outros países – o segundo maior grupo era da Áustria, com cerca de 500. Além do conhecimento da língua, todos conheciam a geografia, a história, cultura e aspectos psicológicos do inimigo melhor do que qualquer um. E isso foi imensamente importante nos interrogatórios dos prisioneiros alemães e na tradução dos documentos.

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EXAME – Qual foi o papel desta unidade para a vitória dos Aliados contra os nazistas?

Bruce Henderson – Um relatório divulgado pelo Exército dos Estados Unidos no pós-guerra mostrou que 60% da inteligência mais valiosa obtida pelas operações no teatro europeu durante a guerra vieram dos Ritchie Boys. Quando você considera o tamanho desse grupo num universo de milhões de soldados, isso mostra o impacto incrível que tiveram. Eles realmente eram a “arma secreta” dos Estados Unidos e realmente ajudaram a vencer a guerra na Europa.

EXAME – Deve ter sido muito difícil para eles vivenciarem todo o tipo de violência na Europa e então enfrentar discriminação nos Estados Unidos por conta de suas nacionalidades. Depois disso, eles ainda se juntaram ao exército americano. Quais eram suas maiores motivações?

Bruce Henderson – Suas motivações foram além da ideia de lutar por seu novo país, os Estados Unidos, e ajudar a livrar sua terra natal do mal que a tomou. Mais do que isso. Eles foram para a Europa sonhando e esperando reencontrar suas famílias.

EXAME – Você encontrou histórias muito pessoais que vão além das faces militares e políticas da Segunda Guerra. O que o emocionou mais?

Bruce Henderson – O aspecto mais emocionante foi o momento em que os Ritchie Boys participaram da libertação dos campos de concentração. Eles entraram nesses campos sem saber se encontrariam suas famílias. Alguns conseguiram fazer isso, mas outros não. Muitos familiares acabaram morrendo no Holocausto.

Comentários

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